Corpo de Adónis, olhar familiar, mentalidade de capitão. Aos 29 anos, Rúben Dias está em transição e vive o futebol como quem contempla os últimos dias do resto da sua vida. Tem um plano, mas continua a estudar cenários, a prever alternativas. A entrevista aconteceu antes de um Mundial frustrante, mas ele falou de um futuro mais além. Está a passar por mudanças que não se resumem ao ciclo das vitórias e derrotas. Texto de Rui Catalão. Fotografia de Élio Nogueira. Styling de Nelly Gonçalves e Mariana Pimenta.
A chegada de Ruben Dias ao Manchester City coincidiu com os anos mágicos do clube: foi campeão inglês quatro vezes consecutivas e jogou duas finais da Liga dos Campeões, vencendo a segunda. Os dois últimos anos, no entanto, têm sido de suplício: na última época totalizou 87 dias de paragens por lesões, depois de na época anterior já ter sido obrigado a ficar 83 dias de fora. Sintomaticamente, foram dois anos em que o City não venceu títulos importantes, para além da taça da liga e da taça da Inglaterra.
Tal como o seu clube, Ruben Dias está em transição. Guardiola saiu, depois de ocupar o lugar de treinador durante dez anos; Bernardo Silva, que fez nove temporadas, também saiu, depois de lhe entregar a braçadeira de capitão. Na manhã em que se realizou a entrevista, na pousada do Torel Palace, as redes sociais estavam em ebulição, com notícias e mexericos sobre o fim da relação com a última das suas namoradas. A gozar uns dias de férias, antes de entrar em estágio com a seleção nacional, em rota para o Mundial, apresentou-se sereno como um buda a contemplar a eternidade.
Apesar de ter a compleição física de um Adónis, impressiona na sua presença o olhar familiar. Como se as pessoas em seu redor fizessem parte da vizinhança. É rápido a responder, mas pode ficar a ensaiar a mesma frase com palavras diferentes até sentir que traduziu satisfatoriamente o pensamento. Na sua forma de comunicar parece ter diluído espontaneidade e ponderação. Os 29 anos, Ruben Dias está habituado a antecipar cenários. Planeia o que faz, mas não ignora que o segredo está em adaptar-se ao imprevisto.
O que é que preferes, responder a uma pergunta de futebol e o resto sobre a vida, ou responder a uma pergunta sobre a vida e o resto sobre o futebol?
Uma pergunta sobre futebol e o resto sobre a vida.
Estavas lesionado na entrevista que deste ao programa Soltinhos pelo Mundo. fica-se com a ideia de que levas uma vida de astronauta.
Jogadores diferentes vão ter métodos diferentes para aquilo que sentem que precisam e que os faz recuperar da melhor maneira. Com a temporada a decorrer, e sabendo que tinha o Mundial, estava obcecado com a minha recuperação. Treinava todos os dias mais do que uma vez. Foi se calhar o momento em que mais caprichei na alimentação. O isolamento acontece em consequência de treinar de manhã, de treinar à tarde e de precisar de descansar, porque no dia seguinte vais repetir tudo outra vez, semana após semana. Tudo para conseguir o melhor rendimento possível. se a lesão não tivesse acontecido não ia ter uma pausa. Vi a recuperação como uma oportunidade para elevar o meu nível físico.
Qualquer fisiologista te explica que atinges o pico de forma e depois, gradualmente, vais baixando durante a temporada. a paragem é uma oportunidade para voltar a atingir esse pico. tendo a ver o que me acontece como uma oportunidade, como um momento positivo para fazer algo novo. E assim foi.
Calças e cinto, GIORGIO ARMANI. Sapatos, MARIANO.
Pareces cruzar a disciplina militar com o recolhimento dos monges nas ordens religiosas. Apesar da fama, não é uma vida mundana. Deve ser difícil, quando se é jovem.
Eu tenho uma curiosidade enorme de conhecer o mundo. Só vou satisfazer essa curiosidade quando acabar a minha carreira e for dar uma volta ao mundo até sentir que tenho de voltar a casa. Tendo isso em conta, abdiquei da minha adolescência com todo o prazer. Não me arrependo de nada, sou muito feliz por isso, de estar tão focado no meu sonho. Não tive uma adolescência normal, não andei a sair à noite, não fiz assim tantos amigos na escola, ou pelo menos não cuidei das minhas amizades tanto quanto devia, por estar obcecado naquilo que era a minha ambição. Não me arrependo, mas fez com que, mais tarde na vida, valorizasse uma amizade. Fez com que desfrutasse de férias mais tarde na vida. A primeira vez que tive férias fora do país foi na minha primeira temporada do City, se não me engano. Já tinha 23, por aí. Parece uma loucura, mas não me arrependo, sou muito feliz pelos timings da minha vida. Tudo para mim chegou mais tarde, as raparigas, dar valor a uma amizade. foi o ritmo que encontrei para realizar o meu sonho.
Em relação ao dia a dia, gosto de normalizar, seja no que for. Gosto de provar a mim mesmo que posso fazer tudo o que uma pessoa normal faria, desde viajar num voo da Tap ou da Ryanair a ir ao supermercado, ao cinema, gosto de me provocar a fazer essas coisas. tenho momentos em que, por consequência da minha rotina, tenho pouco tempo ou nenhum para fazer estas coisas. Mas gosto, sempre que surge uma oportunidade, faz-me sentir bem. Faz-me sentir que não sou mais do que ninguém. A felicidade da vida está nas coisas mais simples, às vezes podemos deixar de dar valor, mas o tempo não engana e é muito simples de o verificar. nesse sentido, acho que encontrei um equilíbrio que me dá paz.
Essa tentativa de levar uma vida igual à dos outros funciona melhor em Portugal ou quando estás em Manchester?
Não vejo diferença. A maioria das interações que tenho com pessoas que me reconhecem na rua são de respeito. ainda ontem uma rapariga veio ter comigo. estava em casa, peguei na toalha e fui à praia da Fonte da Telha com o meu pai. Ali ficámos, no areal. No início senti muitos olhares, mas o pessoal ficou na deles, numa de ‘deixa-o desfrutar do momento de paz dele’. Uma rapariga veio ter comigo e disse-me: “Espero não estar a criar um movimento das pessoas começarem a pedir fotos, queria só dizer que gosto muito do teu trabalho e que te admiro muito.” Este tipo de interação é genial. Não há maior privilégio do que sermos amados por aquilo que é o nosso ofício, por aquilo que é a nossa paixão, o nosso talento, aquilo que nascemos para fazer. É alguém que está a fazer um comentário de amor por aquilo que é a minha profissão e de respeito pela minha dedicação à profissão. Mesmo que depois dela ter vindo, oito pessoas tenham vindo a seguir.
Quando te aproximas de uma rapariga que te atrai, também sentes frio na barriga?
Isso inevitavelmente acontece. Seria muito arrogante pensar que isso deixa de acontecer por ser famoso. Sinto-me seguro pela pessoa que sou, não tanto por saber que a pessoa me vai reconhecer. Sinto-me seguro pelos valores que represento, pela educação que a minha família me deu. Isso às vezes funciona ao contrário, por ser visto como o típico jogador da bola, que é mulherengo. Em muitas circunstâncias, até funciona contra, se quiser conhecer uma mulher que respeite intelectualmente e que a ache atraente... a guerra da minha vida é provar que há exceções à regra.
Queres mesmo envolver-te numa relação séria?
Como qualquer outra pessoa.
Antigamente, nos clubes grandes, os dirigentes convenciam os jogadores em início de carreira a casarem-se.
Tenho uma boa história de vida para provar o contrário. No meu primeiro ano eu estava numa relação e quando me separei surgiu esse preconceito, de que as coisas iam ser diferentes: “Ele fez isto porque agora quer desfrutar da vida.” Não teve nada a ver com isso. Tratou-se de sentir se a relação tinha futuro e de tomar uma decisão. Tinha feito o meu caminho do Benfica, tinha chegado ao City, fiz uma primeira temporada inesquecível e estava numa relação. Acredito que o amor nos transporta para um nível superior. Quando terminei, [fiquei a pensar] como é que me ia sentir fisicamente, emocionalmente, desportivamente? E depois tive uma época importantíssima. Ganhei o treble [campeonato, taça e liga dos campeões], foi uma das melhores temporadas que fiz até hoje.
Na época em que chegaste também foste campeão, até ganhaste o prémio do melhor jogador da premier league.
Sem dúvida, sem dúvida, e fui à final da liga da champions, ainda assim, a nível pessoal, foi importante ter feito o ano que fiz nesse ano da treble.
Pensas em ter uma família?
Sim, sem dúvida. gostava muito. Acredito muito no poder de uma família unida porque fui criado numa, os meus pais estão juntos.
Qual é o papel que eles tiveram na tua carreira?
Vivi com eles toda a minha vida. Só saí de casa quando fui para Manchester. Caso isso não tivesse acontecido, provavelmente ainda estaria com eles. Até tenho um apartamento, mas gosto de estar com eles, tenho uma vibe boa em casa. O maior papel dos meus pais foi serem bons conselheiros e dedicarem tempo aos filhos.
Ser bom conselheiro é dizer as coisas certas a maior parte das vezes, mas ainda assim dizer algumas erradas, para termos a capacidade de aprender a tomar uma decisão. O meu pai ensinou-me a não achar que a culpa é dos outros e nunca minha. Ensinou-me a olhar primeiro para mim e a assumir que era eu, se clahar, a fazer alguma coisa errada... qual a palavra para accountability? A ter responsabilidade por tudo o que faço e não chutar para os outros.
O meu pai era a voz que eu mais ouvia, não, era a voz mais alta, não, também não é bem isso. A minha mãe comunicava mais através de ações e de comportamentos e o meu pai através da palavra. Destacaria, em número um, a positividade que me passou, de reconhecer as coisas boas e as más, e de fazer com que melhorem através de um pensamento positivo.

Camisa, FENDI. Calças, LEVI’S.
Vocês fazem coisas juntos?
Muita coisa. Partilhamos aventuras. Quando vamos a Ibiza, saímos juntos e se for preciso ficamos acordados até às 08h a desfrutar do momento, sem timidez, por pura alegria e amor de família.
Então, estar de férias é estar com a família?
O tempo ensinou-me também que é importante ter momentos separados, de estar só com meu irmão, com os meus amigos, mas é importante sentir a paz de estar em casa com os meus pais.
Não reservas parte das férias para ires a sítios que nunca foste e conhecer outras pessoas?
Enquanto a minha carreira estiver a acontecer, acho que me vou sentir sempre limitado. Sim, tenho uma curiosidade enorme de ir para um sítio completamente novo e conhecer uma realidade diferente. Mas quando tenho uma semana livre prefiro vir para Lisboa, para estar com a família, com as pessoas que enchem o meu coração, para comer a comida da minha mãe, para estar tranquilo, treinar um bocado e manter a forma. Se gostava de ter uma aventura? Sim, tenho essa curiosidade, mas enquanto a minha carreira estiver a decorrer, ainda que gostasse de ir a um sítio desconhecido, o mais importante para mim, para a minha saúde física e mental é estar em Lisboa, com a minha família, em casa.
Estás a projetar fazer alguma coisa, uma viagem ao espaço?
Isso não sei se é seguro o suficiente, mas não deve estar longe. Tenho 1001 coisas na cabeça que adorava a fazer. Estou há anos para ir ao Japão durante duas semanas, mas encontrar esse tempo não é fácil; estou há anos para fazer um safari; tenho uma curiosidade enorme de ir a Yellowstone. Sei que às vezes temos de ir sem pensar muito, mas para desfrutar como quero não há que ter pressa. Mais tarde ou mais cedo vou ter essa oportunidade. Neste momento tenho muita ambição a nível desportivo. Esta semana podia estar noutro lado qualquer, mas é o tempo de estar em casa, de estar em Lisboa, no meu país, antes de viver a nossa aventura do Mundial. Depois sim, tenho três semanas para fazer uma coisa diferente.
Os jogadores de futebol terminam a carreira muito cedo, enfrentam essa primeira morte da sua vida ainda na juventude. Pensas no que vais fazer depois?
Penso nisso desde os meus 17, 18 anos. Faz parte deste sonho pensar no fim da carreira. É sempre um momento em que tem de existir um luto. mergulhei nesta realidade, nesta rotina de ser jogador de futebol, aos oito anos, consome tempo e limita muitas decisões da tua vida.
Habituamos desde cedo a esta rotina: treino, casa, descansar, treino outra vez, casa, descansar; jogos a cada três dias; adrenalina, adrenalina, adrenalina; desafios para os quais tens de estar no auge de concentração e de foco para conseguires render. O término disso vai ser um choque. Agora tenho 29 e penso de maneira mais informada sobre o assunto. Tenho muitos colegas que já passaram pelo momento e cheguei à conclusão de que não é nada fácil, ainda que tenhamos, se formos bem organizados, liberdade financeira, liberdade de tempo, que se calhar é a coisa mais valiosa.
Há um ditado que diz: quando Deus nos quer castigar, dá-nos tudo o que queremos. Não serão tantas possibilidades uma forma de enlouquecer?
Trata-se de encontrar um novo equilíbrio, uma nova rotina. Não é uma transição nada fácil, porque a nossa rotina é intensa, especialmente a nível mental. A parte mental é um desafio para o qual a maioria não está preparada. E quando chega [o fim], pelas realidades que fui observando, há ali um momento... não gosto da palavra depressão, mas há ali um momento duro, de lidar com esse câmbio. O melhor remédio para tudo isso é a antecipação. É ter um plano. Saber o que vou fazer depois não é o mais importante. O mais importante é ter opções.
Quando tiveres de decidir, o que é que vais valorizar mais: estatuto, prazer ou vocação?
Eu vou-me guiar pela paixão. Nada me vai atrair mais do que dedicar-me a projetos que eu amo. eu podia fazer uma lista de coisas para as quais eu acho que teria vocação e para coisas que seria bastante bom a fazer. Mas, mais importante do que isso, é perceber o espírito em que vou estar, o que me move, se vou ter a necessidade de manter o nível da adrenalina e aí as opções reduzem-se se bastante. Não sei se nessa altura vou estar solteiro ou não, se já vou ter uma família. Muitas coisas podem acontecer até lá. Mas acima de tudo, algo que me dê paz, algo, algo que me faça sentir realizado, mesmo que seja a fazer absolutamente nada.
Blazer e calças, DOLCE & GABBANA. Calções, FRED PERRY. Sapatos, MARIANO.
Ou dedicares-te à família?
Os meus pais ultrapassaram muita coisa juntos. Tiveram problemas, mas apesar de tudo decidiram dedicar a vida aos filhos. Quem sabe se essa não vai ser a minha maior paixão-vocação? Gosto de pensar em todos os caminhos e gosto de pensar nestas palavras: vocação, paixão, paz, liberdade. Gosto de pensar na palavra que vai ser mais importante para definir o que se segue. Há um tema que surgiu na minha cabeça: educação. E é uma coisa que me move bastante. Gostava, com um pequeno gesto, de influenciar a educação. A educação é quase o centro de toda a vida. Termos a capacidade de educar da melhor maneira quem vem aí. É o que nos faz progredir enquanto sociedade. É o que nos faz melhorar enquanto sociedade. É o que faz tudo fazer mais sentido.
Gostavas de abrir escolas, criar bolsas?
Não sei se será esse o caminho. Talvez seja, não sei ainda o que pode vir a ser, talvez criar um conceito de educação, um pequeno gatilho para... Não tenho nada em concreto, são ideias vagas. Tenho muito interesse pela educação e gostava de usar a minha influência para melhorar a educação. Qual a melhor maneira de ensinar, de fazer coisas para impulsionar a criatividade? Será que aquilo que eu estou a pensar passa por garantir que continuamos a ter bons professores? Não sei.
Imagem da esquerda: calções, FRED PERRY. Imagem da direita: full look, PRADA.
A Paula Rego dizia que o sítio onde aprendeu mais foi na oficina de gravura do Bartolomeu Cid dos Santos, que nem era professor dela. Os alunos viam como ele trabalhava e depois faziam o que queriam à maneira deles.
Isso traduz perfeitamente o que estava a tentar transmitir.
Passemos à pergunta sobre futebol. Na entrevista ao Soltinhos Pelo Mundo, explicas porque é que o Man City se tornou mais importante do que o Benfica. Li as reações e os benfiquistas ficaram ofendidos. Queres esclarecer?
Enquanto profissional, vou sempre dedicar-me de alma e coração ao clube que represento. Sou benfiquista desde que me lembro, o meu pai é benfiquista ferrenho, sempre foi, eu fui criado neste ambiente. Acho que sempre fui um benfiquista muito saudável. Tornei-me ainda mais saudável quando ser futebolista passou a ser a minha profissão. Para ser bom no que queria ser, tinha de me tornar equilibrado. No dia em que as emoções controlarem a minha tomada de decisão estarei a prejudicar a minha eficiência enquanto profissional. O meu amor pelo Benfica não foi a lado nenhum, estará sempre presente, faz parte de mim e do que sou. Devo ao Benfica grande parte da pessoa que eu sou, entrei lá aos doze anos e passei lá doze anos. Nessa faixa etária, forma-te enquanto homem, enquanto pessoa. O que tens em casa, o que te rodeia, os amigos também influenciam, mas o Benfica teve um papel importantíssimo. E quando digo o Benfica, digo as pessoas com quem trabalhei, colegas com quem vivi experiências únicas. Ao demonstrar que sou 100% leal ao clube que represento, traduz quem eu sou e quem eu fui quando estava no Benfica. Isso faz com que esqueça as minhas origens? Nunca. Sei bem quem me ajudou, quem me influenciou da melhor ou da pior maneira, ainda que tenha aprendido com as duas.

Estive a contar o número de jogadores convocados para o Mundial que fizeram a formação no Benfica. Foram nove. Qual foi o segredo deste sucesso?
Daquilo que foi a minha experiência de formação no Benfica, não há melhor. Pode haver igualmente bom, mas daquilo que um jovem precisa, para se formar enquanto homem, enquanto desportista, não podes pedir mais.
Full look, DOLCE & GABBANA.
Mas o que é que acontece lá dentro para ter tanto impacto?
O Benfica criou a academia em 2006, se calhar agora estamos a colher os frutos de todo o planeamento, de fazer daquilo um centro de alto rendimento para formar atletas e pessoas. Agora, estando lá, depende da personalidade de cada um, da perceção que se tem da vida. Não é por teres as melhores condições do mundo que vais ser um bom jogador ou tornares-te uma boa pessoa. Depende muito dos exemplos que tens em casa, das influências que permites que te rodeiem. Depende de muita coisa. Não tive sempre os melhore treinadores em todos os escalões. Apanhei treinadores incríveis a nível tático e há também excelentes pessoas, com um coração enorme. Mas não é por teres o melhor treinador. Às vezes, precisamos de um mau treinador para aprender a não fazer certas coisas e para distinguir os que são bons. Depois há também a qualidade do scout, quando estás a observar um jogador tens de ver a habilidade técnica, tens de ver a capacidade física, mas tens de ver o que está lá dentro. Quando me viram a jogar no Estrela da Amadora, uma das coisas que destacaram mais foi a alma que sentiram em mim, a minha personalidade. isso acaba por ser determinante. Podes ter a melhor capacidade técnica, a melhor capacidade física, mas se a cabeça não estiver no sítio certo, não consegues lá chegar. O meu irmão foi muito importante. Eu estava a viver esta experiência, de estar num sítio em que não podes pedir mais para alcançar o sucesso, mas o meu irmão estava numa realidade completamente diferente. Isso ajudou-me a valorizar ainda mais tudo o que tinha.

Full look, HERMÈS.
Calças, GANT.
O teu irmão (Ivan Dias) ainda joga?
Não. Foi comigo para Inglaterra, no meu primeiro ano, e depois deixou de jogar. Ele fez grande parte da formação no Casa Pia. Mais tarde, esteve no Casa Pia com o Rúben Amorim, quando subiram à segunda divisão. Esteve também no Belenenses e no Oriental. Tem grandes memórias do Oriental. Foi sempre um exemplo para mim. De dedicação, de paixão pelo que fazia. Partilhámos tantas coisas. Foi um privilégio estarmos envolvidos na mesma rotina, viver o mesmo sonho, ainda que em realidades diferentes.
Full look, EMPORIO ARMANI.
Tu vives a vida alternativa dele e ele vive a tua.
Quase, quase. Aprendemos a valorizar os dois lados e a encontrar um equilíbrio nessas diferenças. No Benfica, a partir de uma certa idade começavas a fazer trabalho de ginásio e a cuidar da nutrição. O meu irmão não tinha acesso a nada daquilo. Tinha colegas que se estavam a marimbar para aquilo, desprezavam as conversas com a nutricionista, nem se inteiravam do privilégio que era terem alguém a ensiná-los a cuidar do corpo deles. Ter o meu irmão num contexto completamente diferente deu-me outra perceção.
Camisola, ISABEL MARANT. Calções, FRED PERRY.
Editorial realizado em exclusivo para a Esquire Portugal. A Esquire Portugal agradece ao Torel Palace Lisbon Luxury Boutique Hotel por todas as facilidades concedidas.
Originalmente publicado na Esquire Portugal, na edição de julho de 2026, disponível aqui.
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