Fotografia: Mikki Ansin
Os dispositivos tecnológicos permitem, antes de surgirem dores, manchas ou estalidos, identificar sinais relacionados com alterações metabólicas, diabetes, doenças hepáticas ou problemas inflamatórios, através de sensores integrados e inteligência artificial. Mas até que ponto é saudável e fiável tanta antecedência?
O smartwatch, símbolo da saúde preventiva (mede o pulso, o sono, a atividade física ou a saturação de oxigénio), partilha protagonismo com diferentes gadgets assistidos por inteligência artificial (IA), como escovas de dentes capazes de analisar biomarcadores presentes no hálito. Pode um hábito quotidiano tornar-se uma ferramenta de deteção precoce de doenças? Estes dispositivos prometem identificar sinais relacionados com alterações metabólicas, hepáticas, diabetes ou problemas inflamatórios através de sensores integrados e IA. São tecnologias ainda emergentes que apontam para uma tendência clara: a saúde preventiva sai do consultório e integra-se nos gestos diários.
Detetar doenças com Inteligência Artificial
Segundo o Cigna Healthcare International Health Study, 28% dos inquiridos aceitam a IA como apoio ao trabalho clínico e para melhorar a prevenção. Já 30% consideram que pode favorecer diagnósticos mais precisos. Os especialistas da Cigna Healthcare destacam que ferramentas como a telemedicina, a monitorização remota e os diagnósticos menos invasivos podem reduzir a ansiedade, melhorar o acompanhamento e tornar o cuidado da saúde mais acessível e compreensível. A II Radiografia do Autocuidado da Saúde em Espanha, elaborada pela Asociación para el Autocuidado de la Salud, revela que, embora 77,6% das pessoas considerem o autocuidado muito importante, sete em cada dez não vão ao médico quando notam sintomas de uma possível doença. Além disso, apenas 38,8% fazem exames preventivos sem apresentarem sintomas.
Ferramentas como a IA apresentam-se como uma oportunidade para melhorar o atendimento e o acompanhamento médico. Apoiam os profissionais na interpretação de exames e na tomada de decisões, contribuindo para que os doentes recebam informação mais rápida e precisa sobre o seu estado de saúde. “Detetar precocemente continua a ser fundamental para melhorar os resultados em saúde, e a tecnologia está a marcar um ponto de viragem. Ferramentas como a IA permitem antecipar, facilitar o acesso à informação e acompanhar a tomada de decisões, contribuindo para um atendimento mais ágil, preciso e centrado na pessoa”, afirma Daniela Silva, especialista em Medicina Interna e E Health Medical Manager da Cigna Healthcare España. A inovação pode tornar-se uma aliada para capacitar as pessoas a superar o FOFO (acrónimo de Fear of Finding Out, "medo de saber"), facilitando a prevenção, reduzindo a ansiedade e tornando o cuidado da saúde mais acessível, já que 23% dos espanhóis confiam na IA para a elaboração de tratamentos personalizados, de acordo com o estudo citado.
Deteção de doenças, interpretação de resultados e tratamentos personalizados
As ferramentas baseadas em IA não se limitam a acelerar diagnósticos: estão também a ajudar a tornar os resultados médicos mais compreensíveis, traduzindo relatórios complexos em explicações claras e orientadas. Isto reduz a frustração e o medo associados aos achados clínicos e facilita a tomada de decisões informadas sobre as opções terapêuticas. Os dispositivos portáteis com IA integrada permitem registar em tempo real sinais vitais como a frequência cardíaca, a pressão arterial ou a saturação de oxigénio, bem como os níveis de atividade física, a qualidade do sono e os padrões respiratórios. Por exemplo, um smartwatch pode alertar para arritmias antes de surgirem sintomas, ou um sensor de glicose contínuo pode detetar picos de açúcar em pessoas com diabetes, o que fornece dados objetivos ao profissional de saúde sem necessidade de consultas presenciais frequentes.

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Os avanços tecnológicos estão a permitir deslocar parte do diagnóstico de procedimentos invasivos para análises de sangue simples ou exames de imagem assistidos por IA. “Um tensiómetro, um oxímetro de pulso ou um glucómetro permitem controlar determinados parâmetros a partir de casa, o que pode ser útil para a deteção precoce de doenças, bem como para o acompanhamento de pessoas com doenças crónicas. Por exemplo, na diabetes, os sensores contínuos de glicose permitem ver como variam os níveis ao longo do dia e relacioná-los com situações como a alimentação ou o exercício”, assegura Daniela. “Por vezes, pequenas alterações no nosso dia a dia podem ser um primeiro sinal de que algo está a mudar: dormir pior durante várias semanas, uma frequência cardíaca em repouso diferente da habitual, uma recuperação lenta após o exercício. Estes dados permitem-nos identificar tendências e, se necessário, comentá-las com um profissional. A informação pode ser muito útil, mas não substitui uma avaliação médica. Não devemos interpretar estes resultados como se fossem um diagnóstico. Servem como um primeiro sinal de que há algo a rever. Ainda faltam estudos clínicos que confirmem qual a precisão destas medições, é preciso ser prudente”.
Cavidade oral, centro de informação
A chegada de escovas de dentes inteligentes, sensores de hálito, análises de saliva e IA abre uma nova etapa na odontologia preventiva. Para Iván Malagón, dentista, esta evolução não é casual. “A boca nunca foi um órgão isolado. No consultório dentário vemos todos os dias sinais que podem estar relacionados com a saúde geral do paciente. Gengivas inflamadas, sangramento, secura bucal, halitose persistente, desgaste dentário ou infeções recorrentes podem ser pistas de que algo está a acontecer no organismo”, explica.
A relação entre saúde oral e saúde geral está cada vez mais documentada. A doença periodontal tem sido associada a patologias como diabetes, doenças cardiovasculares ou processos inflamatórios. Também determinados sinais na boca podem alertar para stress, bruxismo, apneia do sono, défices nutricionais ou alterações imunológicas. “O futuro será que uma escova detete alterações, gere alertas e permita ao profissional intervir mais cedo”, prevê o especialista. “É uma tecnologia interessante porque utiliza algo tão quotidiano como a escovagem dos dentes para obter informação que pode ter relação com a nossa saúde. Estes dispositivos foram desenvolvidos com a premissa de que no hálito existem compostos orgânicos voláteis que podem mudar em função de determinados processos metabólicos. A medição destes compostos, combinada com algoritmos de IA, permite reconhecer essas alterações e orientar-nos sobre possíveis alterações metabólicas. A evidência ainda é muito escassa, pelo que estes dados são, para já, anedóticos. Além disso, há muitos fatores que podem modificar o hálito: comida, bebida, tabaco. O que se viu é que estes dispositivos se revelaram superiores às escovas de dentes convencionais no tratamento da doença periodontal. Fora deste cenário, para já, não é algo que possamos recomendar”, adverte Daniela.
Uma revolução com limites
Escovas que analisam o hálito, espelhos inteligentes, aplicações que detetam alterações nas gengivas ou sistemas capazes de cruzar dados do sono. O entusiasmo tecnológico, no entanto, deve ser acompanhado de prudência. Os especialistas lembram que nem todos os avanços chegam à prática clínica e que muitos dispositivos ainda precisam de validação, regulação e evidência científica suficiente antes de se tornarem ferramentas de diagnóstico reais. “O risco é o doente confundir um alerta tecnológico com um diagnóstico, ou gerar-se medo desnecessário. A tecnologia deve capacitar, não substituir o profissional nem criar falsas certezas”, insiste Malagón.
Exemplos práticos
Tensão arterial
Daniela aconselha que, para a medição ser fiável, “é importante utilizar um tensiómetro de braço homologado e medir a tensão em repouso. Evitar café, chá, álcool e tabaco durante a meia hora anterior e, ao sentar-se, manter as costas apoiadas, os pés no chão e o braço relaxado sobre uma superfície, à altura do coração. Um valor elevado de forma pontual não deve ser motivo de preocupação. Se os valores elevados surgirem em várias medições, devemos consultar o nosso médico”.
Ritmo cardíaco
“Em repouso, o habitual é entre 50 e 100 batimentos por minuto. Que saia desse intervalo num momento concreto não significa necessariamente que haja um problema. Se o valor se mantiver fora do habitual em diferentes medições, ou se surgirem outros sintomas, deve falar-se com o médico para avaliar o contexto”, diz Daniela.
Eletrocardiograma com um smartwatch
“Pode detetar alterações do ritmo, como a fibrilhação auricular, mas não substitui o eletrocardiograma de consultório”, adverte a especialista. “O relógio regista a atividade elétrica do coração a partir de um único ponto, enquanto o eletrocardiograma convencional usa vários elétrodos e obtém muito mais informação sobre o que se passa no coração. Se o relógio detetar alguma alteração, deve ser interpretada com cautela e confirmada com um eletrocardiograma convencional.
Balança de bioimpedância
“Esta ferramenta é especialmente útil em processos de perda de peso, porque permite conhecer a composição corporal e perceber melhor o que se passa no organismo, sobretudo quando há alterações na alimentação ou na atividade física. Uma alteração pontual na percentagem de água, gordura ou músculo não é motivo de alarme. O interessante é a tendência ao longo do tempo, para avaliar se as alterações correspondem a uma evolução da composição corporal."
Medições do telemóvel
Permitem saber como está a funcionar um homem no seu dia a dia. Têm muito valor do ponto de vista preventivo. A velocidade a que caminha, o comprimento dos passos, o tempo que precisa de ter os dois pés apoiados ou a forma como mantém o equilíbrio falam-nos de força, coordenação e função neurológica. Caminhar mais devagar, dar passos mais curtos ou perder estabilidade pode significar menor capacidade funcional, risco de quedas ou problema neurológico.
Audição
O ouvido não serve apenas para ouvir, participa também no equilíbrio através do sistema vestibular. Uma perda auditiva mantida pode levar a pessoa a relacionar-se menos e a ter mais dificuldades de comunicação, com maior risco de deterioração cognitiva. Detetar estas alterações permite intervir antes de uma maior deterioração funcional.
Monitorizar o descanso
Dormir bem é importante para a memória e a concentração, para a regulação hormonal e metabólica, a tensão arterial e a saúde cardiovascular. Conhecer a qualidade e a regularidade do sono ajuda a perceber se se dorme mal de forma habitual, e a questionar porquê: problema de hábitos, insónia, apneia do sono ou outras perturbações que convém diagnosticar e tratar. “Uma má noite pontual não significa que exista um problema, mas, se persistir, ou se surgirem roncos fortes, pausas na respiração, despertares com sensação de sufoco ou sonolência excessiva, recomendo uma avaliação médica”, insiste Daniela.
A nova corrida para detetar doenças antes de os sintomas aparecerem já não se trava apenas em hospitais ou laboratórios. Começa também nos gestos mais quotidianos: dormir, caminhar, respirar, escovar os dentes. Mas lembre-se: se tem mais de 35 anos, “além de manter hábitos saudáveis, faça um acompanhamento médico periódico da tensão arterial, do colesterol, da glicose, do peso e de outros fatores de risco. É muito importante conhecer os antecedentes familiares e ter em conta outros fatores, como o tabagismo, o consumo de álcool, o sedentarismo, o excesso de peso ou determinadas doenças prévias. Com toda esta informação, podemos fazer uma prevenção mais individualizada e estabelecer que controlos são realmente necessários em cada caso”, conclui Daniela.
Traduzido do original, disponível aqui.
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