Fotografia: Gotham/ GC Images
Apesar de já estarmos em setembro, as temperaturas altas mantêm-se. E o dilema do que vestir para sobreviver ao calor também.
Então, quer vestir-se como um adulto com um verdadeiro sentido de estilo, mas lá fora está um calor abrasador. Compreendo o sofrimento, e vou explicar como o fazer. Mas, primeiro, um aviso de serviço público.
A forma como nos ensinaram a avaliar o desconforto do calor está errada. Não totalmente errada, mas certamente incompleta. A temperatura é importante. A humidade também. Mas o que se entende por humidade na sua aplicação meteorológica é, na verdade, uma medida da humidade relativa, que varia à medida que as temperaturas mudam ao longo do dia — já que o ar mais quente consegue absorver mais humidade. Quando a temperatura sobe, a humidade relativa desce, mesmo que haja a mesma quantidade de humidade no ar. Continua a ser uma chatice lá fora, mas os números não refletem isso.
O que realmente importa é o ponto de orvalho, que é uma medida mais absoluta para saber se lá fora está um calor abafado e insuportável. Resumindo, assim que o valor ultrapassar os 75, estamos praticamente lixados.
Neste regresso à rotina, não podemos aparecer no escritório de camisola sem mangas e calções, por mais apelativo que possa parecer. Então, o que fazer? Há algumas respostas para essa pergunta.
Alguns homens optam pelo linho. Outros, com um estilo mais casual, adotam uma dieta rigorosa de t-shirts de algodão pesado, que escondem o suor e dão estrutura ao visual quando se reduz o guarda-roupa ao essencial. Outros ainda recorrem à lã tropical, o que parece contraintuitivo até se fazer alguma pesquisa e perceber que não é.
Isto deixa-nos com outra questão: o que é que é mais adequado para cada um? Diria que o melhor é adotar uma abordagem holística e escolher um pouco da coluna A, um pouco da coluna B e algo da coluna C, para garantir que tudo corre bem. A arte de vestir para os dias mais quentes não é uma questão de "tamanho único". Mas cada uma destas abordagens tem o seu lugar no dia a dia. A ideia é combinar todas.
Primeiro, uma nota sobre formalidade
No mundo da moda masculina, uma maior formalidade tende a significar mais roupa e maior cobertura. As calças são mais elegantes do que os calções. Uma camisa de vestir supera uma t-shirt, e uma camisa com um casaco por cima é melhor do que a camisa sozinha. Sabemos como é. Quase parece desnecessário mencioná-lo.
Mas, à medida que nos aprofundamos nos tipos de tecidos e conjuntos que se pode usar num dia de calor escaldante, é útil ter esse princípio básico em mente. Porque, ao escolher os diferentes elementos de um look — e especialmente ao escolher os materiais —, tem de se começar por avaliar em que ponto do espectro entre o casual e o formal nos queremos situar. Os algodões mais pesados, por exemplo, não funcionam com várias camadas ou mangas compridas. No entanto, funcionam com os antebraços à mostra. Tal como em tudo o que diz respeito ao estilo, o contexto é importante.
Então, vamos ao que interessa — começando pelo lado mais casual e avançando a partir daí.
Algodão pesado

Tyler, the Creator com uma t-shirt no desfile da Louis Vuitton em 2023.
Antoine Flament//Getty Images
Como já dissemos, parece contraintuitivo. Mas não faltam homens por aí que optam por uma t-shirt de algodão mais pesada nos meses de verão. Durante o outono, o inverno e a primavera, é muito provável que qualquer t-shirt que se use não esteja sozinha. Vai ter um companheiro, como um casaco de ganga, um casaco desportivo, um casaco com capuz ou uma camisa de botões em tecido oxford. Mas quando estão 30 graus e 90 por cento de humidade, as hipóteses de uma t-shirt ter companhia diminuem drasticamente. A t-shirt precisa de ser capaz de se sustentar sozinha.
As camisolas de algodão mais finas têm mais tendência a colar-se ao corpo e a ficarem encharcadas de suor. As sintéticas? Ainda mais pegajosas (e, embora absorvam o suor, também retêm odores e começam a cheirar mal passado algum tempo). As camisolas de algodão mais pesadas, por outro lado, têm estrutura. Tendem a cair solto em vez de se colarem ao corpo, tornando-as mais lisonjeiras (especialmente para quem nunca chegou a concluir o programa de treino Beach Body). E embora continuem a absorver o suor, demoram muito mais tempo a revelá-lo, e uma branca não ficará totalmente transparente com apenas algumas gotas de transpiração. No entanto, são mais quentes de usar, por isso recomendamos modelos com um corte mais largo e quadrado, para que possa maximizar a circulação de ar.
Há aqui uma grande ressalva: o algodão pesado não faz muito sentido em nada que não seja uma t-shirt. Nas calças, é sufocante. Nos calções, teoricamente dá, mas não vai encontrar muitos pares que se adequem a isso. E em qualquer peça que consider uma camada — casaco, camisa de botões, etc. —, vai correr o risco de sofrer uma insolação.
Por isso, o ideal é combinar uma t-shirt robusta com peças que complementem, mas não imitem. Pense-se em calções de nylon amarrotados, calças curtas, calças chino bem gastas e calçado como sandálias de pescador, ténis de lona ou Clarks Wallabees. O estilo vai ser sempre um pouco mais descontraído, mas é possível pode dar ao look um toque mais elegante com escolhas de cores tonais e linhas simples.
Esta proposta é ideal para: o escritório, se for um ambiente criativo/informal; um dia no parque; beber uns copos, desde que o bar tenha uma promoção de shots e cerveja ou uma ementa de cocktails repleta de bebidas das quais nunca se ouviu falar; um concerto ao ar livre; um restaurante que nunca, mas nunca, tenha visto uma toalha de mesa branca.
Linho

Billy Kidd
Para muitos, é o tecido de verão por excelência. E compreendemos porquê. Em primeiro lugar, há o argumento funcional. O linho tem algumas características que o fazem destacar-se nos dias quentes. A primeira é a absorção. O linho consegue absorver muita humidade — muito mais do que o algodão —, mas demora mais tempo a parecer molhado e pegajoso do que outros tecidos. Além disso, seca rapidamente, o que significa que a saturação total é menos provável. E depois há a rigidez do linho. Isso significa que uma camisa ou calças de linho podem parecer mais ásperas (no início) do que peças semelhantes feitas de liocel ou algodão. Mas também significa que o tecido fica afastado do corpo, em vez de se moldar diretamente a ele. Mesmo alguns milímetros de espaço entre a pele e o tecido que a contacta podem proporcionar um dia de verão muito mais confortável, porque permitem um arrefecimento por ventilação (ou seja, sentir a brisa).
Depois, claro, há a questão do estilo. A mesma rigidez que faz com que o linho fique afastado da pele torna-o propenso a amarrotar-se e a ficar com vincos. Algumas pessoas detestam isso. Mas outras apreciam a forma como o tecido reflete o espírito da estação. É descontraído, despreocupado, descontraído. É, numa palavra, verão. O linho também aceita muito bem a cor, pelo que pode ser tingido em tons igualmente verão, que vão do rosa pastel ao verde menta e ao lilás. E embora seja possível encontrar roupa de linho em cortes que vão do super justo ao extra largo, fica realmente fantástico quando se atinge aquele ponto ideal, em termos de silhueta, em que "parece ter sido feito para ondular suavemente ao vento que vem do mar".
Os fatos de linho são um clássico por uma boa razão, embora comprar um que seja forrado com seda ou uma mistura sintética acabe por contrariar o objetivo inicial de usar este tecido. As calças de linho são muito apreciadas por homens que passam muito tempo na Riviera e por aqueles que querem parecer que passam muito tempo na Riviera. E as camisas de linho são, na nossa opinião, o melhor de tudo. Embora seja possível encontrar outras calças e fatos que imitem a sensação — se não exatamente o aspeto — do linho, é difícil superar a sensação de uma camisa de linho num dia quente de verão. Além disso, é fácil combiná-la com tudo, desde calções de escalada práticos a fardas de ripstop e (porque não?) calças de linho. O que nos leva a uma nota final sobre o linho: sim, pode-se usar tudo em camadas. Porque não? Pode parecer um pouco amarrotado, mas de uma forma elegantemente sazonal.
Esta proposta é ideal para: um jantar junto a um corpo de água (incluindo, sem dúvida, piscinas); um almoço junto a um corpo de água, qualquer refeição junto a um corpo de água, na verdade; bebidas num bar que tenha uma secção especial para amaro; no escritório, desde que se comece o dia a passar tudo a ferro e não exista a preocupação de se ficar amarrotado antes das 14h00.
Lã

Florence Sullivan
Resumindo: mesmo que pareça uma loucura, a lã é simplesmente fantástica para o verão. Sim, mantém-nos quente no inverno. Mas, graças às suas qualidades de regulação da temperatura — tal como o linho, absorve e evapora a humidade de forma bastante eficaz —, a lã também pode ser uma excelente opção durante os meses mais quentes. Isto desde que se escolha a lã certa, claro. Não é altura para flanelas e tweeds. Em vez disso, deve-se procurar termos como "tropical", "high-twist" e "fresco". Se algum destes termos estiver na descrição de um tecido, é um indício claro de que estamos no caminho certo.
O primeiro termo — tropical — é um pouco vago, mas refere-se essencialmente a lã leve e respirável. O tipo de peça que se pode usar quando está calor e humidade, como acontece nos trópicos. Vale a pena comparar e ver o que parece mais confortável, porque a forma exata como o tecido de lã acabado alcança essas propriedades pode variar de fabricante para fabricante, dependendo da forma como é tecido.
O que nos leva aos dois últimos termos — high-twist e fresco — que, na atualidade, são efetivamente sinónimos, embora o segundo se refira, mais precisamente, a uma lã específica de alta torção patenteada no início do século XX e famosa por ter sido comercializada pela fábrica de lã Hardy Minnis. Curiosidades para os entusiastas de tecidos à parte, o importante neste tipo de lã é o facto de o fio ser torcido com mais força do que o normal, conferindo-lhe uma elasticidade impressionante e permitindo que seja transformado numa trama aberta. Isto traduz-se num tecido resistente a rugas que recupera rapidamente a sua forma — uma grande vantagem se tiver de viajar para um casamento de verão. Significa também que o material é excepcionalmente arejado. Segure-se num casaco de lã de alta torção, sem forro, junto a uma janela num dia de sol e é possível ver a luz a atravessá-lo. A brisa fará o mesmo, tornando muito mais fácil lidar com o trajeto matinal para o trabalho ou com um cocktail num pátio.
É mais provável encontrar lã adequada para o verão em peças custom made — fatos, casacos e calças — do que num contexto casual.
Esta proposta é ideal para: o escritório, para quem quer impressionar os chefes; no tribunal, para quem quiser impressionar o juiz; em todos e quaisquer casamentos de verão; num jantar romântico num restaurante com toalhas de mesa brancas; para tomar umas bebidas num local onde o martini vem acompanhado de um sidecar e de uma variedade de petiscos gratuitos; para tomar umas bebidas num bar de bairro, porque é divertido vestirmo-nos bem quando não é obrigatório.
Traduzido do original, disponível aqui.
_Top Esquire
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