Vozinha no jogo entre Espanha e Cabo Verde do Mundial 2026. Fotografia: Patrick Smith - FIFA/FIFA via Getty Images
Este Mundial está a ser batizado com muitas lágrimas, mas as de Vozinha encheram de graça não apenas o seu povo, mas o próprio sonho americano.
Vozinha, como se deve imaginar, não é o nome de nascença do guarda-redes de 40 anos, que ontem comandou os tubarões azuis a um dos resultados mais surpreendentes na história de um Mundial. Há que não esquecer que a Espanha é a campeã europeia e a favorita a ganhar este Mundial.
Mas dizíamos nós que Vozinha não é o seu nome de nascença. O pai, amante da bola, até lhe queria chamar Valdano (o cérebro da Argentina de Maradona, campeã do Mundo em 86, que foi também um célebre cronista de futebol). Acabou por ser batizado Josimar. Já nos campos da bola, passou a ser alcunhado de Vozinha, ou seja, avozinha.
Neste nome está codificado a história clássica de vida do cabo-verdiano. Na crónica de ontem, disse que Cabo Verde tem meio milhão de habitantes. É uma meia-verdade, nas ilhas vivem de facto cerca de 530 mil pessoas, mas estima-se que a comunidade da diáspora seja superior a um milhão.
O povo cabo-verdiano é um povo de emigrantes, isso quer dizer que muitas crianças acabam a ser criadas pelos avós. Vozinha recebeu a sua alcunha por isso: como estava sempre a queixar-se – atitude típica dos guarda-redes de grande perfil, para armarem a defesa – os colegas vingavam-se chamando-lhe “avozinha”. Vivia com a avó e comportava-se como ela!
Vozinha, nascido no Mindelo, na ilha de São Vicente, chegou tarde à carreira profissional: só aos 25 anos assinou o seu primeiro contrato e tinha quase 30 anos quando veio para a Europa, mais propriamente para o FC Zimbru de Chishinau, na Moldávia.
Antes de chegar ao Chaves, onde partilha a titularidade com um guarda-redes sérvio, passou ainda por equipas do Chipre e da Eslováquia. Apesar de ter estado um ano no Gil Vicente, nunca jogou na primeira liga portuguesa.
Não foi só o Instagram de Vozinha a passar dos 40 mil seguidores para os 2 milhões num par de horas; a conta do Guardian aumentou 6 milhões pelo protagonismo que lhe deu. Vozinha é a estrela do dia.
Na crónica de ontem, disse ter visto uma senhora com a camisola de Cabo Verde quando cheguei a Lisboa. Quando voltei para casa, o metro estava pintalgado de camisolas azuis com gola vermelha; já no comboio suburbano para Sintra, as carruagens e apeadeiros estavam a abarrotar de tubarões azuis!
Como estavam felizes da sua estreia num Mundial! A alegria, o orgulho, o peito inflamado! Vozinha despertou até o famoso sonho americano, que adormeceu nas últimas décadas.
Os Estados Unidos são hoje isto: nascer rico e ficar bilionário. Mas o sonho americano, que transformou o país numa potência cultural e económica, foi a história de Vozinha: um Zé ninguém ao desbarato pelo mundo que um dia agarra a sua oportunidade.
Na sua estreia num Mundial, Vozinha e os restantes tubarões azuis secaram a maior potência futebolística dos últimos 16 anos. Parabéns aos cabo-verdianos e obrigado pelas lágrimas de alegria.
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