Fotografia: Florence Sullivan
O icónico CEO da Apple falou em exclusivo com a Esquire sobre os 50 anos de história da Apple — e o futuro que a empresa continua a construir.
Tínhamos um Apple IIe. Os meus pais ofereceram-no ao meu irmão, às minhas irmãs e a mim no Natal de 1983, e ainda consigo ver os seus rostos sorridentes e um pouco perplexos enquanto rasgávamos o papel na sala de estar, gritando de entusiasmo. Tínhamos um computador Apple. Era bege, como os processadores de texto Wang quadrados do escritório do nosso pai, mas tinha melhor aspeto. Mais simpático. Os cantos eram arredondados. Quando o ligávamos, aparecia um pequeno caixote do lixo no canto do ecrã.
Um mês depois, enquanto assistíamos ao Super Bowl na televisão Zenith da cave, vimos um anúncio de um novo computador, o Macintosh. Foi realizado por Ridley Scott — que, nessa altura, já tinha realizado Alien e Blade Runner —, mas nós não sabíamos disso. Parecia assustador: pessoas de pele cinzenta e andróginas, vestidas com batas cinzentas de prisioneiros e de cabeça rapada, marchavam em uníssono para um recinto escuro que brilhava com um azul frio. Num ecrã gigantesco que ocupava uma das extremidades da sala, um homem com a pele azulada falava com uma voz semelhante à do Big Brother sobre como somos “um só povo” com “uma só determinação”. (O tema azul? A IBM, apelidada de Big Blue, era a marca de computadores dominante na época e o alvo claro da Apple.
A voz do homem é ameaçadora e tem sotaque britânico, enquanto diz: “Hoje celebramos o primeiro glorioso aniversário das Diretivas de Purificação da Informação” num “jardim de ideologia pura, onde cada trabalhador pode florescer a salvo das pragas que obedecem a pensamentos contraditórios”.
E então! Uma mulher de cabelo loiro volumoso, com calções vermelhos brilhantes e uma camisola sem mangas branca, a correr enquanto carrega um martelo e se assemelha a uma atleta olímpica. A polícia de intervenção persegue-a. Estão a aproximar-se dela, homens com máscaras de gás! Finalmente, enquanto o homem gigante no ecrã diz: “Os nossos inimigos vão falar até à morte, e nós vamos enterrá-los com a sua própria confusão»”, ela vira-se e lança o martelo em sinal de triunfo, estilhaçando o ecrã numa explosão de luz branca.
Não aparecem computadores no anúncio. Uma voz no final promete que o Apple Macintosh fará com que 1984 não pareça 1984.
Lembro-me disso, mas nós, crianças, não percebíamos nada.

O iMac, com a sua gama de cores vivas e a pega integrada, transformou o computador pessoal de uma forma totalmente nova.
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Depois das aulas, jogávamos jogos rudimentares no IIe. Tínhamos também uma impressora matricial a preto e branco, com os rolos dentados que alimentavam resmas intermináveis de papel perfurado. O computador — chamávamos-lhe “o computador” — ensinou-nos a imprimir “banners” com palavras e imagens. No verão de 1984, quando não se podia ligar o rádio sem ouvir uma canção do Born in the U.S.A., o primeiro álbum que comprei, o meu irmão e eu imprimimos um banner com a inscrição BRUCE SPRINGSTEIN e pendurámo-lo na parede do quarto dele. Admirávamo-lo, um banner impresso a partir do computador. Só aí é que um de nós reparou no erro ortográfico. Por isso, simplesmente fizemos outro.
Durante o secundário, com o dinheiro que ganhei no meu trabalho de verão na área de paisagismo, comprei um portátil Macintosh PowerBook. O truque de design deste modelo consistia no facto do teclado estar mais para cima, de modo a encostar à dobradiça, deixando espaço para almofadas onde se podiam apoiar as mãos enquanto se digitava. Gostava de retirar o trackball uma vez por semana para limpar a sujidade dos rolamentos.
Nova Iorque, final dos anos 90: vivia num apartamento por cima de uma loja de discos usados em Greenwich Village, por 600 dólares por mês. Com o primeiro salário que recebi como escritor freelancer, comprei um iMac, o computador mais encantador alguma vez fabricado. Estavam disponíveis em cores que lembravam as cores de Fruit Roll-Up, e eu escolhi o azul; tentei ser escritor, a comer massa e a afastar as baratas e os ratos.
No meu trigésimo segundo aniversário, a minha irmã ofereceu-me um iPhone, a novíssima invenção da Apple. Um amigo meu do trabalho também tinha um. “Nunca mais nos vamos aborrecer”, disse ele. Ele não se referia a ele e a mim. Referia-se à raça humana.
Tenho uns iPods antigos algures numa gaveta — o Nano, haveria outros? Já experimentei o Watch. Uso o iCloud, o Apple Music, a Apple TV. Uso tudo isso, meu. Adoro. O que é que querem que eu diga? Steve Jobs era um génio. Hoje a Apple faz cinquenta anos e, há uns dias, eu fiz cinquenta e um. Basicamente, temos a mesma idade. Este artigo não é imparcial.

Steve Jobs — na altura CEO interino da Apple, após regressar de um período de afastamento — apresenta o discurso de abertura na MacWorld Expo de 1998, diante de uma imagem de Pablo Picasso da campanha Think Different.
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A 1 de abril de 1976, a Apple Computer Company foi registada como entidade privada no condado de Santa Clara, na Califórnia, por dois jovens e um homem: Steven P. Jobs, de 21 anos, formado em Engenharia Elétrica e Marketing; Stephen G. Wozniak, de 25 anos, formado em Engenharia Elétrica; e um homem chamado Ronald G. Wayne, de 41 anos, formado em Engenharia Mecânica e Documentação, que os ajudou com a burocracia.
Menos de duas semanas depois, Wayne deu uma palmada nas costas dos rapazes, desejou-lhes boa sorte, aceitou uma indemnização de 800 dólares e desapareceu na história. Wozniak era um génio e agora é rico. Jobs mudou o mundo.
De qualquer forma, um mês antes do grande dia — 1 de abril de 2026 —, os fiéis reuniram-se na zona oeste de Manhattan para entoar hosanas ao seu criador. Dezenas deles — influenciadores e jornalistas, mas principalmente influenciadores — reúnem-se num armazém reconvertido que a Apple arrendou como espaço para eventos, para que possam testemunhar a revelação do mais recente produto que a Apple lhes vai conceder do alto. Estas reuniões tornaram-se um ritual — em Cupertino, em Nova Iorque, em Londres, em Xangai, os executivos colocam-se perante as massas ansiosas a administrar a Eucaristia, e nós devoramos tudo.

John Lennon e Yoko Ono.
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Na Era Dourada, os comboios de mercadorias avançavam pesadamente pelos carris, entrando diretamente no enorme interior deste mesmo edifício. Os comboios da New York Central vindos do leste, as ferrovias Erie e Lehigh Valley vindas do oeste, intermináveis filas de vagões de carga transportando toneladas de mercadorias com destino ao oeste. O que acontecia todos os dias dentro destas paredes de tijolo, outrora cobertas de fuligem de locomotivas, fazia parte de uma economia poderosa, construída sobre a indústria transformadora e alimentada pelo suor. Esta manhã, sobre os escombros daqueles velhos carris, encontram-se cerca de uma centena de impulsionadores de uma nova economia construída sobre o que se denomina “conteúdo”, cuja definição vaga parece ser qualquer coisa escrita, filmada ou fotografada — incluindo esta história — que possa ser disseminada instantaneamente para o mundo — o mundo inteiro, de facto — a partir de um smartphone. Bebem café expresso e comem pudim de chia e torradas de abacate fornecidas pela Apple até serem gentilmente conduzidos para uma área escurecida, onde ficam em pé diante de um palco preto. São jovens e idosos, mas principalmente jovens, e vestem camisolas com capuz dignas do Instagram, ténis caros e gorros de lã.
Ninguém fala.
Os funcionários da Apple comunicam-se entre si através de auscultadores.
Ficamos a balançar de um pé para o outro.
Finalmente! Os executivos da empresa sobem ao palco, sorridentes. São tão bons nisto. Falam de algumas coisas interessantes, mas sabemos que algo ainda maior está para vir, porque é assim que costumam fazer.
Quando o fazem, eis o resultado: o novo produto sensacional, um portátil fino, dinâmico e de baixo custo, disponível em quatro cores, incluindo uma tonalidade amarelada chamada Citrus. O portátil chama-se Neo e, quando a primeira imagem dele preenche o ecrã gigante, os criadores levantam as mãos ao ar como verdadeiros crentes num culto de avivamento, com os olhos voltados para cima, sem pestanejar e radiantes de felicidade. Mas nas suas mãos não há contas, cruzes ou a mão da pessoa ao seu lado, mas sim iPhones. Estão a filmar.
À sua maneira, estão a criar.
Há quatro dias, os Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra no Irão. Mas, neste momento, neste armazém cavernoso, vive-se uma hora de alegria. A apresentação dos executivos é breve, e os criadores são convidados a passar para trás do ecrã, para um espaço repleto de produtos Apple que podem ser pegados, utilizados para escrever, segurados e, mais importante ainda, filmados. Os criadores aglomeram-se em torno de expositores de iPhones dispostos como pirulitos em longos eixos, Apple Watches alinhados como diamantes e o próprio Neo, nas suas cinco cores modernas. Têm consigo gimbals portáteis e montam tripés. Mudam para o modo selfie e falam com sorrisos ofegantes para os seus telemóveis, enviando conteúdo diretamente para os olhos dos seus seguidores.
Já não existem empregos na descarga de comboios de mercadorias na zona oeste de Manhattan. Mas estes empregos existem, na forma de influenciadores pagos — por improvável que pareça, talvez, mas inegavelmente. Existem em todo o lado, e não existiriam sem a própria empresa que chegou à cidade para exibir os seus produtos hoje. Sem o iPhone e a App Store, sem câmaras de qualidade cinematográfica com zoom ótico de 8x, sem o modo selfie e as plataformas de redes sociais que prosperam apenas porque o iPhone existe, não haveria criadores de conteúdo profissionais e não haveria economia criativa. Quando os Steves lançaram a Apple Computer em 1976, um dos objetivos de Jobs era ajudar as pessoas a expressarem-se usando tecnologia pessoal rápida e poderosa.
Para a geração atual de influenciadores, que define o termo de uma forma muito específica, a criação da Apple Computer colocou Jobs no caminho para, um dia, se tornar um criador.

Tim Cook, na altura diretor de operações, no palco com Steve Jobs em Cupertino, em 2010.
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“É, sem dúvida, ainda a empresa dele”, afirma Tim Cook, CEO da Apple desde pouco antes da morte de Jobs aos 56 anos, vítima de cancro no pâncreas em 2011, referindo-se ao seu incansável antecessor, cujo brilho era tão intenso que nos faz questionar se ele sabia que não iria durar. É a manhã seguinte ao lançamento do Neo em Nova Iorque, e Cook está sentado numa zona aberta do café na sede da Apple, avaliada em 5 mil milhões de dólares, em Cupertino, Califórnia. Apenas alguns colegas de trabalho estão sentados em mesas fora do alcance da audição, com AirPods nos ouvidos, portáteis abertos e café ao lado. O café situa-se algures no continuum do grandioso edifício em forma de anel, que parece ter acabado de aterrar ou estar prestes a descolar para o seu planeta natal. No exterior, através de um dos painéis de vidro de 13,7 metros que constituem a fachada do edifício — uma fundição na Alemanha teve de construir um forno personalizado para os fabricar —, carvalhos autóctones resistentes à seca, selecionados pelo próprio Jobs, sombreiam percursos de corrida e relvados.
“Penso nele frequentemente — e, nos últimos meses, com o 50º aniversário a aproximar-se, ainda mais, sinceramente”, diz Cook. “Pensamos nas coisas em que ele acreditava. Ele acreditava na simplicidade, não na complexidade. Acreditava na colaboração, na ideia de que, se reuníssemos um pequeno grupo de pessoas, o resultado desse grupo seria muito superior ao de qualquer um dos seus membros individualmente”.
Cook estava na casa de Jobs no dia em que este faleceu. Ao regressar de carro ao escritório para dar a notícia aos funcionários e, por extensão, ao mundo, sentiu uma espécie de choque estranho — estranho porque Jobs já estava doente há tanto tempo, tendo até recusado medicação quando foi diagnosticado pela primeira vez, tentando, em vez disso, curar a doença com sumos de fruta, pelo que não deveria ter havido qualquer choque.
“Naquela altura, infelizmente, já era inevitável”, diz Cook. “Mas durante muito tempo recusei-me a aceitar a doença e o seu desfecho, porque o tinha visto recuperar tantas vezes que presumi que ele o faria sempre. Quando assumi o cargo de CEO, pensava que ele iria ser presidente executivo para sempre — era isso que pensava, literalmente, seis semanas antes. Olhando para trás, sei que alguém poderia perguntar: “Como é que pudeste pensar isso, dadas as circunstâncias?” Mas não era assim que eu pensava naquele momento”.
Jobs era único na sua convicção sincera de que a tecnologia, pelo menos a que a Apple criava, deveria ajudar as pessoas a expressarem-se, a criarem coisas fantásticas e, como ele gostava de dizer, a mudarem o mundo. Em 1997, a empresa colaborou com a agência de publicidade TBWA/Chiat/Day para criar Think Different, a campanha publicitária a quem se atribui ter mudado — e elevado — a forma como os consumidores viam a Apple. Por mais complexa que fosse a personalidade de Jobs, ele compreendia o poder da simplicidade, e os anúncios eram simples, mostrando nada mais do que essas duas palavras — Think different — numa fotografia a preto e branco de uma pessoa famosa por promover mudanças positivas com ideias ousadas — “os loucos2, como Jobs lhes chamava — e o logótipo da Apple. Havia anúncios com John Lennon, Albert Einstein, Maria Callas, Pablo Picasso, Martha Graham, Bob Dylan, Jim Henson e muitos outros.

Tim Cook discursou na Sala Oval, a 6 de agosto de 2025. Cook anunciou um investimento de 100 mil milhões de dólares na indústria manufatureira dos EUA, num evento em que também ofereceu ao presidente Trump um presente de vidro da Corning — empresa que há muito fabrica vidro para iPhones e Apple Watches — sobre uma base de ouro de 24 quilates.
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Foi uma campanha fantástica, e pergunto a Cook sobre a mesma no contexto da administração Trump, algo com que Jobs nunca teve de lidar. (Isto aconteceu algumas semanas antes de uma investigação do New York Times alegar que uma das figuras da campanha Think Different, o falecido ativista sindical Cesar Chavez, tinha abusado sexualmente de mulheres e raparigas que trabalhavam com ele.) Muitos dos protagonistas da campanha, incluindo Dylan, Lennon, Henson, Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr., são conhecidos por lutarem ativamente contra a guerra, a discriminação sob qualquer forma e a repressão policial violenta. Ao utilizá-los na campanha, a mensagem da Apple era clara: estes seres humanos representam aquilo em que acreditamos e aquilo que defendemos.
Mas a guerra, a discriminação sob diversas formas e a repressão policial violenta são características marcantes de ambas as administrações Trump, e pergunto a Cook em que medida trabalhar com esta administração difere da experiência que teve com outros presidentes que conheceu e com quem trabalhou.
Cook faz uma breve pausa e depois diz: “A administração Trump é muito acessível”.
É um elogio, algo que talvez eu não estivesse à espera.
“Podemos falar com eles sobre o seu ponto de vista sobre as coisas. Eles podem não concordar, mas podemos interagir. Podemos fazer-nos ouvir. No final, podemos não conseguir convencê-los. Mas, para mim, o diálogo — não só nos EUA, mas em todo o mundo — é extremamente importante, porque é um processo muito complexo, que envolve lidar com leis locais, costumes locais, cultura local e regulamentos locais. Cada país tem a sua própria história. Todos vêem as coisas de forma diferente. E a única maneira de perceber isso é sentar-se à frente de alguém, comunicar e interagir. Se entrasse na minha sala de reuniões, veria a citação de Teddy Roosevelt: “Não é o crítico que conta”. Nunca acreditei que gritar à margem sobre os prós e os contras fosse uma boa estratégia. A sua voz simplesmente se perde no vento”.
Quero dizer ao Cook que conheço fãs da Apple que se sentiram um pouco incomodados — até mesmo traídos — quando o viram ao lado de Trump na segunda tomada de posse do presidente, depois de o Cook ter doado 1 milhão de dólares para o fundo da cerimónia. No início, pareceu apenas estranho. Depois surgiram as perguntas: É esta a Apple que conhecemos? É este o Tim Cook que conhecemos?
Esquire: Os clientes têm boa memória, e há clientes da Apple de todos os tipos. Alguns podem ver a Apple a fazer algo em homenagem ao Pride Month e dizer: “Vou deixar de usar produtos da Apple”. Outros podem vê-lo na cerimónia de tomada de posse e dizer: “Mas que raio...?” Acho que o compreendo bem como pessoa e conheço os seus valores, e posso dizer que vou confiar que o Tim sabe o que está a fazer, que a Apple sabe o que está a fazer. Qual é a sua estratégia para manter a confiança das pessoas na empresa e em si, enquanto seu líder, independentemente da direção que o vento sopre?
Tim Cook: Penso que é preciso ter valores consistentes e não os alterar consoante as circunstâncias ou as mudanças nas outras pessoas. Mas acho que se deve interagir e colaborar com toda a gente. Interagi com ambos os partidos políticos nos EUA e com as pessoas que se situam no meio. Interagi com governos de todo o mundo, alguns dos quais tenho opiniões muito diferentes. Mas acho que, até nos envolvermos, nunca sabemos — nunca compreendemos — de onde vem a outra pessoa. E não temos qualquer influência.
Olhe para os valores que nos têm motivado. Encaro isso como a forma como conduzimos os nossos negócios. Acreditamos na privacidade. Defendemos a privacidade com unhas e dentes. Consideramos que é um direito humano básico e fundamental.
Acreditamos na acessibilidade. Queremos que os nossos produtos sejam utilizados por todos. Se alguém for cego, queremos que essa pessoa consiga utilizar os nossos produtos. E não fazemos isso como uma ideia de última hora. Está incorporado no nosso processo de design e no nosso processo de criação.
Acreditamos na educação porque é o grande equalizador entre as pessoas. É a razão pela qual muitos de nós estamos onde estamos, pois conseguimos superar um começo modesto graças à nossa educação.
Acreditamos em tratar todos com dignidade e respeito, e isso manifesta-se de muitas formas diferentes. Manifesta-se na forma como interagimos uns com os outros no trabalho, mas também na forma como tratamos os nossos parceiros fornecedores. Temos programas educativos com os nossos parceiros fornecedores para lhes ensinar IA, para lhes ensinar robótica, para melhorar a sua qualidade de vida.
Acreditamos no ambiente. Acreditamos na sustentabilidade. Mobilizámos toda a empresa para reduzir as nossas emissões de carbono. Reduzimos essas emissões em 60 % na última década, apesar de as nossas receitas terem aumentado significativamente.
Essas coisas não podem mudar enquanto o mundo está em movimento. Têm de permanecer. São os nossos trilhos — mas isso não significa que não se comunique e interaja com pessoas que têm pontos de vista diferentes. É essa a minha postura, de qualquer forma. Por isso, vão ver-me em todo o lado e vão pensar: “Oh, ele está a reunir-se com alguém que tem uma opinião diferente da dele”. Acho que isso é bom. Acho que é bom. Acho que um problema no mundo neste momento é que está tão polarizado e que as opiniões diferentes não são partilhadas nem discutidas. Simplesmente tornam-se inflexíveis. E não acho que isso seja bom.
Esquire: Então, para que não haja confusão: os seus valores continuam os mesmos desde o dia em que chegou aqui?
Cook: Sim, sem dúvida. Sem dúvida. São a mesma coisa.

Cook está à frente do Apple Watch, um dos lançamentos de produto de maior sucesso do seu mandato como CEO.
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No dia em que Cook chegou, em 1998, tinha 38 anos e era um génio das operações contratado da Compaq. Conhecia as cadeias de abastecimento, as capacidades de produção, a eficiência e os transportes. Parece estar a recorrer a essa experiência para conduzir a Apple através da versão de 2026 da economia global, uma economia repleta de tarifas de Trump, ameaças de tarifas, aumentos arbitrários de tarifas, recuos arbitrários de tarifas, tarifas petulantes e tarifas vingativas — e agora uma guerra que está a estrangular o abastecimento de petróleo e gás natural.
Em agosto de 2025, Cook reuniu-se com Trump no Salão Oval para anunciar que a Apple tinha concordado com um investimento adicional de 100 mil milhões de dólares na produção nos EUA, o que aparentemente levou Trump a isentar a Apple do pagamento de direitos aduaneiros sobre os chips importados da China. Isso elevou o investimento total previsto pela Apple na produção nos EUA para 600 mil milhões de dólares. (A Apple acabou por pagar mais de 3 mil milhões de dólares em direitos aduaneiros; uma decisão do Supremo Tribunal que revogue esses direitos pode significar que a empresa consiga recuperar parte desse dinheiro.)
A Corning fabrica há muito tempo vidro para iPhones e relógios vendidos na América do Norte, mas a Apple anunciou também que a Corning iria produzir todo o vidro para as partes frontal e traseira dos iPhones e Apple Watches em todo o mundo na sua fábrica em Harrodsburg, no Kentucky, o que representa um novo investimento de 2.5 mil milhões de dólares por parte da Apple — parte dos 600 mil milhões de dólares.
Ainda no verão passado, a empresa associou-se à Michigan State University para inaugurar a Apple Manufacturing Academy em Detroit, onde as pequenas e médias empresas podem candidatar-se para participar e aprender com especialistas da Apple e da MSU sobre “aprendizagem automática e aprendizagem profunda na indústria transformadora; automação na indústria de fabrico de produtos; utilização de dados de produção para melhorar a qualidade dos produtos; aplicação de tecnologias digitais para otimizar as operações; e muito mais”.
Pouco antes do aniversário da Apple, a empresa anunciou uma expansão da sua parceria com a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) para aumentar a produção de chips nos EUA na fábrica da TSMC no estado de Washington. Esta iniciativa faz parte do Apple Silicon, a missão da empresa de fabricar e deter a propriedade dos seus próprios chips, após ter dependido dos chips da Intel durante várias gerações — um sonho de Steve Jobs que Tim Cook ajudou a empresa a concretizar.
Digo ao Cook que o meu pai, um americano de segunda geração cujos avós vieram de Itália, é um consumidor tão convicto do lema "Compre americano" como se pode encontrar em qualquer lugar. Ele ainda recorda a ocasião, em 2011, em que o então presidente Barack Obama terá perguntado a Steve Jobs o que seria necessário para fabricar iPhones nos Estados Unidos, e Jobs terá respondido: “Esses empregos nunca mais vão voltar”. O meu pai não gostou disso. Se algo for fabricado nos EUA, o meu pai não hesita em conduzir mais longe e pagar mais para o comprar.
“O meu pai também era assim”, diz Cook. “Trabalhava na indústria naval, no Alabama. Era supervisor, tipo um encarregado. Um cargo operário. E dava muita importância ao lema “Compre americano””.
Cook diz que o meu pai iria adorar Harrodsburg: “É a clássica cidadezinha americana, uma cidade empresarial. A Corning é o pilar dessa comunidade, e os empregos que proporciona há várias gerações vão deixar-te com o coração cheio de alegria”.
Cook e a equipa executiva da Apple não sabiam bem como queriam celebrar o quinquagésimo aniversário da empresa, nem sequer se queriam celebrá-lo. Lembro-me de ter sentido o mesmo em relação ao meu. A Apple não é uma empresa que olha para o passado, ou pelo menos não quer ser conhecida por isso. A Apple inventa o futuro.
Decidiram que cinquenta é um número significativo e que iriam comemorar em grande escala. A 13 de março, a empresa começou a organizar eventos sincronizados em todo o mundo para gerar entusiasmo, com a participação de músicos, artistas, designers e pensadores — Alicia Keys deu um concerto surpresa na Apple Store do Grand Central Terminal, e o próprio Cook marcou presença. Os Mumford & Sons tocaram em Londres, artistas australianos utilizaram tecnologia da Apple para projetar imagens na Ópera de Sydney, atores e cineastas mexicanos debateram sobre criatividade numa Apple Store na Cidade do México, um artista visual transformou uma loja em Mumbai, uma banda de K-pop atuou em Seul…
No dia 2 de abril, será hora de voltar ao trabalho, disse-me Greg “Joz” Joswiak, vice-presidente sénior de marketing mundial da empresa. Trabalha na Apple desde 1986 e esteve em Nova Iorque para o evento Neo. Nos grandes lançamentos de produtos, na Conferência Mundial de Desenvolvedores anual da empresa e até mesmo neste semicentenário, eles terão um dia agradável, mas o dia seguinte é apenas o dia seguinte.
Estava a aproximar-se a hora do almoço e o Cook e eu ainda estávamos a conversar no café, por isso fomos até ao círculo interior, dentro do recinto, onde setecentas árvores de ameixa, alperce e cereja prontas para a colheita e um lago com águas ondulantes nos fazem sentir como se estivéssemos num cenário idílico de cinema, uma versão de “Apple”. Mais uma vez, foi o próprio Jobs que escolheu as variedades das árvores. Ele cresceu a apenas alguns quilómetros daqui e, naquela época, havia árvores de fruto por todo o lado, e era isso que ele queria.
Pergunto a Cook sobre a capitalização bolsista da Apple, que, como é sabido, ultrapassou os 3 biliões de dólares em 2023 e ronda agora os 3,7 biliões de dólares. Ele tem a resposta pronta: “Não me preocupo excessivamente com a capitalização bolsista. O meu foco está nas coisas que levam os utilizadores a querer comprar os produtos. Se nos dedicarmos totalmente a criar os melhores produtos e os melhores serviços, haverá pessoas suficientes que queiram comprá-los para que possamos obter lucros, e lucros para os acionistas, e investir no negócio para repetir tudo isto vezes sem conta”.
Acredito nele, mas ele faz com que pareça fácil, e não é só por causa da sua doce voz do Alabama. A empresa teve cinquenta anos para aprender os ritmos do seu próprio processo criativo, mas as grandes ideias não caem do céu, e o Steve Jobs não está prestes a entrar pela porta. É preciso ter ideias grandiosas, loucas e ousadas constantemente.
“Um brinde aos excêntricos”, diz, sorrindo.
Sim, e a Apple apostou tudo em alguns desastres excêntricos — o computador Lisa, o carro elétrico Titan, o Cube. Claro que, se nunca se cai, é porque não se está a esquiar com suficiente intensidade. Pergunto-lhe, basicamente, se a Apple tem suficientes excêntricos nas suas fileiras.
“É preciso reconhecer que essas ideias podem vir de qualquer colaborador”, afirma. “E os utilizadores também podem ter ótimas ideias. É preciso ter um filtro implacável, porque não se pode fazer tudo. Não se pode espalhar a energia como se fosse manteiga de amendoim. Se o fizermos, não conseguiremos atingir o nível de qualidade que desejamos. Dizemos não a mil coisas para chegar àquela única coisa. Se aparecesse de paraquedas numa reunião da Apple, os debates que aqui se travam são simplesmente incríveis”.
Cook faz uma pausa, dá alguns passos e abana a cabeça.
“Incrível”, diz, quase para si mesmo.
É tudo incrível, daqueles que nem dá para acreditar. Toda a história. Steve Jobs e Steve Wozniak na garagem da família Jobs a soldar placas de circuito. Aquele Apple IIe bege e pesado que parecia revolucionário, porque era mesmo. O Macintosh. O rato. A quase irrelevância da Apple no início dos anos 90, depois de Jobs ter sido afastado da sua própria empresa, e o seu ressurgimento após o seu regresso em 1997. Músicas a 99 cêntimos. “Eu sou um Mac”. “E eu sou um PC”. Chips mais rápidos. A morte de Jobs. Apple Watch, Siri, Apple Pay. Severance. Neo.
Ah, e lembram-se dos trackballs?
E do iPod Shuffle?
E, meu Deus, lembram-se de quando andávamos com iPhones nos bolsos?
Traduzido do original, disponível aqui.
_Top Esquire
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31 Mar 2026