Jamie Bell no próximo spin-off de Peaky Blinders. Fotografia: Ben Blackall/Netflix
Separando a realidade da ficção, eis tudo o que se sabe sobre a história que inspirou o spin-off de "Peaky Blinders", com data de estreia marcada para 2027.
Afinal, de onde é que vem o nome Peaky Blinders?
Há quem diga que a origem está nas lâminas de barbear cosidas aos bonés, usadas para dar cabeçadas em vítimas desprevenidas (embora lâminas tão pequenas fossem caras na época, o que faz com que isto pareça um detalhe inventado posteriormente). Outros argumentam que os bonés eram simplesmente práticos – uma forma de ocultar os rostos para que as vítimas não pudessem identificar, mais tarde, os seus agressores. Depois, há a explicação mais simples: no antigo calão de Birmingham, um blinder significava um homem bem vestido. Um peaky blinder era simplesmente um homem com um boné de pala que tinha o ar da coisa.
Seja qual for a origem, o nome pegou.
Para os espectadores que acompanharam as primeiras seis temporadas e o filme, a mitologia já está consolidada: violência estilizada, guerras de território, intrigas políticas — Peaky Blinders é um grande negócio, se acreditarmos no que a BBC tem vindo a vender.

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A realidade, porém, é menos dramática. Os Peaky Blinders originais eram criminosos mais pequenos do que figuras influentes do cinema – jovens com rostos infantis e reputações duvidosas (as fotografias de identificação judiciária dizem tudo). Ganhavam dinheiro com apostas ilegais, esquemas de proteção e comércio no mercado negro. De acordo com uma reportagem de 1926 publicada no Warwick and Warwickshire Advertiser, as suas “principais armas de ataque” eram cintos com fivelas pesadas.
Como referia um relatório judicial da época, eram “jovens mal-falados que rondavam as ruas em grupos embriagados, insultando e assaltando quem por lá caminhava”.
Na década de 1920, a influência destes grupos tinha-se desvanecido em grande parte, tendo sido substituído por gangues mais poderosas, como os Birmingham Boys e a organização Sabini.
A história é apenas um “trampolim”
É claro que nada disto jamais incomodou Steven Knight nem a BBC. A série nunca teve como objetivo ser uma reconstrução fiel. Os Peaky Blinders, nesta narrativa, servem de porta-estandarte a um momento histórico real — um eco mítico do passado mais vasto do submundo de Birmingham.
É claro que nada disto jamais incomodou Steven Knight nem a BBC. A série nunca teve como objetivo ser uma reconstrução fiel. Aqui, os Peaky Blinders são um substituto ficcional de um momento histórico real — um eco mítico do passado mais vasto do submundo de Birmingham.
Como Steven Knight afirmou numa sessão de perguntas e respostas no Reddit, em março: “Tenho tendência a usar acontecimentos históricos como trampolins em torno dos quais a minha história se desenvolve. É como ter um destino para as personagens e para a ação. Considero que os acontecimentos reais e a história verdadeira são muito mais surreais e improváveis do que qualquer coisa que eu pudesse inventar”.
Assim, para The Immortal Man, utilizou como pano de fundo uma operação real de contrafação de dinheiro pelos nazis.

Jamie Bell no próximo spin-off de Peaky Blinders
Ben Blackall/Netflix
Mas a nova série avança uma década, até meados da década de 1950 — em Birmingham que ainda se encontrava em fase de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial.
O que nos leva à pergunta: para onde poderão os Peaky Blinders ir a seguir?
A mudança cultural: os Teddy Boys
O final da década de 1950 assistiu à ascensão dos Teddy Boys, um movimento juvenil caracterizado por um estilo de moda distintamente eduardiano. Munidos de canivetes e soqueiras de latão em vez de cintos ou lâminas de barbear, os Teddy Boys usavam fatos elegantes de inspiração eduardiana para disfarçar uma veia violenta. Envolviam-se em guerras territoriais cruéis, vandalismo e confrontos em salões de dança locais, bares com mesas de pin e cinemas.
Usavam casacos compridos e esvoaçantes, calças justíssimas e sapatos com sola de crepe. Num editorial gloriosamente indignado de 1955, o Londonderry Sentinel escreveu furiosamente: “Hoje em dia, nenhum homem bem vestido seria visto com tal conjunto. A ideia foi completamente enterrada por jovens com mais dinheiro do que bom gosto para se vestirem. Eles sufocaram o estilo com todos os exageros que lhes ocorreram — golas e punhos de veludo colorido, calças tão justas que nem conseguiam sentar-se com elas, cintos na parte de trás dos casacos, gravatas longas e estreitas como atacadores de botas”.
Quanto ao cabelo, o jornal mostrou-se menos paciente: “Em vez de usarem chapéus-coco de aba encaracolada, andavam de cabeça descoberta. Caso contrário, ninguém teria podido admirar os seus penteados extremamente criativos”.
“Estes eram os Teddy Boys”, continuava o jornal. “Andavam em gangues. Em pouco tempo, as suas proezas rotularam-nos como hooligans, e as roupas eduardianas tornaram-se o uniforme de uma nova geração de gangsters. Líderes respeitáveis da moda guardaram, com pesar, os seus fatos no fundo dos guarda-roupas”.
Mas estes não eram necessariamente os herdeiros de Tommy Shelby. Eram, na sua maioria, jovens da classe trabalhadora a rebelarem-se contra a Grã-Bretanha conservadora, marcada por cartões de racionamento, consideração e conformismo monótono. Eram, em primeiro lugar, uma subcultura e, em segundo lugar, um fenómeno criminoso. Ainda assim, se Steven Knight estiver à procura de um sucessor pós-guerra dos Peaky Blinders, poderia ter escolhido pior. Os Teddy Boys conheciam o poder do assobio tão bem como qualquer gangster a sério.

Robert Viglasky
O fim da austeridade
A década de 1950 foi um período de transição. Os locais bombardeados ainda marcavam partes da cidade, mas a prosperidade do pós-guerra começava a chegar. Esse é o território clássico de Steven Knight: criminosos da velha guarda a tentar adaptar-se a uma nova economia.
Assim, na década de 1950 — enquanto os gangsters continuavam interessados em ganhar dinheiro com proteção, apostas ilegais e violência evidente —, o gangster mais astuto do pós-guerra identificou uma nova fonte de rendimento: uma economia de consumo em crescimento. Isso significava que, se bem gerido, discotecas, casas de jogo, negócios imobiliários, esquemas de exploração laboral e a transição de mercadorias do mercado negro para o mercado cinzento podiam transformar-se em verdadeiras máquinas de fazer dinheiro.
A família Fewtrell
Foi precisamente este ambiente que deu origem à famosa família Fewtrell, que chegou a gerir mais de 20 discotecas em Birmingham.
Numa história que se tornou famosa, a figura de proa da família, Eddie Fewtrell, apelidado de “O Rei das Discotecas”, chegou mesmo a repelir uma incursão dos gémeos Kray na década de 1960.
Segundo a sua filha, Abigail Fewtrell, os irmãos foram visitá-lo uma vez. “Eles entraram e disseram: “Somos dois irmãos, podemos dar-lhe proteção”. Ele respondeu: “Para que preciso de dois irmãos? Já tenho sete meus”. Depois, basicamente, expulsou-os”.
No seu livro, The Accidental Gangster, o autor David Keogh relembra a altura em que os Krays enviaram um bando de valentões para as Midlands, apenas para serem repelidos pelo próprio exército de homens durões de Eddie Fewtrell. Isto culminou na Batalha de Snow Hill, um lendário confronto de rua perto da estação de Snow Hill, onde os durões locais leais a Eddie expulsaram violentamente os Krays de volta para Londres, de onde nunca mais regressaram.
Reza a lenda que os Krays, que nunca se deixavam intimidar, enviaram um assassino profissional a Birmingham para fazer uma visita a Eddie. Houve uma luta, segundo a história, e o assassino fugiu depois de ter sido atingido por um tiro e ficado sem uma orelha.
“Não creio que eles quisessem os clubes, mas queriam vingança”, disse Keogh ao The Mirror. “Acho que vieram porque queriam abrir um centro de tráfico de drogas em Birmingham para distribuir as drogas que os americanos lhes tinham pedido para vender em Birmingham”.
Keogh insiste que os Fewtrell não eram, eles próprios, gangsters. Mas o seu negócio atraía a atenção de criminosos – que foram obrigados a afastar repetidamente. “Eles não se consideravam gangsters”, afirmou. “Só queriam gerir discotecas e ganhar dinheiro”.
O Meat Market Mob
Um dos principais rivais dos Fewtrell era conhecido como Meat Market Mob, devido à sua arma de eleição – uma faca de carne. Aparentemente, tratava-se de um grupo do submundo aterrador que controlava os esquemas de extorsão, a proteção e o jogo ilegal em torno do extenso City Meat Market, em Digbeth.
Eles dominavam o ambiente agitado dos clubes e dos territórios de Birmingham do pós-guerra, que se concentravam principalmente em torno dos movimentados mercados alimentares da cidade.
Numa disputa, na década de 1960, o The Meat Market Mob invadiu uma das discotecas de Eddie Fewtrell, o The Bermuda Club. “Um deles tinha uma faca de carne e eu saltei para cima de uma mesa e acertei-lhe na cabeça com uma tábua, abrindo-lhe uma ferida”, contou Eddie, que faleceu em 2022, ao The Birmingham Mail. “Tínhamos quatro portas; quando o tiro foi disparado, todas foram derrubadas (à medida que os clientes, em pânico, fugiam para as ruas)”.
Traduzido do original, disponível aqui.
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