Ilustração: Weston West
A masculinidade, enquanto conceito e construção social, está em plena transformação. As expectativas em relação aos homens estão a tornar-se cada vez mais diversificadas, por vezes até contraditórias. Os rapazes devem ser fortes, mas também demonstrar sentimentos; devem estar presentes, mas também retrair-se nos momentos certos; devem ter uma opinião e também calar a boca.
Estas exigências são mais do que legítimas e são há muito esperadas. Durante muito tempo tivemos uma vida demasiado confortável e é por isso que não surpreende a insegurança e a confusão que reinam. Afinal, como é que funciona atualmente a masculinidade? Sobretudo em diferentes gerações? O que precisamos, por agora, é de um guia. Chamemos-lhe um kit de arranque para bons rapazes: o que dizem, ouvem, sentem e como se comportam.
Aos 20
É na faixa dos 20 anos que se está mais suscetível a influências. Estes são, talvez, os anos decisivos, em que a personalidade ainda está a ser moldada. Tudo ainda é maleável, como plasticina: pressionando com demasiada força, a marca fica, pelo menos por enquanto. Por isso, é necessário ter um cuidado especial.
Ninguém é persuadido a fazer algo que não quer
Os rapazes na casa dos 20 têm, mesmo assim, a sorte de terem nascido mais tarde. A sua imagem de masculinidade já foi desconstruída socialmente ainda na adolescência. Essa imagem rígida de como um homem deve comportar-se e ter aspetos já foi quebrada, o homem tradicional está a reformar-se. Aos rapazes da Geração Z já não é preciso fazê-los acreditar em nada. Essa questão da masculinidade já foi superada por grande parte deles. O que era impensável para os homens com mais de 50 anos (e para muitos ainda é), ou seja, demonstrar sentimentos, tornou-se normal para a Geração Z. Pintar as unhas ou fazer secção feminina já não é grande coisa. Não dizer gay como insulto e ver o feminismo como um movimento do qual todos beneficiam são também coisas que os rapazes já ouviram. Não ter, aos 20 anos, a menor ideia onde fica o cima e o baixo, muito menos onde se quer chegar na vida, é normal. De certa forma, é até saudável. Mas que papel se quer assumir na sociedade, isso os rapazes também já ouviram. Estes rapazes na casa dos 20 trazem, portanto, imenso para a mesa, para discutir de forma construtiva sobre a masculinidade. Mesmo assim – ou precisamente por isso – é também uma geração que se depara com grandes desafios, já que representa uma grande variedade de conceitos de masculinidade, a ponto de perderem a noção dos que são válidos para eles. Portanto, estes rapazes precisam de um empurrãozinho. Um kit de arranque para bons rapazes. Nem que seja como orientação na selva dos modelos a seguir, e que gostam de se movimentar nas redes sociais.
1. Check-in
Quem gosta dos seus, mantém-se em contacto regularmente. Por exemplo, ligar depois de uma festa: “Ei, chegaram todos bem a casa?”, ou simplesmente: “Ei, estava a pensar em ti, tudo bem desde há bocado?” É o suficiente. As pessoas boas preocupam-se.
2. Soundtrack
Um bom tipo não tem apenas figuras masculinas na sua playlist. Também aprecia cantoras, escritoras de canções e artistas femininas que provocam o ponto de vista dos homens.
3. Escolher com sensatez
Não se trata, de forma alguma, de política partidária (cada um deve decidir por si mesmo), mas de exercer o seu direito de votar. É um pressuposto fundamental em democracia – caso contrário, desabamos como sociedade.
4. Amante das plantas
Um objetivo que se deve alcançar aos 20 anos: não matar nem uma planta.
5. Em segunda mão
A Geração Z cresceu a ouvir falar da crise climática e do movimento Fridays for Future (Juventude pelo clima). Devemos levar essa consciência pela vida e quando vamos às compras. De vez em quando, é melhor optar por roupa vintage e por lojas de segunda mão. A recompensa começa logo no estilo.
6. Passatempo entalado
Tenha sempre uma bebida divertida em casa. De preferência bem fria. No caso de aparecer alguém de surpresa.
7. Delicioso
Ao sair de casa, tem de se desenrascar sozinho na cozinha. Se for só um a comer, uns nuggets e massa com ketchup está bom, mas para receber visitas é bom ter, pelo menos, um prato de assinatura que tenha aprendido a aperfeiçoar.
8. Controlar o fogo
O sexo, quando é realmente bom (e tende a melhorar com a idade), é um dos melhores complementos da vida. Desde que não se perca completamente a cabeça e se tenham em conta algumas coisas. Aos 20 anos, o sexo é muito particular. Damos asas à fantasia, descobrimos o nosso corpo, assim como as nossas preferências. Às vezes, o sexo ou é mesmo bom e outras vezes é horrível. Às vezes estás sempre com tesão, outras vezes passas longos períodos de seca. Tudo bem, faz parte do processo de amadurecimento. Mas há duas coisas que devem estar sempre em ordem. Primeiro: contraceção. Porque não é uma questão só das mulheres, mas de quem participa por segurança, leve sempre consigo um preservativo e assegure que existe outro na tua mesinha de cabeceira. Desculpas do tipo “não fica bem”, “o meu não cabe” ou “ao natural é melhor” não servem. Existem tamanhos de preservativos em que cabe uma coxa e menos divertido do que sexo com preservativo é arder na virilha. Segunda regra básica: consentimento. “Sim” significa “sim”, menos do que isso é não. Ninguém é persuadido a fazer algo que não quer ou duvida se quer fazer. É preferível perguntar uma vez a mais do que uma vez a menos. Fora isso, divirtam-se!

9. Alia-te!
Na verdade, não importa absolutamente nada qual é a orientação sexual de cada um, tudo é fluido — especialmente na casa dos 20 anos. O que realmente conta é o apoio. Aproveitar os privilégios para defender e dar voz àqueles que não fazem parte da maioria, que não são privilegiados e que dependem do nosso apoio.
10. Querido diário
Passamos muito tempo diante de qualquer tipo de ecrã, um pouco de tempo livre faz bem ao cérebro. Esse tempo pode ser bem aproveitado para refletir: ter um diário, ou um caderno de anotações, é perfeito para organizar os pensamentos. Quando os voltarmos a abrir, anos mais tarde, seremos premiados com registos das melhores lembranças e fontes de inspiração que nos influenciaram.
Aos 30
Como diz o ditado: aos 20 temos a cara que Deus nos deu, aos 30 temos a cara que merecemos. Nem tudo tem de correr na perfeição (e não corre, de facto), mas devemos viver a vida de forma mais consciente. O primeiro emprego a sério, um quarto maior do que uma caixa de sapatos e um pouco mais de dinheiro, ou pelo menos um cartão de crédito com um limite mais alto: aos 30 abrem-se algumas portas, talvez até exista um plano de vida. As piadas sexistas perdem a piada. Os machos Alfa tornam-se só desagradáveis. Praticar mansplaining passa a ser apenas uma forma desadequada de falta de noção e praticar manspreading limita-se a refletir falta de boas maneiras. Ou seja, é chegada a hora de ter juízo.
1. Investir na esperteza
Não nos referimos a ETF, mas a ter meios para fazer um bom café. A partir dos 30, já se é demasiado velho para cafés instantâneos que sabem a mijo de gato. Estamos em condições de ter uma máquina de café com porta-filtro ou algo assim. E usar também chávenas e canecas em lugar de copos descartáveis. é melhor para o ambiente!
2. Boa viagem
Quem anda de bicicleta usa capacete. Não importa o estado em que o cabelo fica.
3. Descubra o G-Spot
Não se trata de sexo, mas de podcasts sobre sexo. Há vários podcasts femininos a abordarem o sexo, o prazer, diferentes modelos de vida e temas como o desejo de ter filhos. Ouvi-los é uma forma de alargar os horizontes e de aprender a agradar.
4. Faça terapia
O que já se tornou normal para os mais novos, provoca ainda pânico entre os mais velhos. No entanto, não há nada a temer. Só podes beneficiar em fazer terapia. E quem te rodeia também beneficia. Quando, entre homens na casa dos 30, surge a palavra terapia, a reação costuma ser de rejeição radical. Porquê fazer terapia se podemos gritar com os amigos no bar e dar porrada no saco de boxe do ginásio? Além disso, há livros de sobra a tratarem do sucesso e da resiliência. É praticamente terapia! Essa atitude é a que provoca esgotamentos a partir dos 40, ou depressões graves. Depois perguntam-se: como é que isto me pôde acontecer? E a resposta é: reprimindo emoções, traumas e experiências e preferindo dar ouvidos a homens de Instagram que nos vendem bitcoin como se vendessem uma mentalidade vencedora. A terapia, nunca é demais repetir, é um ato de amor próprio e de amor ao próximo. Quem recorre à terapia está a cuidar de si mesmo e a fazer algo de bom pela sociedade — que é a atitude clássica de quem é boa gente! Aos 30, chegou a hora de quebrar padrões e de os substituir por comportamentos positivos. Ó Joca! Não dói, juro.
5. Hora de sair
Algum dia terá de ignorar as provocações dos colegas em forma de clichés como “isto não é para fracos”. Trocar as provas de resistência por um equilíbrio entre o trabalho e os tempos livres é a tónica de um novo modo de estar na vida.
6. Um basta
Depois de deixar os 20 anos para trás com sucesso, não vale a pena correr atrás de todas as tendências da moda. Há uma coisa que não deve faltar no guarda roupa: um fato realmente bom. Não importa o preço, só tem de assentar na perfeição e combinar com o seu estilo. Assim, não haverá mais nenhum evento, seja casamento ou jantar, em que não esteja bem vestido. A vida é demasiado cansativa para andar a correr por uma peça de roupa.

7. Aplique protetor solar, rapaz
Os tratamentos hospitalares de cancro da pele quase duplicaram nas últimas décadas. Com base nestes dados profusamente divulgados, tornar-se mais um caso oncológico por desleixo é só estúpido. O protetor solar deve ser usado meticulosamente, mesmo quando o sol não brilha ou se pretende adquirir um tom bronzeado.
8. Um coração para as crianças
Dizer que não se gosta de crianças é extremamente antipático e muito fora de moda. Não querer ter filhos, ainda vá, mas recusar até ser o tio divertido é sinistro.
9. Partilhar é cuidar
Um homem de bem que está numa relação tem de ter algo como uma lista de tarefas. Não para marcar os seus afazeres, mas para distribuir equitativamente a carga mental na relação, sobretudo em relações heterossexuais. Muitas vezes, a mulher é a única que tem uma visão global da vida a dois: há papel higiénico suficiente? Desejámos feliz aniversário à nossa sogra? A vacinação para as férias já foi agendada? Para uma relação justa, é necessário distribuir as tarefas. Não se trata apenas de justiça, mas de contribuir para o bom ambiente da relação.
10. Boca fechada
Aos 20 anos já tem de aprender, mas chegado aos 30 já deve saber praticar: se não faz ideia, o melhor é ficar de boca fechada. Não é preciso dar a opinião sobre todos os assuntos. E isso também se aplica aos outros. Se ouvir o seu amigo com tretas sexistas, homofóbicas ou racistas, chame-o à atenção imediatamente. Use a estratégia que achar melhor, mas faça-o ver que deve evitar tais comentários, nem que seja para o bem dele.
Aos 50
“Já estou demasiado velho para isso” é daquelas frases feitas que, só podem ser ditas por quem não se leva a sério. Nunca é tarde demais para corrigir um erro, ainda para mais quando se trata de mostrar que somos do bem. Criticar alguém em nome de uma geração inteira, ou criticar uma geração inteira em nome de um comportamento individual é um gesto admissível para a convivência. E vale para os dois lados. As gerações mais jovens podem aprender muito com as mais velhas e o mesmo se aplica ao contrário. Algumas coisas só precisam de ser ajustadas e modificadas, o que leva ao seu tempo. Outras coisas não podem mudar da noite para o dia: quando nos foi incutido durante 50 anos que os homens são machos dominadores cheios de testosterona, não se esquece isso da noite para o dia. Mas pode-se refletir sobre isso de forma crítica, estar aberto à mudança, entrar em diálogo, adaptar-se ao que é novo. Com mais de 50 anos, está-se consolidado na vida, mas não petrificado. Andar pelo mundo com os olhos, ouvidos e braços abertos é a nova mentalidade, a mais fixe. Antigamente era tudo melhor? Isso não é verdade. Antigamente era apenas diferente. Os tempos mudam. Nós também podemos mudar.
O envelhecimento do cérebro é retardado especialmente entre os fãs de tango
1. Aprenda o vocabulário
Carga mental, trabalho de cuidado, vergonha alheia. São palavras da moda que estão por todo o lado. Devemos ignorá-las? Resistir-lhes? É uma pena. Afinal, o uso da língua é dinâmico. Muito mais giro e típico das pessoas de bem é, da mesma maneira que ainda espreitam as tendências no modo de vestir, aprenderem a envolver-se nas tendências novas de termos, expressões. Aprender vocabulário é divertido, para começar, e mantém a mente afiada.
2. Faça algo
Os passatempos criativos fazem bem. Num estudo realizado no Chile, foram analisados dados de mais de 1.200 pessoas que praticam passatempos criativos, como dançar o tango, tocar instrumentos musicais, pintar ou participar em jogos. O resultado revelou que o envelhecimento do cérebro é retardado, especialmente entre os fãs de tango. Portanto, sim: os passatempos mantêm-nos em forma. E o que há mais fixe do que tocar uma música à guitarra ou deslizar suavemente na pista de dança?
3. Prevenção
Estatisticamente, os homens adoecem com mais frequência porque raramente fazem exames de prevenção. E isso tem menos a ver com medo do que com orgulho. Algo que os homens da geração 50+ sabem fazer bem é minimizar doenças e dores evitando assim ir ao médico. Fazer exames, consultar ajuda médica, para as gerações mais velhas é o mesmo que admitir que não se é intocável, que se tem um ponto fraco, de facto, e não sei se é forjado em ferro e aço. Esta forma de negação tem consequências graves. Quem fez exames preventivos regularmente e vai ao médico quando sente um beliscão, uma dor ou que algo já não está como deveria estar, consegue evitar o pior, muitas vezes. O risco de desenvolver cancro da próstata, por exemplo, aumenta com a idade. Isso não significa que tenha de acontecer, mas fazer exames preventivos minimiza consideravelmente o risco. Os homens que pensam que nenhuma doença os pode derrubar, esquecem que até o Super-Homem definhava com a kriptonita.
4. Para a vida
Com o passar dos anos, apercebemo-nos que a qualidade é mais importante do que a quantidade. Que se ganha mais em ter uma camisola de caxemira do que 28 peças de acrílico que causam suores e pruridos. Mas isso só acontece se cuidarmos bem da roupa. Por isso, façam o favor de não lavarem tudo a 60 graus com detergentes concentrados e abrasivos.
5. Fã de mulheres
É fácil um homem aprender a respeitar as mulheres por princípio, mais difícil é convencê-lo a admirá-las, escutando a sua música, lendo os livros que escrevem, assistindo aos espetáculos que fazem. Participar do sucesso feminino, admitir o seu talento, é um pouco como aprender a apreciar um disco mais difícil de jazz, ou um, livro com conceitos e termos científicos a que não estamos familiarizados. Exige esforço. O esforço de reconhecer o valor de algo a que não podemos aspirar, já que não é como nós.

6. 100% COOL
A cerveja sem álcool também pode oferecer uma experiência muito divertida. Como? Experimente-a entre amigos e descubra por si mesmo.
7. Perfumado
O poder de um perfume realmente bom é imbatível. Tenha sempre um em casa.
8. Mexer o corpo
Não têm de ser os halteres no ginásio. Não é preciso correr a maratona. Um pouco de exercício não faz mal e não é assim tão difícil. Pode-se integrá-lo facilmente no dia a dia através de passeios diários, evitando elevadores, escadas rolantes e não abusando dos meios de transporte.
9. Vitamina B
As pessoas de bem não criticam o veganismo, mesmo que não o pratiquem não têm de antagonizar quem o faz. Porque haveria de se ofender com as preocupações dos outros com a alimentação? Sente-se assim tão culpado com a sua? Comece por experimentar, não recusando logo à primeira garfada, mas experimentando mesmo, até ao fim, como quando a sua mãe o convencia a comer sopa até revelar o desenho do fundo do prato. Aprenda a adornar a sua banca de cozinha com fruta e legumes e verá a frescura que o inspiram.
10. Tratar da pele
Toda a gente precisa de um creme facial adequado. Os dias de sabonete de carbonato e de lactato algum dia teriam de acabar.
Originalmente publicado na Esquire Portugal, na edição de julho/agosto de 2026, disponível aqui.
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