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Estamos a viver uma era dourada na construção de estádios. Isso significa que a forma como vivemos os eventos ao vivo está a mudar. Tal como explicamos na nova rúbrica, “For What It’s Worth”, as razões para isso são simultaneamente óbvias e mágicas.
Mais de mil milhões de pessoas assistiram à final do Mundial 2026 e vão recordar para sempre o drama que se desenrolou no Estádio de Nova Iorque-Nova Jérsia — só que esse não é o nome verdadeiro do recinto. Como todos os fãs da NFL sabem, o estádio tem, na verdade, o nome de uma companhia de seguros: a MetLife.
Mas o que raio se passa aqui?
Quase todos os principais recintos desportivos nos EUA têm nomes de empresas, incluindo… o Smoothie King! Sede dos New Orleans Pelicans da NBA. Para o Mundial, no entanto, a FIFA exigiu que todos os 11 estádios anfitriões nos EUA mudassem temporariamente de nome. Isto não foi para preservar a pureza do jogo. Longe disso. A FIFA procurou evitar um conflito entre o nome dos estádios e o patrocinador da competição. Seria um pouco estranho transmitir a semifinal entre a Argentina e a Inglaterra a partir do Mercedes-Benz Stadium, apresentado pela Kia. Por isso, deram ao recinto um novo nome para o Mundial: Atlanta Stadium.
Vender a empresas privadas o direito de dar o seu nome a um estádio é, evidentemente, um grande negócio. A MetLife, por exemplo, pagou, segundo consta, 400 milhões de dólares pelos seus direitos de nomeação. A reformulação da imagem dos estádios do Mundial pela FIFA, destacada nas transmissões em todo o mundo, chamou a atenção, na altura certa, para esta questão e para o negócio ainda maior e mais complexo da economia dos estádios em geral.
Oportuno porque, por acaso, estamos numa nova era dourada da construção de estádios nos EUA. Praticamente todas as principais ligas desportivas americanas têm vários projetos multimilionários em curso ou em fase de planeamento. Trata-se de um momento de desenvolvimento sem precedentes, e o dinheiro e a ambição estão a espalhar-se por outras regiões do mundo. Queria saber porquê — por que razão isto está a acontecer agora, quem está a pagar estes projetos gigantescos e, em última análise, se o investimento que muitas vezes é exigido aos contribuintes compensa o gasto. Por isso, falei com um especialista no assunto: Ben Munguia, analista da Fitch Ratings.
“É um momento emocionante no desenvolvimento de estádios”, diz Munguia, entusiasmado.

Uma imagem recente das obras em curso do novo Estádio de Ancara, que está quase concluído e irá tornar-se uma das instalações desportivas mais modernas da Turquia.
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Segundo Munguia, há dois fatores principais por trás deste boom de construção. Em primeiro lugar, o cord cutting. Há menos pessoas a subscrever a canais por cabo, o que significa que as equipas perderam uma importante fonte de receitas: as redes desportivas regionais na televisão. Como resultado, estão a construir ou a renovar estádios para atrair compradores de bilhetes e cobrar mais por, bem, tudo.
O segundo fator: construir um estádio já não se resume a proporcionar simplesmente um local para uma equipa jogar. Trata-se também de desenvolvimento imobiliário, razão pela qual muitos proprietários estão a transferir as suas equipas para fora dos limites da cidade, para os subúrbios. “É preciso pensar na quantidade de terreno disponível em redor [do estádio] para desenvolver e diversificar as fontes de receita”, afirma Munguia. E tem a ver com programação ao longo de todo o ano. Munguia confirma que há um aumento no investimento nas chamadas instalações sem equipa ancorada, recintos que não servem de casa a uma equipa específica. O próximo Madison Square Garden, por exemplo, não precisará dos Knicks nem dos Rangers, desde que tenha concertos de Taylor Swift e combates da WWE.
E tem a ver com experiências de hospitalidade de luxo.
Para compreender este último ponto, comecemos por um bife. Há alguns meses, eu estava numa suite do estádio Citi Field, casa dos New York Mets, rodeado por uma profusão de queijo e carne. O estádio estava a exibir a sua oferta gastronómica para a época, como o hambúrguer Home Run de quatro camadas de Adam Richman. Ao lado ficava o Pat LaFrieda’s Chop House, um restaurante de luxo que serve um bife tomahawk com osso, envelhecido. Está disponível apenas para determinados detentores de bilhetes. Neste momento, este bife, mais do que qualquer outra coisa, mostra a direção que os estádios estão a tomar.
Os proprietários estão “a perceber que estão a perder dinheiro por não oferecerem experiências de lugares premium, que estão em grande procura neste momento”, afirma Munguia. “Estão a começar a renovar os seus estádios, a criar mais áreas de restauração destinadas exclusivamente a determinados detentores de bilhetes e a criar salas VIP”.
Isto reflete o que está a acontecer com as companhias aéreas: é possível ganhar mais dinheiro vendendo um lugar maior e comida de melhor qualidade a uma pessoa abastada do que amontoando turistas comuns em mais cinco lugares.
Este conceito de origem americana está a invadir os estádios de futebol europeus. “Estão a começar a orientar-se mais para esse modelo centrado nos EUA, que dá prioridade aos lugares com maior rendimento”, afirma Munguia. Os dias em que era economicamente vantajoso para os americanos voarem para a Europa para assistir a um concerto de luxo (como muitos fizeram com a Eras Tour de Taylor Swift, em vez de pagarem milhares por bilhetes para concertos nacionais) estão contados.
Em última análise, os proprietários querem estádios novos ou renovados porque pretendem satisfazer a procura por experiências de luxo e desenvolver novas oportunidades de receita para além da simples venda de bilhetes para eventos desportivos.
A questão mais complicada é como é que pagam por tudo isso.
Os proprietários destas equipas angariam fundos a partir de várias fontes, incluindo um grupo de investidores privados, subsídios e — como no caso do SoFi Stadium, de 5,5 mil milhões de dólares, onde jogam os Los Angeles Chargers e os L.A. Rams da NFL — com empréstimos da própria liga.
Antes mesmo de qualquer pontapé de saída ou lançamento, os proprietários começam a ganhar dinheiro com direitos de nome, direitos de venda de bebidas e algo chamado PSLs, ou Licenças Pessoais de Lugar, segundo Munguia. “Está a adquirir o direito de comprar esse lugar no futuro”, afirma. “Trata-se de um grande pagamento inicial que pode realmente ajudar na fase inicial da construção a angariar fundos”.
A outra grande fonte de financiamento é o dinheiro público, que provém dos contribuintes e sempre criou os dilemas mais espinhosos. O AT&T Stadium, em Arlington, no Texas, casa dos Dallas Cowboys, é considerado um caso de sucesso do financiamento público-privado. O projeto custou 1,2 mil milhões de dólares. O proprietário dos Cowboys, Jerry Jones — com uma pequena ajuda da NFL — pagou cerca de 70% do estádio. A cidade de Arlington contraiu um empréstimo para cobrir o restante, 325 milhões de dólares, que seria reembolsado através da cobrança de impostos sobre hotéis, bilhetes e aluguer de automóveis. Em 2025, os Cowboys geraram receitas estimadas em 1,2 mil milhões de dólares, o que ajudou Arlington a reembolsar o seu empréstimo uma década antes do previsto.

O AT&T Stadium, que passou a chamar-se Dallas Stadium durante o Mundial 2026, é considerado um caso de sucesso no que diz respeito ao financiamento público-privado de estádios.
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Os proprietários bilionários dos Buffalo Bills, Terry e Kim Pegula, conseguiram um acordo muito mais vantajoso junto do Estado de Nova Iorque. Em 2022, as assembleias legislativas do Estado e do condado aprovaram a concessão de um total de 850 milhões de dólares em subsídios para um novo estádio dos Bills, o que representou 40 por cento do custo total. O Estado não recebe absolutamente nada das receitas e só pode esperar recuperar o seu investimento através da tributação indireta.
Como é que os Pegulas conseguiram estes fundos? Prometendo mudar a equipa de local — tal como os Chicago Bears da NFL ameaçam fazer agora — caso não recebessem o dinheiro dos contribuintes. Os políticos de Nova Iorque não estavam dispostos a enfrentar a ira da segunda maior cidade do estado ao perder uma franquia histórica, por isso concretizaram o acordo (com transparência mínima).
Construir um novo estádio ou arena parece ser uma situação vantajosa para todos, certo? Receitas fiscais. Oportunidades de desenvolvimento. Emprego. Comunidades. O circo. Romanos felizes por todo o lado. Em teoria, sim. Nos últimos 30 anos, no entanto, dezenas de estudos demonstraram que os benefícios são extremamente limitados, tanto a nível económico como social, para as comunidades onde estes estádios são construídos. Em termos puramente económicos, os proprietários podem ser os únicos a beneficiar.
Então, por que razão os governos locais continuam a financiar estes projetos? É uma questão que só se tornará mais premente à medida que o boom da construção de estádios se mantiver. A resposta pode ser melhor descrita por… Peter Pan. “Se acredita”, diz a personagem do livro, ao tentar salvar a vida da sua fiel companheira, uma fada chamada Sininho, “bata palmas”.
Chamemos-lhe “fada-nomia”.
Precisamos de acreditar que o desporto e os eventos são bons para as cidades e as comunidades. Precisamos de acreditar que um estádio irá acrescentar valor a milhas à volta: às empresas, aos padrões de tráfego e aos preços das casas. Precisamos de acreditar que a energia, a alegria, a vibração e o sentimento de orgulho que tomaram conta da cidade de Nova Iorque em junho, com a conquista do título pelos Knicks, valem alguma coisa — algo que, embora inefável, é de facto muito real. Precisamos de acreditar que as pessoas que se reúnem para torcer por homens e mulheres em uniformes berrantes, realizando proezas atléticas extraordinárias, valem centenas de milhões dos dólares dos impostos dessas mesmas pessoas, dos quais talvez nunca vejam um retorno concreto. Por outras palavras — quer se trate do tip-in de OG Anunoby no jogo 4, dos noruegueses a remar com toda a força nos seus barcos ou dos Swifties em êxtase por Taylor Swift — as multidões têm de enlouquecer. Precisamos que todos aplaudam. Porque essa é a diferença entre estádios que fazem sentido para as cidades e um desperdício de dinheiro dos contribuintes que faria Charles Ponzi corar.
Precisamos de acreditar.
Traduzido do original, disponível aqui.
_Top Esquire
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