Filippo Fiumani © Mauro Motty
O artista italiano radicado em Lisboa tem novo corpo de trabalho, que mostra na Invicta a partir de 19 de setembro.
A Galeria Nicolau Nasoni será morada de Sublimis, de Filippo Fiumani, até 31 de outubro. Nesta exposição que apresenta cerca de 25 novas obras do artista multidisciplinar, com curadoria de Jule Kurbjeweit, Fiumani regressa com o ADN que já lhe (re)conhecemos (nas cores vibrantes dos seus quadros, o metal como parte integrante da sua obra), mas surpreende ao criar novas camadas orgânicas sobre a sua pintura e, acima de tudo, ao explorar de uma forma muito mais consciente a chapa de aço. Opções que acabam por comunicar também o cerne de Sublimis, que se assume como um exercício entre imensidão e contenção, entre impulso e intenção: o flow intuitivo da pintura contrapõe-se com o controlo obrigatório e decorrente da soldadura.
Esta simbiose e alternância entre fluidez e moderação, entre espontaneidade e precisão é ponto de partida da exposição, mas revela-se também nos detalhes que a compõem, mesmo que inadvertidamente. As obras de Sublimis são resultado dos opostos que compõem a experiência humana, mergulhando nos temas que sempre nortearam a curiosidade que Fiumani impregna nas suas criações - uma reflexão sobre a vida, a humanidade, as experiências pessoais e sociais, o cosmos. Para esta exposição em particular, essas matérias ganham contornos mais palpáveis e, incongruentemente, etéreos também, numa epifania que reflete sobre a nossa pequenez, ao sermos confrontados com algo muito maior que nós, mas que ao mesmo tempo abre espaço para a humildade, para a sensibilidade e para uma ligação mais profunda com o mundo que nos rodeia. É neste limbo que vive o sublime, é neste contraste que se equilibra Sublimis: “A pesquisa sobre o sublime levou-me a observar o mundo exterior e interior sob uma nova forma, onde a dor e o prazer se encontram e se confundem”, explica Fiumani. “Entre ambos, o silêncio surge como um espaço de equilíbrio. Um lugar suspenso onde os opostos coexistem. Talvez seja nesse intervalo que o sublime acontece: no instante em que deixamos de procurar uma resposta e aprendemos simplesmente a permanecer.”

Tempus Fugit, 2026, de Filippo Fiumani
Talvez esse equilíbrio seja também metafórico dos anos passados desde a última mostra a solo, um hiato que não foi sinónimo de paragem: os últimos tempos foram mais dedicados a obras públicas e projetos particulares (como o lançamento do seu livro WordsxSword), curadorias e workshops, mostrando que a ausência do seu trabalho em galeria é apenas sintomático de um fluxo criativo que oscila entre intenção e criação orgânica. Em última instância, uma coleção de experiências absolutamente necessárias para se chegar a este Sublimis de 2026, celebrando não só todas as disciplinas que Fiumani tem vindo a explorar no seu vasto CV - das instalações com plástico reciclado e néons às telas e formatos audiovisuais - mas também este novo momento no percurso do artista, um capítulo em que dialoga consigo próprio e com os demais de uma forma mais ponderada, contida e profunda.
Depois de cerca de dois anos sem expor a solo, o artista multidisciplinar confirma neste retorno às galerias que a sua obra nunca estagna, é antes consequência e reflexo permanente do seu crescimento - pessoal e artístico -, ao explorar mais a fundo velhos e novos materiais, conceitos, referências, métodos, e provando que as expectativas sobre a sua arte serão sempre obsoletas quando a evolução é algo que está intrinsecamente ligado ao seu corpo de trabalho.
A partir deste sábado, 19 de setembro, às 17h, na Galeria Nicolau Nasoni, o sublime não é para ver, é para experienciar, num exercício de presença e permanência que começa já com esta entrevista a Filippo Fiumani.
Sei que um dos rastilhos para o tema desta exposição e o conceito por detrás de Sublimis vem de uma experiência da tua adolescência/juventude. Posso pedir-te para partilhares essa experiência e de que forma é que isso influenciou, em termos conceptuais e práticos, o corpo de trabalho para esta exposição?
Quando tinha 13 anos, estava em casa, em Itália, a tomar duche. A certa altura, fechei os olhos e senti como se me afastasse do meu próprio corpo. Comecei a ver-me a partir de um ponto de vista cada vez mais elevado: primeiro o meu corpo, depois a casa, a cidade onde vivia (Osimo), depois as Marcas, Itália, a Europa, o planeta Terra, até chegar ao cosmos. Naquela época, o Google Earth ainda não existia, por isso esta experiência era, de facto, algo completamente novo para mim. Quando entrei no cosmos, senti uma sensação de infinito, mas também uma espécie de barreira, como se já não conseguisse compreender o que era, afinal, esta realidade. A experiência trazia consigo duas sensações aparentemente opostas: terror e prazer. Acredito que o terror vinha da escuridão do cosmos, mas também da sensação de infinito e do desconhecido. Já o prazer surgiu da possibilidade de sentir um novo ponto de vista, como se toda a minha experiência anterior fosse limitada, como se, na realidade, existisse algo muito maior para além dela. Esta experiência marcou-me profundamente, mas só recentemente comecei a compreender a sua verdadeira profundidade. Foi por essa razão que decidi utilizá-la como ponto de partida para a exposição.
“A pesquisa sobre o sublime levou-me a observar o mundo exterior e interior sob uma nova forma, onde a dor e o prazer se encontram e se confundem.” Muitas das obras que apresentas nesta exposição a solo são soldadura em chapa de aço, que é um material que exige algum esforço a trabalhar para criar um resultado que é esteticamente aprazível. Esta dualidade entre a dor de manipular o metal e o prazer que se retira do resultado visual e da profundidade simbólica da peça é metafórica também desse conceito dor/prazer? Nesse sentido, foi uma escolha consciente, a opção por este material ou nem por isso?
Uma reflexão belíssima. Não, não foi uma escolha consciente até este ponto, embora, olhando agora em retrospetiva, tudo faça muito sentido. O metal é um material muito rígido, mas, ao mesmo tempo, delicado. Permite o erro sem perder a sua estrutura. É um material ancestral que revolucionou a história da humanidade. Acredito que a minha ligação a este material nasce da necessidade de encontrar uma estrutura interna, sólida, mas aberta à transformação.

Avanti, 2026, de Filippo Fiumani
Apesar de, no teu portfólio, teres algumas obras em metal, exploras agora muito mais esta vertente da chapa de aço. Porquê? Esse foco num determinado material é uma opção que decides ou que acontece organicamente? Como é esse processo criativo?
Já tinha utilizado bastante o metal no passado para criar estruturas e formas, mas é a primeira vez que utilizo o metal como único material na concretização de uma obra de arte. Há dois anos, o meu filho Moa pediu-me para lhe criar um tridente como o do Aquaman. Depois de o construir, pediu-me para escrever o seu nome no cabo do tridente. Então, experimentei fazê-lo com a máquina de soldar e fiquei surpreendido com o resultado. Foi assim que decidi experimentar desenhar com a máquina de soldar e percebi que tinha encontrado algo extremamente fascinante. Porque, durante este processo, desenha-se às cegas. Ou seja, a máscara de soldadura reduz a visibilidade quase a zero. Por isso, quando desenho, avanço sem saber exatamente o que está a acontecer. E isto é um reflexo da minha própria vida, na qual a fé assume uma importância incrível para poder avançar. Metaforicamente, isto estimulou-me imenso a continuar nesta direção, porque sinto que capta verdadeiramente a essência da vida. Fé cega.
O simbolismo por detrás destas obras em metal que apresentas parece ter um cunho quase religioso. O sublime vive nessa franja transcendente além do humano? Quiseste passar essa ideia? Ou foi apenas uma consequência, quiçá um manifesto, das tuas raízes italianas?
Sim, existe certamente uma dimensão espiritual no meu trabalho, mas não diria propriamente religiosa. Interessa-me mais aquilo que acontece quando a matéria deixa de ser apenas matéria e começa a sugerir algo que não conseguimos nomear completamente. O sublime, para mim, nasce precisamente nessa dimensão: entre o que é humano e aquilo que nos ultrapassa. O metal é uma matéria pesada, resistente, quase brutal, mas procuro através dele criar uma sensação de suspensão, de silêncio, de algo que aponta para além da sua própria presença física. Talvez seja aí que aparece essa dimensão quase sagrada. Não foi, no entanto, uma intenção consciente de fazer obras religiosas. É uma linguagem que se foi construindo naturalmente. E, claro, não posso separar completamente aquilo que faço das minhas origens. A cultura italiana está profundamente marcada por séculos de arte religiosa, pela arquitetura, pela escultura, pela presença constante da Igreja e de uma determinada ideia de monumentalidade. Tudo isso faz parte do meu imaginário, mesmo quando não estou conscientemente a pensar nisso. Talvez as raízes não sejam tanto uma mensagem, mas uma memória. E a obra nasce justamente desse encontro entre essa memória e um convide pelo sublime.
Não é só peças em metal que apresentas - também tens pintura: como é que os dois meios artísticos se complementam/se comunicam, em Sublimis?
A pintura nasce de um processo essencialmente intuitivo. Não obedece a uma estrutura prévia nem a um conjunto de regras; acontece no próprio momento da criação, num estado de disponibilidade perante aquilo que surge. As obras em metal seguem um processo diferente. Partem de um desenho, planeamento, de uma construção e, sobretudo, de uma procura por uma estrutura interna. Essa necessidade está na origem de cada peça e constitui uma dimensão fundamental do seu processo de criação. A barra de ferrugem soldada na base de cada obra materializa precisamente essa estrutura: funciona como um elemento de terra, de chão. É nessa relação entre a estrutura visível e a estrutura profunda que se inscreve também uma dimensão autobiográfica, como se cada peça contivesse uma arquitectura íntima, feita de experiências, memórias e tensões pessoais. Mas não vejo estes dois meios como opostos. Pelo contrário, existe entre eles uma relação de complementaridade e de necessidade. A pintura introduz uma dimensão de liberdade e de imprevisibilidade, enquanto o metal impõe uma determinada disciplina, uma resistência e uma consciência da matéria. Um permite-me alcançar aquilo que o outro, sozinho, não conseguiria. Talvez seja precisamente nessa tensão entre rigidez e flexibilidade que se encontre um possível equilíbrio. E é nesse equilíbrio — entre aquilo que estruturamos e aquilo que deixamos acontecer, entre controlo e intuição — que podemos aproximar-nos da complexidade, mas também da simplicidade, da nossa própria existência.

Filippo Fiumani
Gonçalo Vilardebó
Há já uns anos que não apresentavas uma exposição a solo. Como é voltar a criar um corpo de trabalho para um espaço inteiro que é só teu? Entusiasmante, assustador, um desafio…? Já tinhas saudades?
Sim, já tinha saudades, embora não saiba se a palavra “saudade” é exactamente a que usaria. Uma exposição a solo implica uma forma particular de responsabilidade: de repente, todo o espaço passa a funcionar como uma extensão do próprio pensamento, e cada obra deixa de existir isoladamente para fazer parte de um corpo maior. A última a solo foi em Los Angeles em 2024, ou seja depois de dois anos sem apresentar um conjunto de trabalho, voltar a esse processo foi, naturalmente, um desafio. Mas também foi uma oportunidade para perceber onde estou agora, enquanto artista. Uma exposição não é apenas uma apresentação daquilo que fizemos; é também uma espécie de confronto connosco próprios, porque nos obriga a olhar para o nosso trabalho como um todo e a reconhecer relações, continuidades e contradições que, no atelier, nem sempre são evidentes. Há, portanto, alguma inquietação, mas é uma inquietação produtiva. O espaço vazio, antes de ser preenchido pelas obras, contém todas as possibilidades. E talvez seja precisamente essa passagem entre o vazio e a presença que mais me interessa. Neste sentido, Sublimis não é apenas o regresso a uma exposição a solo. É também uma oportunidade para reunir diferentes momentos e linguagens do meu trabalho e perceber o que acontece quando passam a coexistir no mesmo espaço. É um reencontro, mas também uma espécie de balanço, não tanto sobre aquilo que fiz, mas sobre aquilo que ainda estou a tentar compreender.
O conceito e os materiais e as peças abrem novos afluentes no teu corpo de trabalho. O que sentes que este exercício para o Sublimis te trouxe, enquanto artista - e enquanto ser humano? E há alguma peça nesta exposição que seja a tua favorita ou que sintas que espelhe melhor este corpo de trabalho? Qual e porquê?
É difícil eleger uma única obra, sobretudo quando cada uma estabelece uma relação diferente com o meu percurso. Mas, se tivesse de escolher uma neste momento específico, diria IRIS, uma das obras em metal. Esta peça nasceu de uma imagem que encontrei este verão, em Itália. Estava num antigo portal na cidade de Pennabilli e correspondia à publicidade de um produto italiano para tingir tecidos, dos anos 50. O que me chamou imediatamente a atenção foi a estrutura do desenho, a sua composição e a forma como os diferentes elementos se organizavam. A partir dessa imagem, comecei a imaginar outras possibilidades, retirando-a do seu contexto original e procurando atribuir-lhe um significado diferente. Quando regressei a Portugal, desenhei a minha própria versão, introduzindo novos elementos e transformando progressivamente o sentido da imagem inicial. No final, acrescentei a frase “RISE ABOVE”, que em português se traduz por “surgir além”. Ao longo dos anos, esta expressão foi adquirindo para mim uma dimensão muito mais profunda: transformou-se numa espécie de mantra pessoal. Quando atravesso momentos de dor ou de dificuldade interior, procuro fazer aquilo a que chamaria um zoom out sobre a minha própria vida. Tento afastar-me momentaneamente da experiência imediata para observar a situação a partir de uma perspectiva mais ampla, como se deixasse de estar dentro da emoção para poder contemplar o contexto em que ela existe. Esse exercício permite-me relativizar aquilo que estou a viver e, de certa forma, elevar-me acima das emoções que, por vezes, podem ser uma matéria-prima fundamental para a criação, mas que, noutras circunstâncias, podem também tornar-se um bloqueio. Por isso, IRIS é particularmente importante para mim. A obra fala, em última instância, dessa tentativa de transformar a experiência interior, mesmo a dor, numa possibilidade de distância, consciência e criação.

Iris, 2026, de Filippo Fiumani
Sublimis, de Filippo Fiumani, inaugura a 19 de setembro, na Galeria Nicolau Nasoni (Espaço 2 - Rua do Rosário, 100, Porto), a partir das 17h, e fica até 31 de outubro. Entrada Livre.
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