Cultura

Douglas Stuart, vencedor do Booker Prize, sobre o livro "John of John", a sua saída da Escócia e o seu próximo romance

By Henry Wong 09 Jul 2026

Fotografia: Desiree Adams

O novo livro do autor escocês é um romance cativante, cuja ação se desenrola na Ilha de Harris.

Antes da publicação do seu primeiro livro — Shuggie Bain, vencedor do Booker Prize 2022 —, Douglas Stuart tinha mais tempo livre. O autor já tinha terminado a sequela, Young Mungo, de 2022, e achou que seria melhor afastar-se um pouco e começar algo novo. “Fui para as Hébridas Exteriores durante três meses, sem saber o que ia escrever”, conta Douglas. Começou pelas ilhas do sul e foi subindo pelo arquipélago, na esperança de aprender sobre a vida com as pessoas que viviam neste lugar longínquo. As conversas decorriam mais ou menos assim: Stuart perguntava numa loja por alguém que lhe pudesse falar, por exemplo, sobre a criação de ovelhas no verão. Essa pessoa indicava-lhe uma casa no fim da aldeia. E, assim, Douglas batia à porta de um completo estranho. “Sempre que fazia isto”, diz, “e fiz isto centenas de vezes, era recebido com uma hospitalidade tão calorosa”. Antes da viagem, conhecia apenas duas pessoas nas ilhas e, quando partiu, já tinha conhecido centenas.

Felizmente para nós, o autor também tinha material para um novo livro: John of John. Douglas Stuart não disse aos habitantes da ilha que estava a escrever um romance gay — “não sabia como as pessoas se sentiam em relação à homossexualidade” —, mas afirmou que estava a contar uma história sobre um pai e um filho. Esse filho é John-Calum MacLeod, conhecido como Cal, que regressa a casa, à Ilha de Harris, depois dos seus estudos numa escola de arte não lhe terem dado emprego. O seu pai, também John, é um criador de ovelhas e apoiante incondicional da igreja presbiteriana local que nunca saiu da ilha. “Já tinha escrito tanto sobre a homossexualidade e sobre o que o meu país significa para mim, mas era sempre num contexto urbano”, conta. “E, sinceramente, a identidade queer quando se vive no campo é algo muito diferente”.

Ao longo de 400 páginas, o livro leva-nos numa viagem até às chuvosas Hébridas, pelos segredos há muito guardados de uma família e pelas dores partilhadas de uma pequena comunidade. Há, também, algumas reviravoltas shakespearianas pelo caminho. A investigação do autor relacionada com a escrita do livro é notável através das descrições detalhadas do nascimento dos cordeiros, dos moinhos e da comunicação na era pré-Internet, visto que o romance se passa no final da década de 1990. Douglas destaca-se por encontrar beleza na vida de uma pequena cidade, uma característica que também atribui ao John mais velho — um homem severo e com profundidades muito ocultas. De passagem, John observa os moleiros a trabalhar e descreve “as fibras a serem sopradas, a misturarem-se e a caírem como nuvens coloridas”.

Douglas Stuart, que tem agora 50 anos, nasceu e cresceu em Glasgow, sendo o mais novo de três irmãos numa família da classe trabalhadora. O pai abandonou-o quando ele era pequeno e a mãe faleceu devido a doenças relacionadas com o alcoolismo quando tinha 16 anos. Existem ligações evidentes entre a infância do autor e o protagonista de Shuggie Bain, embora, como Douglas salienta, essa história seja uma obra de ficção: “A minha história pessoal ofuscou aquilo que eu tinha alcançado”. Mais tarde, Stuart frequentou o Scottish College of Textiles e o Royal College of Art antes de se mudar para Nova Iorque — onde ainda vive com o seu marido, um curador de Arte — para seguir uma carreira na moda, trabalhando na Calvin Klein e na Banana Republic. “Foram semanas de seis dias de trabalho durante toda a minha carreira”, diz. “Por isso, escrever era um refúgio muito privado e protetor para mim”. A recepção entusiástica de Shuggie Bain — que já vendeu mais de 1,5 milhões de exemplares em todo o mundo — catapultou Douglas para o centro das atenções literárias.

Logo após ganhar o Booker Prize, Douglas Stuart passou cerca de seis semanas a dar uma série de entrevistas. “A pergunta que surge imediatamente é: “Quão sortudo é? Foi um verdadeiro golpe de sorte tere ganho o Booker Prize”, diz. “Há uma mentalidade muito britânica em que o fracasso está inerente ao sucesso. Não se importam que tenha um pouco de sucesso, mas esperam que fracasse”. John of John é o primeiro livro que escreveu na íntegra desde que ganhou o prémio, uma vez que tinha estado a trabalhar em Young Mungo em paralelo com a sua obra de estreia. Isso foi simultaneamente uma oportunidade e um desafio para o autor, que queria abordar os fracassos — tal como ele os vê, pelo menos — dos dois primeiros romances. Stuart descreve o terceiro romance como uma série de triângulos e a narrativa apresenta um acabamento sofisticado.

John of John, versão em inglês, €22,97, Douglas Stuart, em wook.pt

Em conversa num restaurante espanhol no centro de Londres, no início de novembro, Stuart revelou-se uma excelente companhia: sério quando o assunto assim o exige e atrevido quando nos desviamos da literatura. Foi a sua primeira vez a falar com um jornalista sobre o seu novo romance, e pediu desculpa — desnecessariamente — por quaisquer respostas pouco articuladas às perguntas. É também, e isto é revigorante para alguém do meio literário, verdadeiramente animado. “Estou zangado com a questão da fé na Escócia, estou zangado com a pobreza”, disse. “Estou zangado com todos os anos em que não fui autenticamente eu mesmo para com as pessoas que mais me amam”. É possível sentir essas frustrações nas páginas de John of John, nas perspetivas de carreira sombrias de Cal, na homofobia da igreja e na claustrofobia da pequena cidade.

Certamente, o autor sente isso, mesmo agora, no mundo das artes — um setor que compara a um parque infantil da classe média. “O que une a moda e a literatura é a enorme quantidade de exclusão que ocorre em ambas. Há um círculo central e tudo o resto fica de fora”, afirma. “Acho que será sempre uma luta para mim conseguir afirmar-me”.

Então, o que se segue? “Sinto que, com o John, fechei um capítulo da minha vida. A minha relação com os meus sentimentos pessoais em relação à Escócia, por agora, está encerrada. Acho que não vou escrever sobre a Escócia durante muito tempo”. Tinha mencionado um plano para escrever um grande romance sobre moda, que provavelmente mudaria o cenário da Escócia para a América. Sem dúvida, Douglas Stuart tem a experiência de vida necessária para isso, e a motivação. “Sou absolutamente obcecado por mim próprio enquanto escritor”, diz, com a franqueza que o caracteriza. “Alguns escritores adoram o que se passa no mundo a nível político e voltam o seu olhar para os ataques distópicos ao feminismo e às alterações climáticas. Nunca fiz isso. Acho que não quero fazer isso. Estou interessado em questionar a minha própria existência”.

Traduzido do original, disponível aqui

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