Ayyoub Bouaddi, de Marrocos, observa durante o jogo entre o Brasil e Marrocos. Fotografia: Harry Langer/DeFodi Images/DeFodi via Getty Images.
As boas exibições das equipas africanas neste mundial apontam para uma tendência de evolução que tem de ser apreciada com um grão de sal: à exceção da seleção egípcia, que ainda tem alguns jogadores em equipas nacionais, os jogadores africanos não jogam nos clubes dos países que representam.
Para se ter uma noção do impacto da diáspora nestas equipas, no caso de Marrocos nem sequer existe um único jogador que tenha nascido em solo marroquino, são todos filhos de emigrantes.
O bom trabalho de Marrocos por parte dos seus responsáveis passa assim por criar um projeto competitivo suficientemente apelativo para que jogadores de alto perfil, que nasceram na Europa e trabalham em boas equipas europeias, prefiram representar um país do norte de África. Hakimi, bi-campeão europeu pelo PSG, podia representar a Espanha, tal como Yamal. Já Bouaddi, que aos 18 anos é a grande estrela a revelar-se neste Mundial, também podia representar a seleção francesa.
Há jogadores que optam por representar os países dos seus pais porque não têm qualquer chance de ser selecionados para representar os países onde nasceram e cresceram profissionalmente. Mas há casos, como é o destes jogadores marroquinos, que refletem uma genuína identificação com o país de que são descendentes. Isso pode estar associado a um sentimento de pertença étnica, religiosa ou, tão simplesmente, em razão da qualidade do projeto desportivo.
É nos jogos entre equipas europeias e equipas africanas que melhor se entende a importância da cultura, ou seja a forma como as pessoas se relacionam no trabalho e a importância que lhe dão. Hoje em dia, as grandes seleções europeias, sem exceção, estão recheadas de jogadores de ascendência africana, assim como as equipas africanas abundam em jogadores que, mesmo tendo nascido em países africanos, se desenvolveram para a alta competição já em clubes europeus. No entanto, continuamos a reconhecer a identidade alemã, francesa, espanhola, marroquina, costa-marfinense, senegalesa, cabo-verdiana, etc.
Talvez seja por isso que até mesmo aqueles que pouco apreciam ver futebol abrem uma exceção para ver o Mundial: apreciar o que nos distingue e o que nos confunde.
_Top Esquire