Fotografia: Getty Images
Fiquei surpreendido quando fumei o meu primeiro cigarro, tinha eu 20 anos, e o sabor não correspondia às terríveis expectativas às quais os próprios fumadores de longa data me tinham preparado.
Independentemente do choque que esse momento provocou, o primeiro bafo que dei apaziguou instantaneamente o meu espírito, perturbado pela possível existência de uma substância aparentemente repulsiva que ninguém conseguia parar de consumir. Como me soube bem o meu primeiro cigarro! Aliviou-me perceber que esses fumadores estavam apenas a tentar afastar-me de algo que poderia prejudicar a minha saúde, mas que, na verdade, todos eles estavam perfeita e secretamente de acordo com o bem que sabia fumar um cigarro. Rapidamente perdoei as suas mentiras. A descoberta do secreto prazer do cigarro foi grande demais para poder manter qualquer rancor. Hélas, eu fumo!
Passaram três anos. De férias na minha França materna, na companhia da primeira fumadora que conheci, aquela que suspendeu a entrada das fumaças durante nove meses no pequeno corpo que carregava dentro de si, e recordo estes últimos tempos de fumador com uma vergonha inesperada. Enrolo o tabaco na última mortalha que trouxe de Portugal e penso: “60 cigarros”. Não sei exatamente o que me fez começar a contar cigarros tão repentinamente. Se calhar é o velho espelho que a minha mãe tem em frente à mesa de jantar, onde eu costumo fumar. Após cada bafo, obriga-me a ver no meu reflexo, o primeiro fumo a sair da minha boca, ainda espesso por não ter alcançado os meus pulmões, e de seguida, após ingerir a restante fumaça, um segundo fumo, menos espesso, quase transparente.
Comecei a pensar no fumo que ficou dentro de mim e os cigarros começaram a saber-me mal. Tornados enfim pesados, após três anos de leveza, passaram a simbolizar a minha passagem à idade adulta, o meu envelhecimento, a morte iminente, ela mesma. O meu primeiro cigarro simbolizou uma rebeldia infantil tardia, mas foi precisamente nesse momento de emancipação, em que renunciei aos avisos da minha mãe — que me protegeu contra as suas próprias adultices ainda eu estava na barriga dela —, foi aí que renunciei à minha infância e passei a ser um adulto no sentido mais pesado do termo, um viciado. O quanto me faz falta a barriga da minha mãe.
Após este sexagésimo cigarro, receio ter chegado ao ponto daquela pobre gente que outrora tentava dissuadir-me a não fumar. Arrependido e melancólico, começo a sentir necessidade de largar este vício. A necessidade de mudança, a mesma mudança interminável e desesperante que eu tão bem lembro nessa pobre gente, quando anunciava “vou parar de fumar! de beber! de foder! de viver!”, sem nunca concretizar mudança nenhuma.
As mudanças que anseio para a minha vida já começam a ser muitas. Deixar de fumar, comer melhor, fazer mais desporto, trabalhar mais, ler mais, ser mais simpático... Se isto perdurar, se nunca mais encontrar a tranquilidade infantil de não me deixar angustiar muito por aquilo que sou, prevejo já uma vida de desilusões, constantes e impiedosas. Porém, ainda me vejo a acreditar inocentemente nessas mudanças. Quase todas as noites, logo antes de dormir, vêm-me visões de uma vida melhor, livre dos vícios que mencionei acima, e começo a planear os dias seguintes para seguirem uma melhor direção. Mas, acabo sempre por adormecer antes destes pensamentos serem levados a cabo. E, todas as manhãs, acordo como nasce um bebé, sem memórias da barriga da mãe.
Relembro a pobre gente com quem me relaciono cada vez mais. Para além de cair na tentação de querer mudar os meus vícios, já me apanhei algumas vezes a querer influenciar, como eles, a mudança nos outros, sobretudo quando se trata de pessoas em que a minha influência é esperada, em que devo servir de exemplo, como os meus familiares mais novos. Mesmo em casos em que a minha influência se mostra positiva, não consigo deixar de pensar o quão avassaladora lhes será a revelação, mais tarde, da razão pela qual eu tentei evangelizá-los — eu não ter conseguido aceitar que eles se tornassem naquilo que sou. Tinha de os afastar o mais possível das minhas vergonhosas desilusões. Em vez de uma verdadeira partilha de conhecimento, a única coisa que estou a fazer, tal como me fizeram a mim, é projetar neles a desilusão futura que hão de ter, se caírem nas mesmas tentações em que eu caí. De se tornarem, como eu, uma pobre gente.
Originalmente publicado na edição de setembro de 2026 da Esquire Portugal, disponível aqui.
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