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Estes são os empregos que não serão substituídos pela inteligência artificial, segundo Mo Gawdat, ex-funcionário da Google e especialista em IA

By Álvaro Piqueras 31 Mar 2026

Kate Green//Getty Images

O engenheiro, empresário e escritor revela quais os setores ou empregos que, numa primeira fase, sobreviverão à reorganização das tarefas e às novas formas de trabalho que se irão impor com a IA: “Nos próximos 5 anos, todos nós devíamos tornar-nos canalizadores, músicos, humoristas ou escritores”.

Provavelmente, um dos aspetos que mais preocupa a sociedade com a chegada da inteligência artificial não é se esta vai dominar o mundo ou se nos vai destruir como espécie. Não. É possível que esse cenário venha a acontecer, mas não é provável que isso vá acontecer de imediato. O que realmente preocupa o cidadão comum é se, dentro de 4 ou 5 anos, continuará a ter o seu emprego ou se terá sido substituído por uma máquina. Mas, como acontece habitualmente em tudo o que diz respeito à IA, tudo não passa de teorias. Muitas especulações e poucas certezas.

Por exemplo, há especialistas como Elon Musk (SpaceX) ou Bret Adcock (Figure AI) que prevêem que, dentro de 15 anos, haverá 10 mil milhões de robots humanóides a circular pelas ruas, pelo que é de supor que muitos deles realizarão tarefas humanas. E isso, por si só, representa uma ameaça para inúmeros postos de trabalho. E se não forem robots humanóides, serão carros ou aviões autónomos. Uma ameaça ainda maior.

Mas há também outros especialistas, como Jensen Huang (NVIDIA), que afirmam que surgirão oportunidades e que, em todo o caso, não se perderão empregos para a IA, mas sim para quem saiba utilizá-la. E, nesse cenário, explica explica que temos a oportunidade de reintegrar entre 30 e 40 milhões de trabalhadores no mercado de trabalho, devido à escassez de mão de obra.

Eis os empregos que estarão a salvo da inteligência artificial

No entanto, há quem pense que haverá uma certa evolução e que, no fim de contas, a longo prazo, todos ou a maioria de nós seremos substituídos pela IA. “O que devemos compreender é que haverá duas fases na nossa interação com as máquinas. A primeira é aquilo a que chamo a era da inteligência aumentada, ou seja, a inteligência humana aumentada com a IA a realizar o trabalho. E depois virá a era do domínio das máquinas, em que o trabalho será feito inteiramente por uma IA, sem intervenção humana”, afirma Mo Gawdat, ex-engenheiro da Google e especialista em IA, no The Diary of a CEO, que prevê que isto último possa acontecer dentro de cerca de 12 ou 15 anos.

“Entretanto, numa primeira fase, as pessoas irão complementar-se com a IA para serem mais produtivas ou, o que é mais interessante, para reduzirem o número de tarefas que precisam de realizar. Dessa forma, terão mais tempo para outras tarefas diferentes, mais orientadas para as relações humanas. Mas isso implicará inevitavelmente a eliminação de alguns postos de trabalho”, afirma o engenheiro e escritor.

“Um exemplo – salienta – é o que se passa com os operadores de call centers ou especialistas em atendimento ao cliente. Neste momento, não estão a despedir todos, mas o primeiro filtro é feito por uma IA. Assim, em vez de ter 2 mil profissionais num call center, por exemplo, agora é possível realizar o trabalho com 1800”.

Isso, segundo Gawdat, leva-nos a um problema de difícil resolução. O que acontecerá com esses 200 postos de trabalho que se perdem? Como é que vão ser reposicionados? “A sociedade tem de pensar no que lhes acontecerá. E, sinceramente, não sei que funções poderão desempenhar. Todos nós deveríamos ser músicos, escritores, canalizadores, artistas ou comediantes nos próximos 5 ou 10 anos, porque estes empregos não desaparecerão. Mas isso torna necessário que a sociedade se transforme e não se fala nisso”, lamenta.

E é verdade. Neste momento, estamos mais preocupados com a possibilidade de sermos substituídos pela IA do que em nos adaptarmos – ou em pensar como o fazer – à nova situação. E, como afirma Gawdat, o plano não pode ser varrer o problema para debaixo do tapete nem confiar de que tudo se resolverá sozinho.

“Espera-se que um motorista que vai ser substituído por um camião autónomo se torne um empreendedor? Espera-se que uma mãe solteira que tem três empregos se torne uma empreendedora?”

“Alguns dos meus amigos, como Peter Diamandis, afirmam que o povo americano, por exemplo, é resiliente e será muito empreendedor. Mas tenho as minhas dúvidas. Espera-se que um motorista que vai ser substituído por um camião autónomo se torne empreendedor? É preciso colocarmo-nos no lugar das pessoas reais. Espera-se que uma mãe solteira que tem três empregos se torne empreendedora?”, questiona.

“Não estou a dizer – conclui – que isto seja uma distopia. Será uma distopia se a humanidade a gerir mal, porque isto também poderia ser uma utopia, onde a mãe solteira não precisa de ter três empregos. Se a nossa sociedade fosse suficientemente justa, essa mãe solteira nunca teria precisado de ter três empregos. O problema é que a nossa mentalidade capitalista se baseia na exploração laboral e, em geral, não nos importamos com o que ela passa”.

Assim, enquanto sociedade, temos muitos aspetos a ponderar e a decidir – se é que isso está nas nossas mãos e não apenas nas das elites – sobre como construir essa IA, bem como o quadro ético e jurídico que queremos que regule as nossas ações a todos os níveis. O problema do mercado de trabalho é apenas uma consequência de uma tecnologia que irá permear tudo e cuja evolução e impacto são difíceis, para não dizer impossíveis, de prever.

Traduzido do original, disponível aqui.

Álvaro Piqueras By Álvaro Piqueras

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