Fotografia: Buda Mendes/Getty Images
A imagem de uma multidão a remar em uníssono com a sua equipa, ao ritmo do seu líder incontestável; a imagem dessa mesma multidão a cantar a uma só voz é uma demonstração assombrosa de espírito coletivo.
Apesar de ficar no “velho continente”, a Noruega é um país jovem. Mais jovem que o Brasil do “novo continente”. Só se tornou independente da Suécia há 121 anos. Nação de pescadores e agricultores, aproveitou a descoberta de petróleo e gás natural para investir no seu povo, na educação, na inovação, em infraestruturas ao serviço do futuro. Mas também apostou em ferramentas para preservar a sua unidade. A Noruega é um país genuinamente solidário, onde os assuntos se discutem e os debates se fazem. Uma vez decidido o caminho, a decisão é assumida coletivamente. A vitória deste país cuja população é quatro vezes mais pequena do que a de São Paulo é só uma recompensa para esta nação feliz por fazer bem as coisas e o futebol ser uma delas.
O Brasil — que ontem até nem jogou nada mal — é o principal responsável pelo fascínio que o futebol exerce no mundo. Até 1958, o futebol era um desporto popular sem ter importância. Com os seus ases de fantasia e “molecagem”, o futebol altamente dinâmico e imprevisível dos brasileiros mudou tudo. A tecnologia encarregou-se de espalhar a mensagem, rompendo fronteiras e chegando a cada vez mais pessoas. Mas os brasileiros deixaram de acreditar na sua capacidade de fascinar. Perderam o tropicalismo, voltaram a ser europeus — previsíveis, cínicos, ansiosos, assustados.
O mundo não precisa de mais uma cultura assustada, que não acredita na sua capacidade de invenção, de transfigurar-se. De iludir o medo com gestos ágeis de superação. Se o Brasil não quer ser Brasil, se prefere ser italiano, outro país em crise, não é inspiração para ninguém, nem para si mesmo.
O Brasil é hoje uma referência da aeronáutica, uma das indústrias mais competitivas mundialmente, mas no futebol medra uma cultura de gente medrosa de perder os seus privilégios. O génio brasileiro é o seu ganha-pão e não sabem como fabricar semelhante coisa. O jogador brasileiro tornou-se uma commodity como o ferro, a soja ou o açúcar: nasce no Brasil mas vai crescer para a Europa. Neymar, o último grande representante da maravilhosa fantasia brasileira, rebelde a planos e fabricações, tornou-se o símbolo da decadência. A sua despedida já foi triste, mas como não se foi embora, agora nem isso é.
Hoje joga Portugal. Com a Espanha. A situação é complicada porque a equipa vive um dilema de liderança que afeta a sua direção. Cristiano tem sido um monge de trabalho e dedicação, foi assim que inspirou várias gerações em todo o mundo. A sua chama continua forte, mas o lugar que ocupa no barco que ajudou a construir mete água. Ninguém tem o seu poder de decisão, mas há assuntos em não se deve dar a alguém o privilégio de ser juiz em causa própria. Não sei qual será o resultado desta fase de transição, em que abundam os timoneiros e nenhum deles se lembra de pegar no leme. Mas sei que os portugueses estão divididos e a equipa não parece tão convencida assim da união que quer aparentar.
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