Fotografia: Instagram via @carlossainz55
Quando carregamos em "publicar", estamos apenas a guardar uma memória ou também à procura de que alguém a veja? Entre férias, piscinas infinitas e pores do sol, a fotografia de verão tornou-se muito mais do que um simples registo. E, sem darmos por isso, talvez todos nos tenhamos transformado em criadores de conteúdo.
Há uns tempos, passei um fim de semana numa casa perdida no Alentejo. Daquelas com uma piscina infinita, paredes caiadas, silêncio suficiente para ouvir o vento e uma luz que parece ter sido desenhada para a golden hour. Em teoria, era o cenário ideal para desligar. Ler umas páginas. Deixar o telemóvel no quarto. Esquecer as notificações durante dois dias. Na prática, aconteceu precisamente o contrário. Cada detalhe parecia pedir uma fotografia. A flor junto à piscina. O reflexo da água. O pequeno-almoço na varanda. O biquíni novo que tinha comprado precisamente porque "ia ficar bem naquele sítio". E sempre que o telemóvel não estava por perto, sentia uma estranha ansiedade. Como se estivesse a perder uma oportunidade. Como se aquela imagem tivesse um prazo de validade e precisasse de ser partilhada imediatamente.
É fácil apontar o dedo a quem vive das redes sociais. Afinal, para muitos criadores de conteúdo, mostrar as férias faz literalmente parte do trabalho. Há campanhas, contratos, métricas e uma audiência que espera acompanhar cada destino. Faz sentido. O problema é que essa lógica já não pertence apenas a quem faz disso profissão. Espalhou-se silenciosamente pelo resto de nós. Com uma foto aqui, uma foto ali, mesmo aquelas pessoas que não publicam o ano inteiro, assim que entram no avião, transformam-se na mais assídua influencer. De repente há o primeiro mergulho, o jantar, o pôr do sol, o outfit da noite. Sem darmos por isso, todos aprendemos a documentar as férias como se alguém estivesse à espera desse relato. E isso levanta uma pergunta inevitável: para quem estamos realmente a publicar?
Com uma foto aqui, uma foto ali, mesmo aquelas pessoas que não publicam o ano inteiro, assim que entram no avião, transformam-se na mais assídua influencer.
Gostamos de acreditar que é para nós. Que são apenas recordações de um verão feliz, imagens a que um dia voltaremos com nostalgia. Mas será só isso? Ou haverá também uma necessidade, ainda que subtil, de mostrar que estamos bem, que fizemos a viagem certa, que a nossa vida é, naquele preciso momento, exatamente como gostaríamos que fosse? Porque há uma diferença entre guardar uma memória e procurar uma confirmação. E as redes sociais vivem precisamente dessa fronteira. Cada gosto, cada comentário, cada mensagem funciona como uma pequena validação de que aquele momento foi visto, reconhecido e, de certa forma, legitimado. No fundo, talvez a fotografia de biquíni nunca tenha sido apenas uma fotografia de biquíni. É um símbolo. Tal como a piscina infinita, o pequeno-almoço com vista para o mar ou o pôr do sol perfeito. Todos contam a mesma história: "olhem para mim, eu consegui". Afinal, entre uma fotografia tirada no escritório e outra à beira da piscina, qual delas representa melhor esse tão desejado I made it moment?
É difícil perceber quando é que isto aconteceu. Não houve um momento específico em que todos decidimos transformar-nos em criadores de conteúdo. Foi acontecendo aos poucos. Primeiro, fotografávamos para guardar memórias. Depois, começámos a fotografar para partilhar. Hoje, muitas vezes, escolhemos as experiências porque sabemos que vão resultar numa boa fotografia. A lógica inverteu-se. Já não criamos conteúdo porque estamos a viver. Em muitos momentos, vivemos para criar conteúdo. Basta reparar na quantidade de decisões que passam, ainda que inconscientemente, pelo filtro das redes sociais. O restaurante "instagramável". O hotel com a piscina infinita. A praia secreta. O vestido branco para o jantar. O biquíni novo. Não porque sejam necessariamente as melhores escolhas, mas porque contam uma determinada história.
O problema não é publicar. (...) O problema começa quando a vontade de viver um momento passa a disputar espaço com a vontade de o transformar em conteúdo.
O verão sempre foi associado à ideia de liberdade. Menos roupa, menos horários, menos preocupações. No entanto, nunca houve tantas regras invisíveis sobre a forma como devemos vivê-lo. A fotografia tem de parecer espontânea, mas não demasiado. O corpo deve parecer natural, embora tenha sido preparado durante meses. O descanso deve transmitir leveza, mesmo que tenha exigido uma hora para conseguir a fotografia perfeita. Chamamos-lhe autenticidade, mas muitas vezes trata-se apenas de uma autenticidade cuidadosamente produzida. Talvez seja por isso que tantas pessoas regressam das férias com a sensação de que precisavam de mais férias. Porque descansar não é apenas mudar de cenário. É conseguir existir sem sentir que tudo precisa de ser registado. É olhar para uma paisagem sem pensar se vai funcionar num story. É entrar no mar sem imaginar o ângulo da fotografia. É terminar um jantar sem tirar uma única imagem da mesa.
O problema não é publicar. Nem nunca será. As fotografias também são memória, identidade e uma forma legítima de contar a nossa história. O problema começa quando a vontade de viver um momento passa a disputar espaço com a vontade de o transformar em conteúdo. Quando interrompemos uma conversa para gravar um vídeo. Quando deixamos a comida arrefecer para fotografar o prato. Quando damos por nós a pensar no enquadramento antes de reparar na paisagem. Ou quando uma piscina perfeita parece menos perfeita porque ainda não apareceu no Instagram. Há uma diferença subtil entre guardar uma recordação e fabricar uma recordação para ser vista. Talvez seja impossível desligarmo-nos completamente desta lógica. As redes sociais fazem parte da forma como vivemos e seria hipócrita fingir o contrário. Mas talvez valha a pena fazer, de vez em quando, uma pergunta simples antes de carregar em "publicar": se ninguém pudesse ver esta fotografia, continuaria a tirá-la?
_Top Esquire
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