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Esquire Offprint | Brad Pitt: "É só mais um dia na casa dos Pitt"

By Esquire Portugal 10 Aug 2026

Camisola, PRADA. Calças EDWARD SEXTON. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Relógio, PATEK PHILIPPE; anel, DAVID YUMAN; colar, ANITA KO; e pulseiras tudo do próprio.

Uma tarde rara na companhia de Brad Pitt e dos seus dois cães.

Os cães estão a tentar fugir, a enfiar os focinhos por entre os seus joelhos e a subir uns para cima dos outros, na tentativa de abrir caminho com as patas para sair pela porta de vidro. Ele abriu-a apenas alguns centímetros e está a tentar acalmá-los.

Toda a entrada é de vidro maciço, uma porta alta de vidro emoldurada por janelas altas de vidro, ou paredes, pelo que todo o cenário é visível: ele a fazer gestos suaves para que os cães se sentem, a boca a mover-se enquanto os acalma, eles a correrem à sua volta, aos seus pés. Depois, grita do outro lado da entrada, através da fresta da porta: “Vão ser ligeiramente incomodados durante uns minutos, depois deixam-vos em paz”.

Usa uma t-shirt na cor de uma gema de ovo brilhante por cima de uma t-shirt branca, calças de paraquedas douradas cintilantes e ténis brancos. De alguma forma, é praticamente o look mais cool de sempre.

Casaco vintage, na SUMSHITIFOUND. Casaco, THE ROW. Calças vintage, na DOPPELGÄNGER.

No átrio, os dois doodles, Sundae (“de hot fudge”) e Vandy (“já vinha com esse nome”), fazem exatamente o que ele disse que fariam, com as unhas a bater no chão de azulejos enquanto dançam por ali, a cheirar e a ofegar. São bem comportados, e ele está atento, segurando-lhes as coleiras para os acalmar.

Quando os cães estão satisfeitos, ou já não mostram interesse, é então que ele estende a mão e diz, a título de apresentação: “Olá! Sou o Brad”. Ao dizer isto, inclina ligeiramente a cabeça para trás, e o seu famoso cabelo dourado balança, e esboça aquele seu sorriso, aquele que nos faz perguntar o que é que ele descobriu sobre o mundo que nós ainda não descobrimos.

Na ilha da cozinha, que tem o tamanho de algumas cozinhas pequenas, põe mãos à obra. Desembrulha uma fatia de Gouda amarelo da embalagem do supermercado e corta quase toda, dispondo as fatias ordenadamente numa tábua. Depois, faz o mesmo com um pedaço de parmesão. (Mais tarde, as pessoas perguntarão: “Havia alguém a ajudá-lo? Alguém da sua equipa?” Não havia. Era apenas o Brad Pitt na sua cozinha a cortar queijo.)

Ele abre duas variedades de bolachas salgadas: uma que se assemelha a Wheat Thins, mas melhor, e aquelas crocantes, castanhas-escuras, com arandos secos ou algo do género. Depois, retira um salame da embalagem de plástico e corta-o em fatias também. É preto por fora, coberto de pimenta preta.

"Estava a cortar um destes na semana passada e afastei-me durante um minuto. Quando voltei? Tinha desaparecido. A salsicha inteira", diz, acenando na direção da Sundae. "E não lhe fez mal nenhum. Mas depois dei-lhe uma pastilha para o hálito, porque bem precisava, e imediatamente começou a deixar um rasto de vómito. Sabem daqueles que são difíceis de limpar? Parecia tinta de dedos".

Leva a tábua de enchidos e o cesto de bolachas para uma mesa ao fundo da divisão, passando pela enorme ilha da cozinha, pela acolhedora zona de estar em frente à lareira a gás (que está acesa), pelas portas envidraçadas que dão acesso ao pátio junto à piscina e às palmeiras que comprou e mandou plantar à volta da piscina ("porque sou obcecado por árvores") e, para lá disso, pela cidade interminável de Los Angeles. Comprou esta casa no outono passado. Ao todo, passou nela apenas três semanas, de forma espaçada.

"Os convidados ficam com a vista, essa é a regra", diz, indicando-me um lugar para me sentar. Vai buscar duas pequenas garrafas de Perrier ao frigorífico e pega num pedaço de papel de cozinha para cada um de nós, porque não sabe onde estão os guardanapos. Traz pratos de cerâmica espessa, em azul vivo, decorados com um padrão de linhas brancas entrelaçadas.

Estou a receber tratamento de realeza – digo-lhe.

"É só mais um dia na casa dos Pitt", responde.

Hoje acordou naturalmente, sem despertador. A que horas? Ri-se, uma gargalhada curta, um "a-ha". "Isso não interessa! O importante é que é um luxo", diz. Leu as notícias no telemóvel durante algum tempo. Fez um pouco de sudoku. Foi até ao ginásio e suou um bocado. Tomou banho. Arrumou o guarda-roupa.

"Bem, digo “arrumei', mas, na verdade, só mudei umas merdas de sítio," esclarece.

Recosta-se na cadeira e diz, voltando a sorrir: "Sim, foi um dia daqueles, simples e bom".

Esquerda: Casaco, BRUT CLOTHING. T-shirt vintage, KINCAID ARCHIVE. Calças, VALENTINO. Meias, CHARVET. Mocassins, GEORGE CLEVERLY. Relógio, PATEK PHILIPPE e pulseiras tudo do próprio. Direita: Casaco, SAINT LAURENT BY ANTHONY VACCARELLO. Camisa e calças, CINABRE. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Mocassins, CLEVERLEY.

Esquerda: Casaco, BRUT CLOTHING. T-shirt vintage, KINCAID ARCHIVE. Calças, VALENTINO. Meias, CHARVET. Mocassins, GEORGE CLEVERLY. Relógio, PATEK PHILIPPE e pulseiras tudo do próprio. Direita: Casaco, SAINT LAURENT BY ANTHONY VACCARELLO. Camisa e calças, CINABRE. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Mocassins, CLEVERLEY.

Se esta fosse uma história sobre o meu vizinho, ou sobre o meu cunhado Joe – por mais interessante que o Joe seja –, provavelmente não teriam chegado até aqui. Um homem abre a porta, acomoda os cães, põe queijo e bolachas na mesa. De manhã, arrumou o guarda-roupa. Mas esta é uma história sobre Brad Pitt, que pertence ao 1% do 1% das maiores estrelas de cinema, não apenas da atualidade, mas de sempre, seja qual for o critério utilizado: talento puro, rendimentos acumulados, beleza, receitas de bilheteira, magnetismo natural e a qualidade global, bem como o valor de entretenimento da sua filmografia até hoje. E há também o fator intriga. O seu prolongado divórcio de Angelina Jolie, o facto de os filhos não lhe falarem e, ao que consta, terem deixado de usar o seu apelido – seja lá o que for, ainda que profundamente doloroso, que ali se passa. Talvez já tenham ouvido falar disso e talvez seja precisamente uma das razões pelas quais continuam a ler.

Quando a novidade de ver Brad Pitt a preparar entradas compradas no supermercado perde o encanto, segue-se aquilo que seria de esperar deste encontro. Ele tem um filme novo e, naturalmente, foi para falar dele que me convidou a vir até aqui. Acontece, porém, que o filme acaba por abordar algo que lhe é profundamente pessoal. Acaba por falar de resiliência perante o desespero e da tentativa de agarrar os últimos fios de esperança. E, quando a conversa entra nesse território, este encontro, esta tarde, transforma-se em algo inesperado – raro, até. Eu próprio não estava à espera.

"Lembram-se daquele episódio de Beavis and Butt-Head–"

Estamos a falar sobre envelhecer e acabámos de estabelecer a diferença de idades entre nós: 11 anos. (Pitt tem 62 anos.) Ri-se e, por um breve instante, soa como Floyd, a sua personagem pedrada de True Romance, filme que estreou há mais de três décadas.

"Não me lembro do contexto, mas eles estavam a ser repreendidos por um adulto mais velho e a resposta foi simplesmente [voz de Beavis]: “És velho”. [Ri-se.] Era esse o insulto!"

Os seus olhos continuam tão azuis, vivos e sedutores como eram naquele quarto de motel em Thelma & Louise, antes de a maioria das pessoas saber quem ele era. Mas tem 62 anos, e houve uma altura em que existiam muitos homens mais velhos do que homens como ele. Homens como Redford, Hackman, Newman, Duvall ou Sutherland.

"É uma passagem estranha", diz, interrompendo o que está a fazer. "Havia uma espécie de proteção por cima de nós, e agora, com eles desaparecidos, é como perder os pais nesse sentido. Passamos a ser a última paragem".

Robert Redford tinha 55 anos e já era uma lenda quando dirigiu Pitt em A River Runs Through It, em 1992. (Voltaram a trabalhar juntos em Spy Game, em 2001, realizado por Tony Scott. "Outro pessoa de quem tenho tantas saudades! Era um verdadeiro original".)

Hoje, Pitt não aprecia particularmente a sua interpretação de Paul Maclean em A River Runs Through It: o irmão mais novo, destemido, o rapaz que descia rápidos, saía com nativas americanas, jogava demasiado e morreu cedo. Mas roubou o filme. Três anos depois recebeu a sua primeira nomeação para os Óscares, na categoria de Melhor Ator Secundário, por 12 Monkeys, de Terry Gilliam.

Esquerda: Casaco vintage, na KINCAID ARCHIVE. Camisa, GIORGIO ARMANI. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Lenço, CHARVET. Anel, DAVID YUMAN e colar, ANITA KO, do próprio. Direita: Casaco, HERMÈS. Camisa, CHARVET.

Esquerda: Casaco vintage, na KINCAID ARCHIVE. Camisa, GIORGIO ARMANI. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Lenço, CHARVET. Anel, DAVID YUMAN e colar, ANITA KO, do próprio. Direita: Casaco, HERMÈS. Camisa, CHARVET.

"Meu Deus, como eu gostava de voltar aos 50", diz, fixando o olhar em mim por um instante. "Faria muito mais coisas. Os 50 são... tudo o que lhe andar pela cabeça, vá. Vá atrás disso. Vá agora".

Durante a casa dos 50, Pitt protagonizou 11 filmes, produziu 17 e ganhou um Óscar de Melhor Ator Secundário por Once Upon a Time . . . in Hollywood. Também está a viver intensamente os 60. Acaba de sair de dois anos e meio de trabalho ininterrupto, o período mais longo de atividade contínua da sua carreira. Houve a estreia do êxito de bilheteira F1, acompanhada de uma longa press tour internacional. Depois filmou, de seguida, Heart of the Beast, uma intensa história sobre um homem e o seu cão, filmada na Nova Zelândia e com estreia prevista para este outono; um novo filme escrito por Quentin Tarantino e realizado por David Fincher, no qual volta a interpretar Cliff Booth, o duplo de ação que lhe valeu o Óscar; e, terminando há apenas algumas semanas, The Riders, um thriller sombrio previsto para o próximo ano.

Esvaziamos rapidamente as pequenas garrafas de Perrier e lembro-lhe que, mais cedo, me tinha oferecido vinho. Numa cerimónia de prémios, em 2020, agradeceu ao amigo Bradley Cooper por o ter ajudado a deixar de beber e falou mais abertamente sobre a sua sobriedade no podcast Armchair Expert, de Dax Shepard, em junho do ano passado. Pergunto-lhe se o vinho é apenas para os convidados.

"Não. Eu estive sóbrio durante sete anos. Depois voltei a sair da linha". Dá uma pequena gargalhada. Levanta as famosas sobrancelhas arqueadas e ergue um dedo. "Mas de forma muito mais controlada. Houve duas ou três vezes em que fiquei demasiado confiante e pensei: “Sim... não. Isto não é para mim”. Pelo menos não em grandes quantidades".

"Consegue beber um copo de vinho".

"Sim... consigo beber alguns. Mas não muitos. Tenho de ser profissional em relação a isso".

Além disso, agora gosta das manhãs. E quando se bebe demasiado na noite anterior perde-se uma bela manhã – e isso já não lhe desperta interesse. As manhãs interessam-lhe, e não quer deixar passar mais nenhuma sem a viver. Mesmo num dia como este. A sua casa oferece vistas dignas de uma revista de viagens sobre a cidade, mas hoje as nuvens escondem o azul de um horizonte ao outro, como algodão estendido no céu. É típico desta altura do ano, mas a maioria dos anfitriões teria pedido desculpa por o céu não estar azul no dia da minha visita. Pitt, não. Observa o céu, sorri e diz:

"Este nevoeiro de junho. Adoro o nevoeiro de junho. Torna tudo muito mais contemplativo e introspetivo".

Fica a olhar para a paisagem, a sorrir com orgulho, como se tivesse sido ele a construir a cidade e a compor aquela vista.

"É lindo".

Casaco e calças, KAPITAL, na BLUE IN GREEN. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Meias, CHARVET. Sapatos, JOHN LOBB. Relógio, PATEK PHILIPPE; anel, DAVID YUMAN; colar, ANITA KO; e pulseiras tudo do próprio.

Casaco e calças, KAPITAL, na BLUE IN GREEN. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Meias, CHARVET. Sapatos, JOHN LOBB. Relógio, PATEK PHILIPPE; anel, DAVID YUMAN; colar, ANITA KO; e pulseiras tudo do próprio.

O Mundial 2026 está a dar numa televisão de ecrã plano, sem som. 

Paraguai-Alemanha. Pitt vai espreitando ocasionalmente para a direita para ver o que se passa. Em vez do relato do jogo, tem ligada uma coluna bluetooth onde toca, em repetição, um álbum que anda a ouvir sem parar há uma semana: So Help Me God, de Kelsey Lu, cantora e violoncelista. É música etérea, carnal; a voz de Lu é como uma fita ao vento. Uma brisa morna de Los Angeles atravessa a sala, os doodles dormem, e o dia parece, por um momento, suspenso no tempo. Entretanto, trouxe uma taça de uvas verdes, grandes e sumarentas, ainda húmidas, e vai tirando algumas do cacho para as levar à boca, uma de cada vez, como se fossem pipocas.

No ecrã, um jogador paraguaio tropeça, rebola pelo relvado como um boneco de trapos e agarra-se à perna como se lhe tivesse passado uma motosserra por cima.

"Vou abrir um curso sobre como simular faltas, porque estes tipos são péssimos", diz. Levanta-se e finge cair. Deixa cair as mãos, tropeça com os pés, faz uma careta de dor exagerada e completamente falsa. "É das piores interpretações que já vi. Eu sei que fingir uma falta faz parte da estratégia do jogo, mas, meu Deus, eles precisam mesmo de ajuda. Vou começar pelo Neymar, porque, por mais elegante que seja em campo, precisa mesmo de umas aulas. Vou ensinar-lhe a vender a queda, a fazê-lo com subtileza, a não exagerar para parecer verdadeiro. Já tenho um programa inteiro preparado".

Vai até ao frigorífico buscar mais qualquer coisa para beber; desta vez, duas pequenas latas de água com gás de toranja. Ainda não terminou o assunto.

"É uma daquelas coisas que toda a gente aceita, mas de que ninguém gosta – como a representação nos anos 40, quando as atrizes desmaiavam". Leva as costas da mão à testa e, com uma voz aguda de senhora, exclama: "'Ó céus!'" A má representação deixa-me doido. É por isso que não consigo ver pornografia".

Pitt é um admirador da grande representação. Estuda-a. É um verdadeiro entusiasta da interpretação. Quando fala de um ator ou de uma atuação que o marcou, fá-lo em explosões de admiração; a sua voz descontraída e rouca enche-se de espanto. Basta mencionar James Gandolfini para se tornar quase reverente e murmurar: "Meu Deus, como ele está bem em Killing Them Softly". Um excelente thriller de 2012, seco e tenso. "Aquela cena no hotel. Parecia que estava a ver Brando no seu melhor durante dois dias seguidos. Eu era apenas um passageiro, a saborear cada minuto".

O outro ator com quem Pitt mais contracenou nesse filme foi Richard Jenkins, ator secundário de enorme sensibilidade, humor e discrição.

"Jenkins!" Atira os braços ao ar, abre um enorme sorriso e solta um som como quem acabou de provar a melhor tarte da vida. "Também é um dos meus favoritos de sempre. Houve uma amizade imediata entre nós. Nunca desilude. É incrivelmente engraçado".

Vê praticamente tudo. Diz que é mais espectador do que leitor. (Exceto argumentos. Como ator e produtor, lê muitos.) Quase todas as noites adormece a ver uma série. The Penguin, com Colin Farrell. Essa foi outra.

"Como é que ele consegue transmitir tanta emoção com um centímetro de borracha na cara? Estou a dizer, é impossível conseguir expressar qualquer emoção assim, mas ele conseguiu! E ainda por cima a coxear, e depois de passar horas na cadeira da maquilhagem para aplicar as próteses – isso deixa-me fascinado. Em miúdo, apanhava muitas vezes hera venenosa na cara e no pescoço por andar a rebolar pela mata", diz, franzindo o rosto e esfregando o pescoço como se estivesse com a pele irritada naquele momento. "Essas coisas dão cabo de mim. Não era capaz".

Já lhe ofereceram papéis em séries para plataformas de streaming e aceitaria um, se sentisse que era o projeto certo.

"Winslet já fez algumas", diz, referindo-se a Kate Winslet, que não conhece pessoalmente, mas cuja interpretação admira profundamente. "Acertou em cheio com algumas. Mare of Easttown. Impressionante. Mas depois fez The Regime, e aquilo era completamente louco. Ela entrega-se de corpo e alma. Adoro esse compromisso. Tentei atingir esse nível de entrega, sem dúvida, em The Riders, a última coisa que fiz, depois de a ver a ela".

Muito antes da estreia de The Riders, veremos Pitt em Heart of the Beast, escrito e realizado por David Ayer. (Ayer também escreveu e realizou Fury, em que Pitt interpretava um comandante de um tanque no final da Segunda Guerra Mundial, um homem que vivia – e combatia – segundo um código cuja brutalidade e pureza faziam dele um herói.)

Hoje, aos 62 anos, em cada papel que aceita, Pitt procura fazer algo que nunca tenha feito enquanto ator – nem que seja um pequeno detalhe, apenas numa cena, uma única emoção que nunca tenha revelado diante de uma câmara em toda a sua carreira. Isso basta-lhe.


Heart of the Beast conta a história de um antigo operacional das Forças Especiais do Exército norte-americano que sobrevoa o Alasca num pequeno avião, acompanhado pelo seu cão, que serviu ao seu lado como K-9 durante a guerra do Iraque. O avião despenha-se e homem e cão ficam isolados, a quilómetros de qualquer sinal de civilização, sozinhos um com o outro, à exceção de um estranho companheiro de viagem, interpretado por J. K. Simmons, que atravessa a história como um fantasma – ou como um louco. (“J. K. Simmons! Outro ator extraordinário! Whiplash! Que interpretação incendiária”.)

"Heart of the Beast é uma história de amor", diz Pitt.

O filme comoveu-me. Digo-o porque é verdade. Digo que me levou até uma zona remota da minha própria mente. Fez-me pensar nas coisas que fazemos uns pelos outros. Pitt e o belo pastor-alemão que interpreta Odin representam qualquer pessoa que alguma vez tenha tido de decidir o que fazer quando já não há nada a fazer – ou seja, representam-nos a todos.

Camisola, PRADA. Calças, EDWARD SEXTON. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Mocassins, JACQUES SOLOVIÈRE. Anel, DAVID YUMAN e colar, ANITA KO, do próprio.

"Que tatuagem é essa?"

Inclina-se para a frente para observar a tatuagem no meu antebraço esquerdo.

"Está muito boa", diz, suponho que a propósito da execução.

"Gosto".

"Desta?"

Passo um dedo sobre ela.

"É o meu irmão. As iniciais dele, em bandeiras de sinalização náutica. Morreu há uns anos".

Recosta-se na cadeira.

"Meu Deus".

"Mike. Um ataque cardíaco fulminante. Tinha 46 anos. Adorava velejar. Por isso..."

"É linda".

"Obrigado".

"E está muito bem feita. Há quanto tempo foi, se posso perguntar?"

"Claro. Há cerca de cinco anos. Um pouco mais".

De imediato, diz:

"Ahhh. Está precisamente a chegar à fase em que já consegue engolir isso".

Como se o tivesse sentido. Como alguém que conhece a perda.

De repente, é isso que Brad Pitt é. Um homem que conheceu a perda. De repente, é só isso. Uma estrela de cinema da mesma forma que eu sou escritor, o meu cunhado Joe é engenheiro de som e o seu canalizador é canalizador.

Levanta os olhos e volta a fixá-los em mim.

"Acho que o luto é, provavelmente, a emoção mais niveladora de todas".

Segura a borda da mesa com os dedos e abana ligeiramente a cabeça, um movimento quase impercetível, tão rápido que poderia passar despercebido.

"Aliás, isso até é dizer pouco. A perda é, sem dúvida, a experiência mais profunda que um ser humano pode suportar. E a solidão que pode vir a seguir é a maior das torturas".

É a mesma voz com que, antes, dizia "vá atrás dos 50", mas agora sem urgência. Não como um conselho, mas como uma palavra-passe entre pessoas que sabem do que estão a falar.

Esquerda: Camisa, LOUIS VUITTON. T-shirt vintage, na SUMSHITIFOUND. Calças vintage, na CASSIE MERCANTILE. Lenço, CHARVET. Direita: Casaco, HERMÈS. Camisa, CHARVET. Calças, EDWARD SEXTON. Anel, DAVID YUMAN, do próprio.

Esquerda: Camisa, LOUIS VUITTON. T-shirt vintage, na SUMSHITIFOUND. Calças vintage, na CASSIE MERCANTILE. Lenço, CHARVET. Direita: Casaco, HERMÈS. Camisa, CHARVET. Calças, EDWARD SEXTON. Anel, DAVID YUMAN, do próprio.

Pitt olha para a televisão, embora pareça nem reparar no jogo naquele momento, depois para o céu cinzento do outro lado das janelas, e volta a olhar-me nos olhos.

"Cinco anos...", diz, abanando agora lentamente a cabeça, sem largar a borda da mesa, como se precisasse dela para se manter firme. "Ao quinto ano começa-se finalmente a respirar outra vez".

Aceno com a cabeça. A borda da mesa está um pouco longe de mais para eu lhe chegar.

A conversa que se segue percorre o cancro, o divórcio, as indignidades do Alzheimer, cães que conhecemos e amámos. Conta-me que, em África, conheceu grupos de mulheres que sorriam com uma alegria contagiante, cozinhavam refeições deliciosas e nutritivas e passavam o tempo a contar histórias engraçadas. Só mais tarde soube que a maioria delas tinha visto os pais e os irmãos serem assassinados à sua frente.

Conta-me também que, desde que a mãe morreu, no ano passado, o pai...

"Digamos apenas que é melhor ser quem parte primeiro".

Falam com frequência. Para a semana, Pitt vai ao Missouri visitá-lo. Sentar-se-ão ao fim da tarde no alpendre da frente, a observar os pirilampos e a ouvir as cigarras, enquanto falam da mulher que já não está.

"Mas nós somos gente do campo. Não aprofundamos muito as coisas. De vez em quando, sai uma frase que vai mesmo ao fundo da questão... e depois seguimos em frente".

Há pouco tempo, Pitt dizia a uma amiga que sente, por vezes, que é demasiado emocional, demasiado intenso, o que tanto o pode levar a uma fúria descontrolada como a uma alegria absoluta. Gostava de ser mais equilibrado.

"E ela respondeu-me: “Sim, podias fazer isso. Podias ir para um ashram e tornar-te mais equilibrado”. Mas depois acrescentou: “Não sei... eu acredito na experiência humana. E a experiência humana significa que estamos aqui para sentir tudo. Tudo. Os momentos de felicidade absoluta e as profundezas desses abismos que esmagam a alma”. E isso libertou-me. Quando a ouvi, pensei: vou deixar de achar que há alguma coisa de errado comigo por causa disso".

Um dos cães, adormecido aos meus pés, solta um longo suspiro entrecortado e doce.

O problema, digo-lhe, é precisamente esses abismos que esmagam a alma. Não sei se uma alma pode realmente ser esmagada, mas há alturas em que é exatamente essa a sensação. E, quando isso acontece, parece impossível acreditar que algum dia voltaremos a sentir aqueles momentos de felicidade absoluta. Ou, melhor dizendo, esses momentos passam a parecer destinados apenas aos outros, às pessoas que nunca conheceram os nossos abismos nem a sua profundidade.

Pego num pedaço de queijo e pouso-o sobre uma bolacha. Brad Pitt olha para mim. Mete uma uva na boca. Inspira fundo. As palmeiras recém-plantadas balançam ligeiramente com o vento.

"Pois", diz. "Nunca fui suicida. Nunca fez parte da minha natureza. Aliás, se tenho alguma característica marcante, é provavelmente ser um otimista congénito. Isso ajudou-me muitas vezes. E também me levou a fazer disparates – já fui de frente contra um camião TIR por causa do meu otimismo. Ou, como diz sempre o meu eternamente divertido amigo David Fincher: “Sim, tu vês o copo meio cheio... mas está meio cheio de urina”. 

"Seja como for, nunca fui suicida, exceto durante um breve período. E, nessa altura, simplesmente... não conseguia... não via saída. A dor era tão esmagadora que... eu não ia fazer nada, mas conseguia sentir... conseguia sentir o aço frio de uma bala dentro da minha cabeça. E aquilo parecia um alívio. E pensei: “Ah... então é isto. Agora percebo. Percebo o suicídio, no sentido em que é apenas uma procura de alívio. Apenas uma tentativa de escapar à dor.' Mas também acho que temos um instinto de sobrevivência extraordinário. E, no meu caso, ele entrou imediatamente em ação. Só que..."

Faz uma pausa. A cabeça move-se lentamente sobre o pescoço, como se procurasse as palavras certas.

"Ouça... esta merda não é fácil."

Fica a olhar para mim.

"E está a falar com alguém que ganhou a lotaria".

Camisa, LOUIS VUITTON. T-shirt vintage, na SUMSHITIFOUND. Lenço, CHARVET.

Só Pitt, Jolie e os filhos sabem exatamente o que se passa entre todos eles. As alegações dela, o silêncio dele, para além de tudo o que é dito em salas com advogados e árbitros. Mas pergunto-lhe, menos interessado no drama do que nas suas consequências: Quando falamos desse período em que a dor era tão insuportável que conseguia imaginar o aço frio de uma bala como um alívio... estamos a falar disso?

"Dos miúdos?", pergunto.

Inclina-se para a frente, apoiando-se num cotovelo. Inspira apenas metade de uma respiração e olha para mim por cima da mesa.

"Da família", responde.

Ele acena com a cabeça, olha para mim. Aceno também com a cabeça.

“Coisas de família”, digo. Algo muda na sala, algo molecular, por apenas um segundo. Fios cruzados. Um frame a preto e branco.

“Coisas de família”, diz ele. “Ficamos por aqui”.

Chegaram aos penáltis. cada equipa tem direito a cinco remates e, se continuarem empatadas, segue-se a morte súbita.

Continuam empatadas ao fim dos cinco.

"É por isto que o desporto é a melhor coisa que existe", diz, agachado, com as mãos na cabeça. "É uma vida inteira condensada num minuto".

Sobre o aparador em frente à televisão estão nove pequenas taças, todas diferentes, mas pertencentes ao mesmo conjunto. Cada uma é imperfeita à sua maneira, feita à mão, e, precisamente por isso, juntas são perfeitas. Numa breve pausa do jogo, pergunto-lhe se são recordações das suas viagens pelo mundo.

"Não. Durante uma fase andei obcecado por matcha e comprei umas taças de matcha super elaboradas", responde, abanando a cabeça enquanto olha para elas como se já não reparasse nelas há muito tempo. "Quando me entusiasmo com uma coisa, entrego-me completamente. Seja o que for, vou até ao fim".

Não sei porquê, mas pergunto-lhe se sabe dar um nó numa gravata de laço.

"Hum...", responde. "Não. E sabe há quantos anos digo: “Este ano é que vou aprender”? Depois chega o dia do evento, continuo sem saber, por isso limito-me a usar uma de mola e sigo com a minha vida".

"Nem sequer pede a alguém que o faça? Usa mesmo uma de mola?"

"Prendo aquela merda e pronto. Acho que nunca fui a uma cerimónia de prémios sem uma gravata de laço de mola."

"Recebeu o Óscar com uma gravata de laço de mola".

"100%."

Os jogadores alinham-se um a um. Os guarda-redes baixam-se, prontos para defender. Pitt não tem qualquer preferência, não lhe interessa quem ganha, e odeia que uma das equipas tenha inevitavelmente de perder.

"Detesto... detesto..."

A parte da vida de Pitt passada a viajar pelo mundo é bem real. (E, segundo ele, faz péssimas malas: leva sempre o triplo do que precisa. Há malas inteiras que nunca chega a abrir. Conta-me que a companheira, Ines de Ramon, com quem está há vários anos, não só faz malas impecáveis como ainda arruma a roupa nas gavetas do hotel. Pitt diz que está "a aprender".)

Heart of the Beast, por exemplo, foi filmado na Nova Zelândia porque os incentivos fiscais tornam a produção mais barata. A conversa leva-o rapidamente à utilização cada vez maior da inteligência artificial para criar efeitos visuais em filmes que, de outra forma, seriam demasiado caros para existir.

"Há muita resistência à IA, mas a IA vai precisamente ser aquilo que, se for usada como uma ferramenta, permitirá que filmes de orçamento intermédio – entre quarenta e noventa milhões de dólares – continuem a ser feitos".

Esquerda: Camisola, VISVIM. Calças vintage, na FRONT GENERAL STORE. Meias, CHARVET. Mocassins, GEORGE CLEVERLY. Relógio, PATEK PHILIPPE e pulseiras, do próprio.Direita: Casaco vintage, na KINCAID ARCHIVE. Camisa e calças, GIORGIO ARMANI. Mocassins, JACQUES SOLOVIÈRE. Die

Esquerda: Camisola, VISVIM. Calças vintage, na FRONT GENERAL STORE. Meias, CHARVET. Mocassins, GEORGE CLEVERLY. Relógio, PATEK PHILIPPE e pulseiras, do próprio.Direita: Casaco vintage, na KINCAID ARCHIVE. Camisa e calças, GIORGIO ARMANI. Mocassins, JACQUES SOLOVIÈRE. Die

E eu penso imediatamente na outra utilização da IA: substituir atores. Poderia um realizador fazer Heart of the Beast com uma versão artificial de Brad Pitt, da mesma forma que alguém criou, em dezembro passado, um vídeo gerado por IA em que lutava com Tom Cruise num telhado?

Pitt faz uma pausa e olha para o teto.

"Bem... conseguiriam... não, porque... bem, depende de quem está a criá-lo. De quem está por trás, de quem está a contar a história", responde, construindo o raciocínio à medida que fala. "Quem diz: “Quero esta emoção dele” e depois explora tudo o que a IA oferece, dizendo: “Mais nesta direção”, moldando a interpretação dessa forma. Portanto, podiam fazê-lo, mas o resultado final talvez já não fosse feito das minhas escolhas nem das coisas que fui descobrindo ao interpretar a personagem.

"Olha, vai ser uma experiência muito interessante. Andam a dizer-nos para..." 

Olha pela janela.

"Costumo ver falcões lindíssimos daqui. São incríveis. Para digitalizarmos os nossos corpos. Ando a ser digitalizado há vinte anos e sempre pus uma cláusula nos contratos: os ficheiros são meus e têm de ser destruídos. Devia era tê-los guardado! Passei estes anos todos a mandar destruir tudo porque continuo a ser um rapaz paranoico dos Ozarks".

É uma ideia curiosa: um Brad Pitt reduzido ao conjunto de todas as emoções que já expressou e de todos os movimentos que fez ao longo da carreira. Sobretudo porque o verdadeiro Brad Pitt procura precisamente fazer coisas que nunca fez enquanto ator – emoções que ainda não fazem parte do algoritmo Brad Pitt, como se estivesse a tentar manter-se sempre um passo à frente de si próprio.

"Ouvi outro dia uma canção feita por IA que era bastante boa", diz. "Mas tinha qualquer coisa de repetitivo. Nunca será a mesma coisa do que ouvir a voz dela... a voz de uma mulher, de uma pessoa".

Esfrega a nuca.

"Na outra semana fui ver um espetáculo em Paris. Flea e Thom Yorke subiram ao palco e tocaram Marvin Gaye. Com a banda de jazz de Flea", diz, olhando para mim. "Meu Deus... foi absolutamente extraordinário. Estava cheio de alegria". 

Volta a pousar as pernas da cadeira no chão, aponta-me um dedo e afirma: "A IA não consegue fazer isso".

Pitt volta a interpretar Cliff Booth, a personagem de duplo de ação de Hollywood que lhe valeu o Óscar, num filme que estreia a 25 de novembro. (Poderia David Fincher ter usado IA para construir essa interpretação a partir da atuação de Pitt em Once Upon a Time... in Hollywood, onde interpretava a mesma personagem?)

Durante algum tempo, o filme de Booth esteve morto. Tarantino tinha anunciado que faria apenas 10 filmes antes de se reformar, e este seria o décimo. Depois mudou de ideias: decidiu que o último filme da carreira deveria ser algo totalmente novo, não uma obra que pudesse ser vista como uma sequela.

E assim morreu o projeto.

Mas Pitt começou a pensar. E se fosse Fincher?

Fincher realizara Seven, Fight Club e The Curious Case of Benjamin Button, e a amizade entre os dois é inabalável. Pitt escreveu a Tarantino a perguntar se podia, pelo menos, mostrar-lhe o argumento.

"Quentin deu-me autorização", conta, cada vez mais entusiasmado. "Finch e eu estávamos num avião. Dei-lhe o argumento e, quando aterrámos, disse-me: “Faço-o.””

Na verdade, o filme não é propriamente uma sequela. É, nas palavras de Pitt, "as aventuras contínuas de...". Vi os primeiros 24 minutos numa pequena sala de projeção no escritório de Fincher, em Los Angeles, e é um sonho para qualquer apaixonado por cinema. A realização cirúrgica de Fincher sobre um argumento brilhante de Tarantino, com Pitt a carregar o filme inteiro apenas com aquele sorriso de canto? Façam mais um.

Em vez de uma sequela, Pitt compara-o às séries episódicas que Tarantino dizia ver quando era criança, em que acompanhávamos as mesmas personagens de aventura em aventura, embora cada episódio funcionasse de forma independente. The Rockford Files. Joe Mannix em Mannix.

"Alias Smith and Jones e tudo isso", enumera Pitt. A série, um western de curta duração, passou no início da década de 1970. "Era inspirada em Butch Cassidy and the Sundance Kid. E vou contar-lhe uma história engraçada".

Esfrega o queixo, a sorrir.

Casaco vintage, na KINCAID ARCHIVE. Camisa, GIORGIO ARMANI. Calças, ANDERSON & SHEPPARD. Óculos, JACQUES MARIE MAGE. Lenço e meias, CHARVET. Mocassins, JACQUES SOLOVIÈRE.

"Eu adorava Butch Cassidy and the Sundance Kid. Vi esse filme quando andava no jardim de infância, por isso devia estar na primeira classe, e depois adorava Alias Smith and Jones. Talvez já estivesse na segunda. Quando começou a segunda temporada, vi nas notícias que um dos protagonistas se tinha suicidado. Estava em casa da minha avó, uma casinha minúscula de três divisões, com os meus pais, e tive de ir para o quarto chorar em silêncio, porque não queria que eles me vissem. Tinha vergonha. Era assim naquele tempo. Rapazes e lágrimas".

Percebo perfeitamente. Faço um pequeno aceno, também com a mão apoiada no queixo.

Ultimamente, Pitt tem pensado muito em Love the One You're With, de Stephen Stills. Sempre detestou a canção, porque lhe parecia falar de nos conformarmos com algo inferior – ou, pelo menos, diferente daquilo que realmente desejávamos. Hoje interpreta-a de outra forma: como um convite a valorizar aquilo que temos em vez de lamentar aquilo que nos falta. Os amigos que permaneceram ao nosso lado. A família que nos compreende. As pessoas que continuam presentes. Chama-lhe concentrar-se no lado positivo.

Às vezes vai de carro, vê pessoas sentadas numa esplanada a comer, a rir, e pensa como parecem felizes e despreocupadas. Sente qualquer coisa parecida com inveja. Talvez pense nos filhos. Pensa certamente no pai, sozinho, a mover-se lentamente pelos compartimentos escuros da casa, e sente qualquer coisa parecida com raiva.

Contra Deus? Contra o mundo? Contra aquelas pessoas aparentemente despreocupadas?

"É difícil conciliar tudo isso", diz. "Mas volto sempre à mesma ideia: o desafio é conseguir segurar as duas coisas ao mesmo tempo. Se se sobreviver ao luto, ele deixa um vazio imenso. Mas também deixa uma beleza profunda. Uma beleza que dói, mas continua a ser beleza".

A questão – ou uma das questões – é esta: quando alguém se sente como aquele ator de Alias Smith and Jones se sentia, ou como Pitt se sentiu naquela fase relacionada com a família – e todos nós já nos sentimos assim, admitamo-lo ou não –, o que é que uma pessoa faz? Como é que se sai desse lugar?

"Uau...", responde, permanecendo em silêncio durante alguns instantes. Depois continua:

"Eu não vejo isso como sair de lá. Vejo-o como atravessá-lo. Tentar, tentar, tentar, tentar até à exaustão... e depois voltar a tentar. Não quero ignorar aquele momento em que batemos contra uma parede. Mas houve um dia em que simplesmente acordei e senti que havia um pouco mais de sol. O ar parecia um pouco mais doce. Apenas microdoses disso".

Enquanto Kelsey Lu canta, um jogador do Paraguai elimina a Alemanha com um único penálti. Uma surpresa. A conversa deriva para horários, projeções de filmes e o aproximar do fim da tarde. Pitt revira gavetas à procura de um post-it e de uma caneta para me dar o seu e-mail.

"Onde é que..."

De repente, como se um interruptor tivesse sido ligado, interrompe a procura. Ainda precisa de terminar um pensamento. Deixa de procurar a caneta.

"Se calhar estamos a olhar para isto da forma errada. Talvez tudo comece por desistirmos da ilusão de controlar tudo – dessa necessidade, dessa ideia de como as coisas deviam ser, ou do que devia ter acontecido, ou de como a vida supostamente deveria correr – e depois insistirmos em tentar moldar tudo à força, o que é impossível. Talvez seja precisamente esse o caminho para um dia acordarmos e repararmos que o sol está um pouco mais brilhante e que o ar sabe um pouco melhor. E isso, para mim, é a aceitação".

Fico a olhar para as pequenas taças de matcha, abanando ligeiramente a cabeça. Os jogadores do Paraguai rebolam agora na relva, abraçam-se, gritam de alegria. Penso ver um alemão a chorar.

Pitt diz que, nessa noite, vai encomendar churrasco coreano. Do Genwa, um restaurante na Wilshire. "É o melhor". Usa a Postmates. Depois, talvez veja qualquer coisa.

Traduzido do original, disponível aqui.

EntrevistaRyan D’Agostino | @rhdagostino
FotografiaChantal Anderson | @chantalaanderson
StylingGeorge Cortina | @georgecortina
CabelosJason Low | @misterjasonlow
MaquilhagemJean Black
ProduçãoHyperion | @hyperion.la
Set designPeter Gueracague | @peter_gueracague
TailoringSusanna Badalyan
16mmLuke Hanlein | @photoflood_
AgradecimentosA Esquire agradece à The Garibaldina Society, LA. todas as facilidades concedidas.
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