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20 lições para aprender a ser rico

By Esquire Portugal 07 Aug 2026

Ilustração de Ângelo Navalha. Fotografia: Getty Images.

Os jovens de hoje levam vida de ricos, se os compararmos com os filhos dos ricos de antigamente. Mas enriquecer não impressiona quem viveu na era dourada. O mais difícil é manter a fortuna. Mais de um século depois, confira se os ensinamentos de Lorimer ainda são atuais.

Há muitas maneiras de enriquecer, o problema é haver mais maneiras ainda para alguém se enterrar em dívidas. Escritas no final da gilded age, a era dourada que viu transformar os Estados Unidos no país mais próspero do mundo, as Cartas de um homem de sucesso ao seu filho (ed. Ideias de ler), fazem figura de comédia nos dias de hoje. Não por ser um livro de autoajuda ultrapassado, mas por existir agora uma geração tão parecida com os filhos dos ricos de há 125 anos: “Os jovens estão constantemente a pedir conselhos sobre como ter sucesso e, quando lhes envio a minha receita, dizem que estou a dar generalidades banais. Claro que estou, mas é para isso que a receita existe, se um jovem pegar nessas generalidades banais e as incorporar no seu trabalho, a mistura dará num bolo.”

As Cartas de um homem de sucesso ao seu filho
foram um dos primeiros fenómenos de bestseller do séc. XX. O seu autor, George Horace Lorimer, dirigiu durante quase 40 anos o Saturday Evening Post, transformando uma pequena publicação local no maior semanário do país. Foi neste jornal, por exemplo, que Jack London começou a publicar as suas famosas aventuras no Yukon. Quando publicou a correspondência de um empresário ao filho, fê-lo sob o pseudónimo de John Graham, na personagem do chefe de uma fábrica de enlatados.

Com o crescimento da via-férrea e o surgimento dos primeiros sistemas de refrigeração, o negócio da carne tinha-se tornado uma das principais fontes de enriquecimento do país nas últimas décadas. Apesar de Lorimer ser pouco mais velho — tinha 34 anos — do que os jovens em início de carreira a quem dava conselhos, as cartas foram tão bem recebidas pelos leitores do jornal que as reuniu em livro.

Boa parte dos seus conselhos são generalidades tão repetidas que algumas verdades encerram, mesmo já faltando paciência para as escutar. Mas as cartas dão a conhecer tanto o empresário do seu tempo como o fino observador da diversidade humana. Segue-se um resumo das suas sentenças, que refletem as manhas da raposa e a previdência do mocho.

Educação aplicada

A educação forma o carácter, mas não o substitui. Segundo Lorimer, “um jovem com as qualidades certas” aprende na sala de aula e fora dela. A propósito de um protegido seu que falhou em todas as oportunidades de emprego que lhe arranjou, por não saber tratar com as pessoas nem aplicar os conhecimentos adquiridos, conclui: “a última notícia que tive dele era que estava a escrever artigos acerca dos motivos por que os jovens fracassam (...) fracassar era o único assunto sobre o qual tinha experiência prática.”

O dinheiro dos outros

"O homem mais mesquinho é aquele que é generoso com o dinheiro que não teve de suar para ganhar.” O pai escreve esta carta ao saber das despesas do filho para acompanhar o modo de vida dos colegas.

Pós-graduação

O filho quer prosseguir os estudos com uma pós-graduação, mas o pai prefere vê-lo a evoluir numa fábrica. Dá-lhe até o exemplo do primeiro empregado que teve na sua fábrica com formação académica: em cada cargo que lhe era atribuído encontrava maneira de extinguir o seu posto, tornando-o obsoleto: “Era preguiçoso, mas tinha feito a empresa poupar tanto dinheiro que eu não o podia despedir.”

Viajar

O filho quer viajar depois dos estudos e o pai instrui o tesoureiro a cortar-lhe a mesada. A boa condição física e mental de um jovem acabado de se formar resulta do facto de testar os conhecimentos que adquiriu, e não de acumular ainda mais: “Não brinques com a colher antes de tomares o remédio.”

Fazer planos

“Ouve mais do que falas: quando um homem está a ouvir, não se está a revelar e está a agradar o outro que, esse sim, está a revelar-se.” Lorimer chama à atenção para os planos ambiciosos e para os jovens que preferem ganhar um milhão por noite, na sua cabeça, a cinco dólares por dia.

Cartas à namorada

No escritório, o filho envia a um cliente a carta que escreveu à namorada. “O teu tempo é dinheiro — o meu dinheiro — e quando usas meia hora dele para os teus fins, isso é uma forma mesquinha de furto.” Lorimer valoriza mais a disciplina no trabalho do que o talento para aprender rápido, já que “não faço negócios com um homem que deliberadamente me engana.”

Queixas

O filho queixa-se da forma como é tratado pelo chefe, dando um sinal de fraqueza: “a empresa não está interessada em saber se gostas do teu chefe, mas sim se ele gosta de ti.”

Elogios

O filho é promovido e o pai escreve-lhe das termas: “puseram-me em tanques de água escaldante até quase tirarem todos os pelos da minha pele, mas isso ou outra coisa relaxou as minhas articulações, de modo que já não rangem quando ando. O médico diz que vai curar o meu reumatismo em 30 dias, por isso estarei em casa daqui a cerca de 15 dias.” Lorimer sugere com esta digressão anedótica que um homem rico está condenado a tratamentos infindáveis, enquanto o pobre está mais perto de ficar curado, por não ter como pagar. O elogio que o filho espera dele é adiado na carta até finalmente não o dar: “coloquei-te sob a supervisão do Milligan para ter uma visão de ti através dos olhos dele (...) é um daqueles homens que nunca demonstraram entusiasmo real, exceto quando estão a praguejar.” Em qualquer situação, um pai deve evitar ser juiz do filho.

São rosas

O pai descobre que o filho gasta mais em rosas com a namorada do que o dinheiro que recebe em ordenado: “um funcionário que ganha 12 dólares e deve 52 por rosas precisa mais de um cuidador do que de uma esposa.” Descobre também que o filho anda a namorar uma rapariga pobre que foi educa- da como rica: “Ela simplesmente trocou as virtudes dos pobres pelos vícios dos ricos.” O seu conselho é casar-se com uma esposa bonita: “Mesmo a mulher mais bonita parece, por vezes, feia, e assim tens um pouco de variedade; mas uma feia só pode ficar pior.”

Na estrada

O filho trabalha agora no departamento de vendas, está sempre em viagem. Lorimer, que gosta de histórias e de escrever cartas, convida o filho a poupar ambas. O que ele precisa não é de justificações para as dificuldades, mas de encomendas.

Margem de lucro

O filho tem demasiadas despesas para tão poucas encomendas. Segundo o pai, está na posição de quem fugiu de uma cornada e está pendurado numa árvore, com o touro à espera dele. Neste impasse, o filho não desiste, mas também não se esforça: “Ficaria mais feliz com o teu desempenho se tivesses um fracasso total ou um sucesso retumbante, em vez de te safares por pouco.”

Irritações

O pai irrita-se com o filho por este acatar as suas críticas com brandura: “Desconfio de um animal que fica quieto sob o chicote.” Mas não aceita que o filho se irrite com os clientes: “Isso só mostra que estás longe de saber o teu ofício (...) um homem diplomático consegue tirar o ferrão de uma abelha sem ser picado.” Outro aviso: pior do que cometer duas vezes o mesmo erro é esconder que o cometeu, transformando-o numa mentira.

Fato novo

O filho é aumentado e o pai pede-lhe para mandar fazer um fato e enviar-lhe a conta: “Compra algo que não leve as pessoas a questionarem se apostas em corridas de cavalos ou fazes sapateado para ganhar a vida.” Um homem deve vestir-se de acordo com a posição que ocupa.

Especular

O filho investe na bolsa com lucros espetaculares, mas o pai desconfia da especulação. O dinheiro que se ganha facilmente tende a voar com rapidez: “poderás ir à bolsa como comerciante, até isso acontecer, só podes ir lá como um idiota.”

Confiar

O filho é promovido para um cargo de gestão e o pai conta-lhe a história do homem que veio substituir: para aumentar as vendas, Jack Summers convenceu uma nação inteira a comer bacon frito em banha ao pequeno-almoço. Com a descoberta do colesterol virou-se para os óleos vegetais, conquistando duas novas clientelas, a dos judeus e a dos vegetarianos. Sobre dirigir pessoas: “Um sujeito que não sabe receber ordens não pode dar ordens. Se as regras dele são demasiado difíceis para ele seguir, podes apostar que são demasiado difíceis para os funcionários, que não recebem nem metade do que ele recebe para as seguir.”
É no trato com os subordinados que George Lorimer dá as indicações mais preciosas: evita muitas regras gerais, cada pessoa é um caso especial; evita dizer uma palavra dura e não desperdices a oportunidade de dizer uma palavra boa. A mais importante de todas: “Nunca saibas nada sobre os teus homens, exceto através deles próprios. Um bom gestor não precisa de detetives, quem não sabe ler a natureza humana não a sabe gerir.”

Vesgo

Perante a escalada de sucesso do filho, o pai puxa do travão: “O grande problema de algumas pessoas é deixarem que um pouco de sucesso lhes suba à cabeça. Em vez de esconderem a sua autoridade e tentarem aproximar-se dos subordinados, usam-na para os mante- rem afastados.” Há quem só dê importância aos que estão em cima, e há os que apenas se preocupam com quem fica por baixo, mas o ideal é ser vesgo “para conseguir ver os dois lados ao mesmo tempo.”

Fama

O filho tem um novo emprego e o pai regozija-se de se ter curado do reumatismo: “Espero que o teu chefe confirme todas as coisas boas que dizes de ti próprio. No futuro, porém, não precisas de te preocu- par em manter-me informado sobre isso. É o único assunto em que os homens são francos e é o único sobre o qual não é necessário ser. Não adianta tentar esconder sobre o facto de seres um fora de série — acabarás por ser descoberto.” Uma história de infância ilustra o ódio deste pai pela notoriedade: depois de roubar uma melancia, a mãe deu-lhe uma sova, obrigou-o a decorar os mandamentos e ainda o obrigou a confessar-se aos vizinhos durante a missa.

Nem insultos nem elogios

Os insultos não podem prejudicar, os elogios não podem ajudar. “Muitos homens já me quiseram caçar, mas planearam o funeral antes de apanharem o falecido.” Esta sentença é ilustrada com uma história desconcertante: a história de um menino que desaparece à beira de um lago, para comoção geral, e a pessoa menos preocupada é a mãe, uma viúva com mais 13 filhos que o conhece demasiado bem para o imaginar afogado.

Casamento

O filho quer casar e o pai alerta-o para um protegido seu que se apaixonou por três raparigas, acabando a fugir de todas depois de as encontrar no mesmo baile: “um animal que tem instinto, em vez de bom senso, pertence aos arbustos.” O casamento não resulta pois da verdade dos sentimentos, mas de assumir uma escolha.

Mulheres

“Um homem casado vale mais salário do que um solteiro, porque a sua esposa torna-o mais valioso.” Lorimer tinha as mulheres em alta estima, no papel que ocupavam na economia familiar, mas duvidava de um lugar para elas nos negócios. Caso se tenham distraído, era mesmo um homem do seu tempo: “Quando têm um caso fraco acrescentam o seu sexo e ganham, e quando têm um caso forte, subtraem-lhe o seu sexo e lidam contigo com mais dureza do que um homem. Estão destinadas a ganhar de qualquer maneira.”

Originalmente publicado na edição de julho/agosto de 2026 da Esquire Portugal, disponível aqui.

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