Rui Borges e Gyökeres durante o jogo Sporting-Arsenal, no dia 7 de abril de 2026. Fotografia: Torbjorn Tande/DeFodi Images/DeFodi via Getty Images.
Dentro de algumas semanas haverá um novo vencedor da Liga dos Campeões, e com isso empalidecem os momentos brilhantes de quem ficou pelo caminho.
O campeão deste ano apagará o lustro ao campeão do ano anterior e o campeão antes desse mais brilho perderá, apesar de ser o Real Madrid, colecionador de quinze dessas taças orelhudas. As vitórias marcam os ciclos das estações, da passagem dos anos, da erosão do tempo. Com cínica paciência, os vencedores do passado são esmigalhados até se diluírem na poeira do esquecimento.
A derrota do Sporting em Alvalade, quando o árbitro já se preparava para desligar o cronómetro, deixou muitos adeptos amargurados. Não foi o meu caso. A homenagem que os adeptos prestaram ao Gyökeres, e que este devolveu com uma volta ao campo, é dos momentos mais sublimes de gratidão que testemunhei no desporto. Lembremos: depois de tornar-se, em apenas dois anos, num dos jogadores mais marcantes na história do clube, Gyökeres não esteve bem a sair, pela forma como fez gazeta até ser contratado pelo seu novo clube.
Passaram oito meses. Gyökeres voltou ao estádio onde foi feliz e fez feliz muita gente. Quem poderia recriminar os adeptos por uns assobios e apupos, nem que fosse em nome de desestabilizar o ídolo transformado em adversário? Se fosse vaiado, não seria a primeira vez, nem a centésima. Provavelmente, nem a milésima. O que mais abunda são adeptos a fazerem figura de marido traído, entregando ao jogador o papel de reles traidor. Quando Figo voltou a Nou Camp, depois de mudar-se para o Real Madrid, os adeptos do Barcelona acusaram-no de pesetero, cuspiram-lhe e atiraram-lhe moedas. Fizeram dele um Judas da era futebolensis.
Mais do que um jogo para os quartos de final da Champions – a nata da nata do melhor futebol mundial – o Sporting-Arsenal representou uma cerimónia de despedida. Toda a gente esteve bem. O clube honrou Gyökeres, os adeptos saudaram-no e Gyökeres, além de cumprimentar um por um os ex-colegas, fez ainda a volta de honra pelo campo. Até Diomande, o outro “macho alfa” do balneário, o abraçou (Ruben Amorim dizia que nem nos treinos podiam jogar um contra o outro, de tanto que amavam detestar-se).

Rui Borges durante o jogo Sporting-Arsenal, no dia 7 de abril de 2026.
Torbjorn Tande/DeFodi Images/DeFodi via Getty Images
Esta corrente de cavalheirismo foi digna dos “espelhos de príncipes”, que eram os manuais de virtudes e boas maneiras por onde aprendiam os jovens das classes altas na idade média. Mas quem é que afinal possibilitou semelhante demonstração de dignidade e de honradez? Foi Rui Borges. Foi Rui Borges quando disse: “Será certamente bem recebido por todos nós, porque marcou a história do sporting, do futebol português e merece ter esse reconhecimento.”
Sim, este transmontano de estilo encurvado, cabeça encolhida entre os ombros (gesto típico dos pastores, para se acomodarem ao orvalho da madrugada), pode ter pinta de humilde, mas quando a ocasião pede é um senhor. As palavras deles, o olhar sereno, não provocam nem inspiram: são voz de comando.
Num tempo em que alguém ter cargos de responsabilidade pública significa ter medo da sombra e escudar-se na opinião dos outros, é refrescante saber de alguém que ainda não se esqueceu do que mais importa. Quando as relações acabam, há que celebrar os bons momentos, lavar a cara de ressentimentos e seguir em frente. Avé Rui, pastor de leões e restante lagartagem!
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