Fotografia: Instagram via @stopy22
Cabo Verde estreia-se esta segunda-feira num Mundial frente a um dos candidatos ao título – a Espanha, que é a atual campeã europeia.
Eu vivo numa cidade do interior, a norte do país, e este fim de semana até em Amarante era possível ver camisolas da seleção de Cabo Verde pelas ruas. Hoje viajei para Lisboa e a primeira imagens que fixei foi a de uma senhora no metro, vestida com a camisola de Cabo Verde.
Gostem ou não de futebol, sejam cabo-verdianos de nascença ou por descendência. Tenham ou não nascido nas ilhas, para os cabo-verdianos hoje é um grande dia: pode ser mais ou menos feliz, dependendo do resultado, mas será sempre um grande dia. Quem diria, um pequeno país com meio milhão de habitantes — no Mundial!
Os jogadores de Cabo Verde são bem representativos da comunidade da diáspora: entre os que foram selecionados, nem um joga em Cabo Verde ou noutro país africano. Aliás, a seleção cabo-verdiana tem mais jogadores a jogarem em clubes portugueses do que a própria seleção de Portugal!
Cabo Verde só não é a mascote sentimental deste mundial porque esse estatuto foi conquistado pela equipa de Curaçau. Esta seleção parece uma invenção para amolecer o coração competitivo das equipas com ambições neste Mundial. Trata-se de uma minúscula e deslumbrante ilha no Mar do Caribe, um pedaço de paraíso que faz parte dos Países Baixos. Para além do neerlandês, ali se fala uma língua indígena, que é o papiamentu.
Se os Açores ou a Madeira, que disfrutam de autonomia em relação a Portugal, quisessem ter a sua própria selecção, a sua “piscina demográfica” seria maior do que a de Curaçau: a Madeira tem 256 mil habitantes, os Açores 241 mil e Curaçau cerca de 160 mil.
Para além de ter o coração no nome, a equipa de Curaçau disparou nas redes sociais ao fazer-se transportar num velho autocarro de escola sem vidros e pintado de azul e amarelo, com os jogadores de braço apoiado nos parapeitos a dizerem adeus aos peões. Depois veio o jogo de estreia com a Alemanha. A Alemanha é o pior adversário que uma equipa pequena pode enfrentar. Outras equipas, de maiores dimensões, costumam “tirar o pé do acelerador” quando jogam com equipas mais fracas. A Alemanha tem outra forma de “respeitar” o adversário: continua a jogar mesmo depois da rendição. Quem não se lembra dos 7-1 ao Brasil, em 2014?
7-1 foi a mesma receita que a Alemanha serviu a Curaçau. O golo solitário de Coraçau, no entanto, foi suficiente para deixar o seu selecionador em lágrimas. O holandês Dick Advocaat é uma figura histórica desta competição: já participou em vários mundiais e também já representou muitas seleções: Países Baixos, Coreia do Sul, Rússia, Bélgica, Sérvia, Iraque. por ser tão improvável, a qualificação de Curaçau para este Mundial foi um dos seus trabalhos mais marcantes.
Infelizmente, no início do ano, Advocaat teve de abandonar a equipa e voltar à Europa. A sua filha estava muito doente ele quis estar ao seu lado. No mês passado, depois de surgirem notícias de a filha estar melhor, a seleção de Curaçau pediu a Advocaat para terminar o trabalho que tinha iniciado.
No domingo, a três meses de fazer 79 anos, Advocaat lá estava, no estádio de Houston, rodeado de 68 mil pessoas nas bancadas. As lágrimas soltaram-se quando Livano Comenencia marcou o primeiro golo de Curaçau na história de um Mundial.
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