Fotografia: Hector Vivas - FIFA/FIFA via Getty Images
A França é daquelas equipas que, só de olhar para o póster, dizemos que já venceu! Os seus jogadores têm uma estampa atlética colossal, inspiram coragem, heroísmo, grandiosidade! A linha atacante mete medo! Até os que ficam sentados no banco, a limar as unhas, parecem bichos papões prontos a aterrorizar o sono de crianças e adversários. Oh, que surpresa, a esfrega de bola que ontem levaram!
A Espanha pouco mais é do que campeã europeia. Ainda o ano passado, para a Liga das Nações, já tinha ganho à França nas meias-finais, marcando 5. O que mudou desde então? A avaliar pelo que se viu ontem, não mudou nada. A Espanha continua a ser muito superior.
Os dois países são atualmente as duas grandes escolas de futebol mundial: ali se produzem os melhores jogadores. O caso francês chega a ser um abuso, basta ver a quantidade de jogadores nascidos em França, e ali formados, que depois vão acrescentar valor às seleções africanas. Entre as equipas que estiveram no mundial, apenas a África do Sul não tinha um jogador nascido em França. Cabo Verde tinha 3; Marrocos, 6; Senegal, 10; RD Congo, 11; Argélia, 13.
Só que os espanhóis não estão interessados em formar “cabeça de cartaz”, estrelas, jogadores decisivos em jogadas individuais, como Mbappé, Olise, Dembelé, Doué, Barcola, Cherki... A Espanha até tem um, porventura o melhor de todos – Yamal – mas isso é um acaso da sorte. O foco dos espanhóis é formar jogadores de equipa; jogadores que escondem os seus dotes na dimensão estratégica; jogadores aguerridos, que pensem o jogo como um todo, e não apenas no momento em que têm a bola.
Os espanhóis são lixados com a bola: são a equipa que durante mais tempo guarda a bola; e são ainda a equipa que mais rapidamente a recupera. Como resultado, os vigorosos, os possantes jogadores de França ontem ficaram pendurados nos seus pósteres, já que bola foi para eles um bem escasso. A França não só teve pouca bola para agredir o adversário como, as poucas vezes em que a teve, as suas ideias se deixaram enlear na teia espanhola. Os franceses, que passearam a sua agilidade por este mundial, ontem atascaram-se como soldados de botas pesadas num arrozal.
Hoje joga a Argentina e a Inglaterra, na outra meia-final. O futebol é o desporto mais rebelde a probabilidades, ainda assim, não me parece que o título de campeã do mundo e do melhor jogador de todos os tempos resista a uma equipa bem pensada, bem dirigida e com imenso apetite. A ver vamos.
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10 Jul 2026