Life Cultura

Será que os homens deviam ler mais Jane Austen?

By Henry Wong 15 May 2026

Focus Features.

No ano que marca os 251 anos do nascimento da autora britâtica, eis porque os homens devem ler mais Jane Austen.

2025 marcou os 250 anos do nascimento de Jane Austen (fun fact: a autora é mais velha do que os Estados Unidos da América). É possível que isto seja um dado adquirido para muitos, nomeadamente para quem mantém uma folha de cálculo com aniversários culturais importantes (será que somos só nós?), para quem foi alertado pela nova onda de adaptações da autora nos últimos tempos (Sense and Sensibility, com Daisy Edgar-Jones e Pride and Prejudice, com Emma Corrin), ou para quem prestou atenção às vendas de livros e reparou que o ano de 2025 marcou um recorde de 15 anos para os títulos de Austen. Independentemente da razão, agora que estamos todos cientes deste semiquincentenário – um termo real, prometo. 

Foi difícil sobreviver a 2025 sem se saber tudo o que se passava. As notícias, a reação às notícias, os vídeos do TikTok sobre a reação às notícias: um zumbido sedutor, repulsivo e interminável. A única solução minimamente aceitável que encontrei — um caminho concreto para me sentir novamente como um ser humano — foi ler livros, e, especificamente, ficção. É tão aborrecido fazer esta observação, tão banal como um pai dizer ao filho que deve comer verduras, que não deve falar com estranhos ou que o céu é azul.

Nessa altura, após duas semanas a beber demais e a pensar de menos, deitei-me na banheira, li alguns capítulos de Persuasão e senti-me imediatamente cerca de 300 vezes melhor. Não podemos atribuir isso exclusivamente ao poder curativo da água quente — embora, sem dúvida, os proprietários de sauna nos tentem convencer do contrário.

Para mim, ler Austen é como imaginar o que algumas pessoas sentem em relação à IA: totalmente emocionante, um pouco desorientador, um novo mundo de possibilidades, apesar do cenário da Regência britânica. A autora é engraçada, inteligente, sarcástica, compassiva e capaz de transmitir cerca de 17 emoções num único capítulo. Austen tinha pouco mais de 20 anos quando escreveu a maior parte dos seus seis livros que marcaram uma época — um facto que o irá tanto inspirar como deixar de mau humor, dependendo da sua idade e das suas ambições literárias. Morreu de doença aos 41 anos. O que é que o mundo perdeu com essa morte prematura? Quem sabe. Vamos concentrar-nos no que ganhámos.

Não quero soar como um professor de escrita criativa, mas Austen foi uma das pioneiras no discurso indireto livre — que pode parecer uma descrição de rotas comerciais, mas, na verdade, é apenas uma forma divertida de contar uma história. Austen simplesmente insere os pensamentos de uma personagem da narrativa na terceira pessoa, o que significa que os leitores ficam totalmente imersos na mente dessas pessoas. É por isso que nos lembramos do snobismo de Caroline Bingley em relação aos Bennett em Orgulho e Preconceito. E da voz tola, amarga e maravilhosa de Emma Woodhouse – a criação mais inspiradora de Austen – ao longo de Emma. Quando se lê Persuasão e se sente compelido por todas as escolhas de vida de Anne Elliot, pode-se agradecer à inovação literária de Austen.

Henry James, Virginia Woolf e James Joyce seguiriam o seu exemplo, e é difícil imaginar a ficção contemporânea sem a influência de Austen. Certamente, não teríamos tantas adaptações das obras de Austen — desde a subestimada versão de Dakota Johnson de Persuasão a Emma, de Autumn de Wilde, e as inúmeras séries da BBC — se não fosse pelo estilo de escrita penetrante da autora.

Não consigo deixar de pensar em Austen quando falamos dos problemas que atualmente assolam a nossa cultura (e não apenas porque anseio por um escritor com o seu talento para abordar essas ansiedades). Sobre a nossa capacidade de atenção cada vez mais reduzida e os nossos hábitos de "segundo ecrã". De como os nossos algoritmos, que nos devoram o tempo, nos alimentam de conteúdos que, na melhor das hipóteses, são absurdos e, na pior, perigosos. E, especialmente, de como os homens são suscetíveis a tais armadilhas, tanto caindo vítimas como participando em narrativas e conspirações prejudiciais. Eis que entra Austen, que sabia melhor do que a maioria como nos fazer sentir empatia por personagens antipáticas e intrigantes, muitas vezes limitadas pelo seu sexo ou pelas circunstâncias. E a autora sabia como fazê-lo de forma engraçada.

Não sou assim tão ingénuo ao ponto de sugerir que a leitura das suas obras resolveria todos estes problemas – até porque muitas pessoas cultas já causaram danos a este mundo –, embora seja difícil pensar numa forma mais imediata e acessível de aumentar a empatia das pessoas do que mergulhar nas vidas de outros ao longo de algumas centenas de páginas. No mínimo, isso reduziria o tempo que passamos em frente ao ecrã.

Traduzido do original, disponível aqui.

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