Fotografia de Branislav Simoncik. Styling de Mariana Pimenta. Entrevista de Rui Catalão e José Santana.
É homem de fé, acredita que pode ser feliz a fazer outra coisa, se deixar de fazer o que já faz. Por agora, faz as pessoas rir, mas não recusa a possibilidade de as fazer chorar. É que Vasco Pereira Coutinho gosta de construir personagens pelo que elas são e não pelo que os outros gostariam que fossem.
Ambicionou um caminho religioso, fez trabalho social, caritativo, estudou publicidade, entrou para o seminário e voltou de Roma não como papa, mas sabendo quem era. De regresso a Portugal, Vasco Pereira Coutinho descobriu a sua vocação: encontrar graça na graça das tias, entre betos, gente de berço. Vasco Pereira Coutinho, 38 anos, cresceu “num bairro de velhinhas”, em Campo d’Ourique. “A minha avó obrigava-me a cumprimentar todas as velhas que estavam na rua.” Fez parte da última geração de crianças de classe média a brincar livremente na rua e “a levar com baldes de água das vizinhas por estarmos a jogar à bola.” O sucesso da Tia Bli no Instagram deu-lhe acesso à Renascença, onde atualmente tem a rubrica As pessoas têm que se acalmar, imediatamente! no programa As Três da Manhã. O dueto em tias com Herman José, para o Pingo Doce cimentou a sua popularidade. Agora é estrela de casino: na companhia de Aldo Lima e José Pedro Gomes, integra o elenco de Superstar, no Casino do Estoril.
Full look, DOLCE & GABBANA.
Tens medo de que o sucesso te possa mudar?
Tenho, tenho. A minha profissão é uma profissão egocêntrica, o artista está sempre a pensar em si. Nós somos a nossa matéria e isso pode afastar-nos das outras pessoas. Ao mesmo tempo, eu preciso muito das pessoas para viver. Vivo neste limbo entre estar sozinho e encontrar-me e perceber o que tem graça. Estou sempre a pensar e a criar e a precisar de estar com as pessoas, portanto conheço esse risco e estou atento para que isso não aconteça.
Já alguma vez sentiste aquela superioridade, porque és famoso ou porque podes passar à frente numa fila?
Esse género de coisas muito miudinhas não tem mal nenhum. Mas acho que não. Sei que não sou ninguém. Ao mesmo tempo, lido todos os dias com a simpatia das pessoas que me vêm dizer que gostam muito do meu trabalho. Isso é uma grande alegria. Depois, torna-se muito repetido. Num dia em que fui almoçar com os meus pais, uma rapariga pediu-me para tirar uma fotografia comigo. Disse-lhe “desculpe, estou atrasado” e ela ficou fula comigo, mas eu também tenho uma vida, não posso chegar atrasado a um almoço com a minha família porque vou tirar uma fotografia com uma pessoa que não conheço. É uma coisa muito inebriante, chegar a um sítio e perceber que alguém reparou em nós, não podemos é ficar dependentes disso.
Quando te candidataste ao conservatório pela primeira vez foste recusado. Como é conviver com a recusa?
Já fui com muitas dúvidas. Eu fazia muito teatro na escola, mas eram brincadeiras e interpretar um papel é uma coisa completamente diferente, não é? Ia convencido que aquilo ia correr mal porque nunca tinha feito teatro de interpretação. Sabia o texto de cor e, mesmo assim, consegui falhar duas ou três coisas. As provas de movimento, de imaginar que se é o ar, que tem de se ocupar espaços vazios, de repente estás numa sala cheia de pessoas e não percebes o que é um espaço vazio. Não tinha abertura mental para descobrir essas coisas. Portanto, não lidei mal com aquele insucesso. Tinha dezoito anos, queria ser professor, dava catequese a miúdos, em Chelas, e era muito feliz ali. Na altura pensei: a catequese não é uma profissão, mas posso ser professor de alguma coisa e posso continuar a ter um papel educativo, era uma coisa que me fascinava muito.
Falas com muita gratidão do Padre João, foi nessa altura que o conheceste?
Foi ele que me aconselhou a ir fazer este trabalho caritativo. Fiz o liceu todo a dar catequese, ia para lá aos sábados de manhã. À sexta-feira saía à noite, chegava a casa, dormia umas horinhas e ia dar catequese. E, como gostava, era muito feliz. Falei com o Padre João e disse-lhe que gostava de ser padre como ele. Ele disse-me para ir tirar um curso antes. Não entrei na Universidade de Línguas e fui tirar o curso de marketing e publicidade, era outra coisa que tinha a ver com o meu espírito criativo e inventivo. Acabei o curso e disse-lhe: Agora posso ir para o seminário? “Não. Agora tens de ir trabalhar.” Fui trabalhar. Estive um ano numa empresa de marketing e numa obra social a fazer recolha de fundos. Só depois fui para Roma. O primeiro ano foi fantástico e o segundo também. Mas ao fim do primeiro ano comecei a ficar deprimido. Tive de começar a ir ao psicólogo. A vocação não estava lá. Portanto, concluí o meu percurso ali.
É verdade que viveste um ano sem telemóvel?
Estive dois anos sem telemóvel.
Disseste que foi uma experiência incrível. Eras capaz de repetir?
Eu adorava poder repetir, mas hoje em dia é um luxo.
Ficou-te alguma coisa desse tempo, és mais contido a usá-lo?
Não. Então agora estou numa fase em que não largo o telefone. Sempre que tenho um momento morto, vou fazer scroll, é horrível. Mas de manhã procuro estar sem telefone, em silêncio meditativo.
Imagem da direita: Full look, DAVID CATALÁN. Imagem da esquerda: Full look, DAVID CATALÁN. Pulseira, do próprio. Mocassins, SEASIDE.
Depois da experiência do seminário em Roma, como é que surge o ator?
Ainda em Itália fui trabalhar com pessoas deficientes. Estive lá três anos e calhou fazer um teatro lá com os rapazes da cooperativa. Quando voltei a Portugal, estive cinco anos a trabalhar numa comunidade de recuperação de toxicodependentes, onde também fiz algumas coisas de teatro. Até que veio o cansaço. A professora Regina já tinha algum sucesso. Já era a enésima vez que eu me queixava de estar cansado e o meu irmão disse: “Chega, vais-te inscrever na escola de teatro.”
Em relação à primeira tentativa, o que é que mudou?
Ia com mais certeza e com mais vida, isso fez diferença. A Patrícia Vasconcelos [diretora da ACT Escola de Atores] adorou a minha entrevista e eu preparei melhor o monólogo e entrei, ia com mais certezas em relação ao que queria fazer. Aquela era a estrada, não é? Estava no armário em relação a isso e assumi. Mas a verdade é que não é nada óbvio para a maior parte dos atores.

Casaco, DOLCE & GABBANA. Pulseira, do próprio.
Há atores que escrevem, nem que seja para fazerem evoluir o processo de desenvolvimento da sua personagem e darem alternativas a quem os dirige. Já tinhas esclarecido que eras esse tipo de ator, que escreve o seu próprio material?
Nada. E eu sempre tive muito medo da escrita. E continuo a ter. Olhamos para a escrita como uma grande tortura. Estou a tentar integrar isso nos meus processos, partilhar com o mundo aquilo que me vai na cabeça e o que as pessoas querem. Se pensar muito sobre a minha escrita, se começar a complicar muito, já não estou a ir ao encontro daquilo que as pessoas procuram. As pessoas procuram o que está na minha cabeça e o que está na minha cabeça pode ser uma coisa que me apeteceu desabafar no Instagram. Ou um episódio da Tia Bli. É mais fácil do que parece. Quando escrevemos temos medo, se as pessoas vão ou não vão gostar.
Como é que fazes para desenvolver uma personagem?
Gosto muito desse trabalho, tenho uma certa facilidade em imaginar coisas. Leio três ou quatro frases da personagem e na minha cabeça começo logo a fazer imensas histórias sobre ela. No caso de Superstar [comédia de Stefan Cuvelier em cena no Casino do Estoril] é um processo muito giro, que é experimentar. Depois o nosso encenador [Miguel Thiré] fala assim: “Não, isso foi horrível” e a pessoa fica a morrer de vergonha. Mas é o que te permite avançar para fazer outra coisa. É um processo. Gosto dos processos feitos em conjunto. O Superstar tem muita coisa minha, mas tem muita coisa do Miguel e é isso que é desafiante. Há muita coisa do Zé Pedro [Gomes] e do Aldo [Lima] que me dão conselhos de como é que hei de entregar certas piadas. Portanto, chego cheio de propostas e adoro escalas e adoro fazer mal. Apesar de ser humilhante, é um trabalho que enriquece.
Imagem da esquerda: camisola, MAFALDA SIMÕES. Calções, ZARA. Sandálias, do próprio. Imagem da direita: full look, GIORGIO ARMANI.
A forma como interpretas o teu trabalho tem a ver com fé? De estar envolvido coletivamente e acreditar nos outros?
Esta fé foi um dom, porque de facto sinto-me privilegiado. Acreditar ajuda-me a caminhar e os amigos ajudam-me a caminhar melhor. Há uma fé cega de que a coisa vai, vai andar para a frente. Por isso é que não me detenho na minha falta de confiança ou na humilhação que estou a sofrer por estar a fazer mal e as pessoas não estarem a gostar.
Sentes necessidade de espalhar a fé? Faz parte de ser crente?
Eu acho que a própria vida comunica mais do que as palavras, não é? Eu falo abertamente sobre isso por ser uma coisa tão bonita que aconteceu na minha vida. Encontrei a fé de uma forma estruturada. Em criança aconteceram-me uma série de coisas que falavam do meu desejo de encontrar Deus. Eu era pequenino e saía de casa para ir à missa sozinho. Não fazia ideia de nada, rezava o que o meu irmão me ensinou a rezar. Houve uma procura em momentos da minha vida de criança, mas o encontro com a fé foi com os meus amigos, no liceu. Lá conheci pessoas que tinham fé. Para algumas pessoas ser católico é uma coisa má. Na Igreja existem coisas más e as pessoas têm medo de se associar. A mim não me corresponde como experiência. Comigo aconteceu uma coisa bonita. E quero contá-la a toda a gente. Falei de ser católico numa entrevista e houve muitas pessoas que me escreveram a agradecer o facto de ter falado sobre isto. Há muitos colegas meus que vivem a sua fé de uma maneira escondida. É pena. Não temos de ter medo.
Quem faz comédia também deve pedir perdão? Ou na comédia vale tudo?
Isso é um dilema interno. Há certas coisas que a mim não me correspondem fazer. Não me sinto bem. A vida tem um valor eterno, portanto, pode-se brincar com as coisas pequeninas e momentâneas. A comédia faz isso, brinca com coisas que se levam demasiado a sério. Quando é bem feito, podes fazer tudo, a seleção natural trata do resto.
Qual é a tua relação com a comunidade? Acompanhas o que os teus colegas fazem? Frequentas sítios de partilha? Existe alguma dinâmica?
Tenho pessoas de quem gosto muito e sou muito feliz por ser amigo delas. O Herman José, a Joana [Marques]. O stand up é uma coisa que, se calhar, pela minha falta de atenção e de concentração, me custa acompanhar. Tenho uma relação de admiração por alguns colegas, mas não frequento. Adoro aquilo que faz a Susana Blazer. É um tipo de comédia com histórias leves de que as pessoas estão sedentas, são personagens que representam pessoas que conhecemos, que não estão nos assuntos do momento, e isso é muito fresco.
Tens o objectivo da internacionalização?
Adorava, para voltar a Itália e fazer qualquer coisa com o Luca Guadagnino ou com o Sorrentino, mas não tenho o sonho de uma vida de fama internacional, o meu público está em Portugal, é para os portugueses que eu trabalho.

Full look, DOLCE & GABBANA.
O que é que ficou dessa experiência com a cultura italiana?
Aquilo transformou-me. Eu renasci em Itália. Fui criança outra vez. Fui criança, fui adolescente, fui adulto. Acho que fui todas estas coisas.
O que é que desapareceu da pessoa que eras?
Era um miúdo inseguro e tornei-me um homem. Continuo a ser inseguro e a ter as minhas incoerências, mas acho que fiquei adulto em Itália. Estive dois anos em Roma e depois três anos na província de Modena, em Carpi. É uma cidade pequenina, encantadora, fica na região de Itália onde melhor se come. O tortelli vem dali, os melhores presuntos são dali, o gnocco frito é dali. Tento lá voltar todos os anos. E os meus amigos de lá vêm a Lisboa imensas vezes.
Estiveste sempre integrado em organizações religiosas?
Pedi ao reitor que me ajudasse a procurar trabalho em Itália, porque eu não queria voltar para Lisboa. Arranjou-me um trabalho numa cooperativa que nasceu da experiência do movimento Comunhão e Libertação. Inseriam pessoas deficientes no mundo do trabalho. A escola profissional tinha uma data de coisas, como uma escola de cinema para os miúdos que estavam na rua. Eu trabalhei com pessoas deficientes. Tive lá ateliers de pintura, fiz de tudo um pouco.
O que é que te fez querer voltar a Lisboa?
Não ia viver em Itália para sempre. Tinha muito mau tempo, semanas e semanas de nevoeiro em que não via daqui para aí. Tínhamos um trabalho muito giro, vivia só com amigos, a cidade era pequenina, toda a gente se conhecia. Mas não ia viver ali para sempre.
Fica-se com a ideia de que estás sempre acompanhado, com muita gente à tua volta.
Eu procuro muito a companhia dos meus amigos e aprendi o valor da amizade, no liceu, na universidade. Acho que foi um dom. Tenho aquilo a que hoje em dia se chama de bateria social, que é estar no meio das pessoas. Eu não consigo estar no meio das pessoas sem estar atento a elas, a tentar lembrar-me dos seus nomes. Não consigo estar indiferente e isso cansa. Portanto, às vezes preciso de estar sozinho. No seminário havia como regra uma hora de silêncio. A solidão pode ser muito inebriante. Ninguém me chateia, faço o que quero e pode-se cair num certo egoísmo.
Imagem da esquerda: camisa e calças, LUIS CARVALHO. Brinco, do próprio. Gravata, LUIS CARVALHO X TOPÁZIO. Imagem da direita: full look, DOLCE & GABBANA.
Quando decides criar uma personagem, é para te vingares das coisas que detestas nas pessoas ou pelo amor que tens por elas?
O sucesso da tia Bli vem do facto de não ter qualquer juízo de valores dela ser assim. Não acho mal. Não tenho opinião. Não acho mal que a professora Regina seja histérica. Não acho mal que a enfermeira Lurdes seja uma besta. É uma exposição da vida normal das pessoas. Uma enfermeira pode ter um ataque de mau feitio. Uma professora pode ser tonta nas ideias que tem. Está tudo bem. Eu também tenho ataques de mau feitio. Também tenho ideias tontas sobre assuntos. Olho para todas com uma certa simpatia. São pessoas de quem eu gosto.
O facto das pessoas se rirem das tuas personagens não quer dizer que as entendas dessa maneira, reduzidas a um sketch.
São pessoas a quem acho muita graça e os outros acabam por achar graça também. A professora Regina, acho-lhe muita piada. As coisas encontram-se, se faço uma piada, dá para a dizer com esta personagem.
Imagem da esquerda: full look, LUIS CARVALHO. Sapatos, ZARA. Imagem da direita: camisola, MAFALDA SIMÕES. Calções, ZARA. Mocassins, SEASIDE.
Ris-te sozinho das tuas piadas?
Não é por eu ser especial, mas as minhas personagens têm graça, por elas mesmas. Ainda agora estava a contar uma da dona Fátima, que um dia foi a casa de uma prima que tinha piscina. A prima disse-lhe para ela trazer uma muda e às tantas a muda começou a falar. Mas era para trazer uma muda de roupa. Acho imensa piada. Às vezes estou com o meu primo ao telefone, a contar histórias da tia Bli, e escangalhamo-nos a rir.
Não tens medo de ficar preso na comédia?
Tenho pensado sobretudo no medo. Noutro dia fiquei um bocado ansioso e percebi que o medo vem do facto de querer agarrar uma coisa que nunca foi minha. O que me aconteceu foi tudo a mais. Nunca pedi nada disto. Não tenho medo de nada porque o que tem acontecido até agora tem sido tudo de bom. Estou muito feliz a fazer teatro e a fazer comédia. Mas também fui muito feliz no seminário e a tirar o curso de marketing e publicidade. Se um dia deixar de ser ator e tiver de fazer outra coisa, tenho a certeza de que vou ser feliz. Portanto, não tenho medo. Preferia experimentar outras coisas.
Como por exemplo?
Gostava de experimentar um drama.
Casaco, DOLCE & GABBANA.
A Esquire Portugal agradece à Street Smash Burgers por todas as facilidades concedidas. Editorial realizado em exclsuivo para a Esquire Portugal.
Originalmente publicado na edição de maio de 2026 da Esquire Portugal, disponível aqui.
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