Fotografia: Hy Peskin/Getty Images
A prática de exercício físico está associada a uma melhor função cardiovascular e saúde metabólica, mas provas de resistência prolongadas, como maratonas e ultramaratonas, impõem um stress mecânico, metabólico e oxidativo que pode provocar danos celulares agudos. Será que sabemos onde está a linha divisória entre saúde e risco quando praticamos desporto?
Para os fãs de ultramaratonas, com o tempo, o corpo começa a cobrar o preço destas provas. Correr e estabelecer objetivos, como participar em corridas ou competições, tornou-se uma das atividades físicas mais populares graças aos seus múltiplos benefícios para a saúde. No entanto, quando esta prática é levada ao extremo, sem a condição física adequada ou sem o descanso e a recuperação corretos, pode tornar-se um exercício muito lesivo e, até mesmo, prejudicial.
Um estudo revela que o treino físico intenso e repetitivo e as competições de resistência não prejudicam, a longo prazo, a saúde cardiovascular. Mas outro estudo afirma que o aumento da duração do exercício provoca diversas alterações metabólicas, inflamatórias e oxidativas. A distância percorrida e o stress oxidativo e inflamatório acumulado têm efeitos negativos nos glóbulos vermelhos. O que leva a concluir que as corridas de longa distância e de ultra-resistência aceleram o envelhecimento. Induzem a oxidação de proteínas, lípidos e purinas associada à inflamação e impõem exigências extremas ao transporte de oxigénio, limitando a sobrevivência dos glóbulos vermelhos através de vias inflamatórias e oxidativas.
A corrida de ultra-resistência envelhece os glóbulos vermelhos e o corpo vai sentir as consequências
Correr regularmente traz múltiplos benefícios para a saúde, mas o excesso pode acarretar riscos para o coração, os pulmões, os rins ou o aparelho músculo-esquelético. As corridas de longa distância induzem a oxidação de proteínas, lípidos e purinas associada à inflamação nos glóbulos vermelhos, provocando o seu envelhecimento. Recomenda-se um treino equilibrado e adaptado a cada indivíduo, com intensidade moderada, respeitando os períodos de descanso e recuperação para evitar lesões e problemas de saúde a longo prazo. De acordo com a Sociedade Espanhola de Cardiologia, correr regularmente reduz em até 27% o risco de mortalidade e em 30% o risco de morte cardiovascular. De facto, as pessoas fisicamente ativas vivem, em média, mais sete anos, em comparação com aquelas com características semelhantes, mas sedentárias. No entanto, os especialistas alertam também que correr mais não é sinónimo de melhor. A hipótese do exercício extremo mostra uma relação em forma de U invertido no que diz respeito à quantidade de exercício realizado e aos benefícios daí obtidos: enquanto a inatividade física é prejudicial, o exercício em excesso também pode sê-lo. As provas de resistência extrema, como maratonas, ultramaratonas, Ironman ou outras provas semelhantes de aventura de longa duração, desafiam o corpo de forma intensa, o que gera riscos em diferentes sistemas do organismo, a começar pelo transporte de oxigénio.
A Dra. Daniela Silva, especialista em medicina interna e gestora médica de E-Health da Cigna Healthcare Espanha, salienta que “praticar desporto de intensidade extrema pode parecer, à primeira vista, um desafio apaixonante e um objetivo estimulante para quem procura superar-se, mas este tipo de práticas acarreta riscos e não é recomendável do ponto de vista médico. Se o nosso objetivo é levar uma vida mais saudável e melhorar os nossos hábitos, devemos procurar uma combinação equilibrada de treino cardiovascular e de força, descanso e recuperação. Conhecer os nossos próprios limites, prestar atenção aos sinais do corpo e aceitar que nem todos os desportos são adequados para todas as pessoas permitir-nos-á desfrutar dos benefícios sem comprometer a saúde e sem cair num desgaste excessivo que possa resultar em lesões ou problemas de saúde a longo prazo”.
Como o exercício físico intenso influencia o corpo
Sistema cardiovascular
O exercício moderado fortalece o coração, melhorando a circulação e reduzindo o risco de doenças cardiovasculares. No entanto, quando praticado de forma extrema e sem o descanso adequado, pode provocar fibrose miocárdica, arritmias e um aumento do risco de desenvolver cardiopatias. Em alguns casos, pode causar microinfartos assintomáticos. Além disso, alguns estudos constataram uma maior prevalência de aterosclerose coronária em corredores de resistência extrema. Após uma maratona, o ventrículo direito fica exausto e a sua força de contração diminui, demorando vários dias a recuperar.
Sistema respiratório
A capacidade pulmonar melhora com o treino aeróbico regular. No entanto, o esforço prolongado em condições extremas pode aumentar o risco de inflamação brônquica e causar lesões pulmonares. A inalação constante de ar poluído durante corridas longas também pode irritar as vias respiratórias, contribuindo para infeções respiratórias recorrentes.
Sistema renal
As provas de resistência extrema implicam um esforço físico prolongado, o que pode causar desidratação grave (apesar de se hidratar bem para ter um melhor desempenho) e rabdomiólise, um processo em que as fibras musculares se decompõem e libertam proteínas nocivas na corrente sanguínea. Esta situação sobrecarrega os rins, que têm de filtrar estas substâncias, aumentando significativamente o risco de insuficiência renal aguda. Em alguns casos graves, pode levar a danos renais permanentes.
Sistema músculo-esquelético
O impacto repetitivo da corrida, aliado a cargas excessivas de treino, pode levar ao desgaste articular e aumentar o risco de fraturas por stress. Além disso, a falta de uma técnica adequada ou a ausência de supervisão profissional aumenta a probabilidade de desenvolver lesões crónicas, como tendinite, fascite plantar ou rupturas fibrilares. Alternar sessões de corrida com outros desportos menos lesivos, nos quais também se trabalha a resistência, como a natação ou o ciclismo, permite uma recuperação mais eficiente e gera um menor impacto nas articulações.
O exercício de resistência exige um grande esforço por parte do sistema de transporte de oxigénio
Os glóbulos vermelhos desempenham um papel fundamental na resposta a estes desafios. Além de fornecerem oxigénio através dos vasos sanguíneos aos tecidos e recolherem dióxido de carbono e outros resíduos para os devolver aos pulmões, para que estes os expelem ao expirar, contribuem para a regulação do pH, facilitam a vasodilatação e melhoram a perfusão muscular. Embora tanto a maratona como a ultramaratona desencadeiem respostas inflamatórias sistémicas e remodelação metabólica, a magnitude dos danos celulares, particularmente no compartimento dos glóbulos vermelhos, seria mais acentuada na ultramaratona. De acordo com o segundo estudo acima referido, o exercício de intensidade extrema provoca perda de flexibilidade nos glóbulos vermelhos, o que pode reduzir a sua capacidade de transportar oxigénio, nutrientes e resíduos. Quanto mais longa for a corrida, maior será o dano nas células sanguíneas, levando os glóbulos vermelhos a um envelhecimento acelerado.
Será que sabemos estabelecer limites ao nosso esforço?
“O desporto tornou-se muito mais do que uma ferramenta para manter a forma física. Cada vez mais espanhóis identificam-no como uma forma de desligar mentalmente, gerir o stress e melhorar o seu bem-estar emocional”, é uma das principais conclusões do estudo “Radiografia do bem-estar emocional e do desporto em Espanha”, promovido pela Nara Seguros. 86,5% dos inquiridos afirmam praticar algum tipo de atividade física e 79% recorrem ao desporto para reduzir o stress e desligar-se mentalmente. 7 em cada 10 reconhecem sentir-se pior quando deixam de se movimentar. “Durante muito tempo, o desporto esteve associado quase exclusivamente ao desempenho físico. Hoje, vemos como começa a ser entendido também como uma ferramenta de prevenção, equilíbrio emocional e bem-estar integral”, explica Miguel Ángel Martínez Ribó, diretor médico da Nara Seguros, na apresentação do estudo.
O problema surge quando se torna uma obsessão e, em vez de ser benéfico para a nossa saúde, passa a prejudicar-nos física e emocionalmente. “Quando se começam a ter lesões musculares frequentes, é preciso parar e avaliar se esse é o nível de esforço de que o corpo necessita. Há um desporto para cada idade”, adverte Martínez Ribó. “Quando a prática desportiva nos impede de descansar, de comer bem, de deixar de ir a eventos para ir ao ginásio, de nos encontrarmos com amigos, existe um problema», salienta Javier Savín, psicólogo clínico geral e especialista em Psicologia do Trabalho e das Organizações. "Fazer uma pausa também faz parte de cuidar de nós, afirma Sara Sorribes, tenista espanhola medalhista olímpica que, em abril de 2025, teve de fazer uma pausa na sua carreira devido a um quadro de depressão e esgotamento físico e mental. Hoje, recomenda que se deve ouvir o corpo: “Liberto o stress participando em muitas outras atividades sociais; não sou apenas uma pessoa que treina”.
Traduzido do original, disponível aqui.
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