Fotografia: 4th Estate
Como todos sabemos, a renda é um verdadeiro pesadelo.
Todos temos uma história de terror sobre um colega de casa, mas a de Tobi Coventry é incrivelmente boa. No seu romance de estreia, He’s the Devil, Simon procura um novo colega de casa depois de o seu amigo snob ter comprado um apartamento numa zona mais agradável (obrigado, mãe!). É obrigado a viver com Massimo: um homem misterioso que Simon descreve como um jovem Richard Ramirez. A referência a este assassino em série americano, que era conhecido como Night Stalker e era, sim, um pouco sedutor, tem um significado importante. Em breve, surgem sons estranhos durante a noite e maus cheiros no seu apartamento T2. A verdade é que, desde Jane Eyre que não ficávamos tão nervosos com o que se passa num quarto de hóspedes.
Há algo no ar entre os jovens escritores, e não creio que um desumidificador consiga resolver o problema. Em I Want to Go Home But I’m Already There (2025), Róisín Lanigan moderniza o típico romance que acontece numa casa assombrada para a era do arrendamento, à medida que a sua heroína, Àine, começa a acreditar que o seu apartamento tem uma energia negativa (não ajuda a personagem ter assinado um contrato de arrendamento com o seu parceiro um pouco cedo demais). Noutros títulos recentes, como The Lodgers, de Holly Pester, e Three Rooms, de Jo Hamya, a instabilidade da vida em casas arrendadas leva as personagens à loucura. E, não por acaso, muitos destes romances são estreias: dá para sentir a angústia e o pânico a transbordarem (literalmente) das páginas.
Será de admirar? A esta altura, já estamos bem familiarizados com o problema habitacional que se faz sentir ao redor do mundo. Por exemplo, em média, os habitantes de Londres gastam mais de 40% do seu rendimento em renda (30% é considerado a proporção acessível), enquanto o número de habitações privadas disponíveis para arrendamento caiu 6%, atingindo um mínimo histórico em 2024. Mas esses factos e números têm os seus limites. Na ficção, ganham vida.
Ou será este um tema que devia morrer? Coventry arrisca tudo em He’s the Devil, adotando clichés do terror e através de um tom de voz agradavelmente desequilibrado. Tem olho para detalhes repugnantes (urina, aparas de unhas) e cria suspense (prendi a respiração durante muitas das sequências noturnas). A verdadeira alegria, porém, é Simon: um narrador pouco fiável, ligeiramente patético e em rápido desmoronamento.
O que o livro revela é uma verdade mais banal: uma casa partilhada não precisa do sobrenatural para parecer um verdadeiro inferno. Sofremos com turnos de limpeza, divisão de compras, jantares tensos, viver no centro da cidade e de uma renda talvez, mais ou menos, acessível. O que Coventry e os seus contemporâneos compreendem é que o verdadeiro monstro é a própria precariedade. Enquanto lia He’s the Devil, dei por mim a pensar que, pelo menos, nunca tive de chamar um exorcista.
Traduzido do original, disponível aqui.
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