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Parece que é cool: o que é, afinal, ser cool?

By Alexandra Prado Coelho 27 Aug 2026

Fotografia: Getty Images

Será a verdade mais superficial do que profunda? Onde está o cool? Uma conversa com a antropóloga Filomena Silvano que vai do estilo à ideia de alma, passando pela religião e pelo jazz.

Há duas coisas que sabemos sobre o cool, sem necessidade de grande reflexão prévia: toda a gente gostava de ser cool; e qualquer esforço para ser cool mata, logo à partida, a mais pequena hipótese de coolness. Não é fácil, portanto.

Ou, se quisermos ser honestos, parecer não ter qualquer interesse nisso. Identificar a essência do cool também parece não ser evidente. Um estudo publicado no Journal of Experimental Psycology em 2025 tentava precisamente chegar à definição do que é essa forma de estar na vida que é diferente do estilo porque parece emanar — de forma inconsciente? — do interior.

Os autores perguntaram a perto de seis mil pessoas de 12 países, da China aos Estados Unidos, da Austrália à África do Sul, se haveria “traços e valores” que fizessem alguém parecer cool, e até que ponto eram comuns ou diferentes consoante as culturas.

Seja em que parte do mundo for, o estudo concluiu que as pessoas cool têm seis características que se repetem: são extrovertidas, hedonistas, poderosas, aventureiras, abertas e autónomas.

Mas as origens do cool são bastante diferentes da direcção para a qual este estudo aponta — extrovertidas? abertas? — e são até anteriores a Miles Davis e ao seu Birth of the Cool (1957) embora ligadas não só ao mundo do jazz na América das décadas de 40 e 50, mas aos negros norte-americanos de forma mais ampla.

No princípio, contextualiza um artigo intitulado The Origins of ‘Cool’ in Post WWII America, no site do The National WWII Museum de New Orleans, só os músicos de jazz e quem os seguia conheciam o termo, que começou gradualmente a ser adoptado pelos escritores da Beat Generation.

A principal condição para ser cool é não ter interesse nisso.

O texto, assinado por Joel Dinerstein, autor de vários livros sobre o cool e co-curador da exposição American Cool (2014) na National Portrait Gallery da Smithsonian, em Washington, recorda que foi o saxofonista Lester Young, da Count Basie Orchestra, o primeiro a dizer “I’m cool”. Significava ao mesmo tempo que estava “na boa” e que se mantinha “na dele” face à opressão das políticas Jim Crow de segregação racial.

Se recuarmos mais no tempo, encontramos as raízes desta forma de estar em culturas da África Ocidental e na palavra itutu que, para os ioruba (que habitam partes da Nigéria, Benin e Togo), significa “equilíbrio espiritual”.

A pergunta “o que é ser cool?” repete-se no início do texto de apresentação da exposição American Cool de Dinerstein. E aí vamos um pouco mais longe e por outro caminho: “Cool é o oposto da inocência e da virtude. Uma pessoa cool possui um lado carismático e um lado obscuro. Ser cool é uma forma de individualidade conquistada.”

A ideia do lado obscuro faz diferença aqui e contrasta com o que parece ser uma excessiva carga positiva do conjunto de características acima referidas: extrovertidos, hedonistas, poderosos, aventureiros, abertos e autónomos.

Para se ser realmente cool, por baixo dessa força vital deve estar uma experiência de vida que deixou marcas, uma ideia de que se aprendeu com a dor e que hoje se possui um conhecimento que nem todos têm e que permite a calma de quem já viu muito e sabe que nem tudo é tão dramático como tantas vezes se pensa. Vive-se a alegria e a tristeza na sua justa medida (seja o que for que isto queira dizer), sem deixar que a euforia ou a depressão dominem. No fundo, aprendeu-se com a vida, sem deixar de gostar dela.

Apesar de alguns brancos terem conquistado o estatuto de cool — de Humphrey Bogart e Lauren Bacall a James Dean ou David Bowie (se tentarmos perceber o que há de construção de um estilo em cada um deles, vemos como muito pouco emana naturalmente) — há quem considere que o cool é essencialmente uma característica das populações negras, seja na América seja em África.

Algumas leituras históricas oferecem uma possibilidade de explicação para isso: ser cool equivale a esconder as emoções, a mostrar uma contenção emocional que, para os negros escravizados, perseguidos, discriminados, era, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência. Manter o sangue-frio, não perder a cabeça, exibir dignidade mesmo perante a opressão, tornou-se uma forma de estar. Querer ser cool sem isso revela-se muito mais difícil.

Desanimada com a perspetiva, achei que precisava de conversar com a Filomena Silvano para ela, que é antropóloga, com trabalhos sobre identidades, cultura expressiva e moda (incluindo o livro Antropologia da Moda), me ajudar a perceber se a coolness vem de dentro ou está à superfície e, portanto, pode ser construída. Percebi rapidamente que a premissa estava errada.

Eu estava a partir do princípio de que o que é interior é profundo e “natural” e deve, por isso, ser valorizado, e que o que é exterior, o que está à superfície, é isso mesmo, superficial e construído, e, portanto, com menos valor. Graças a Filomena Silvano, o que poderia ser um texto sobre músicos de jazz e atores cheios de estilo transformou-se numa reflexão sobre o valor do interior e da superfície.

O cool é algo construído, disse-me ela (há esperança, portanto). A “máscara de proteção” que os negros criavam para se proteger era, obviamente, uma construção.

“A conversa da interioridade aparece quando te tentam vender serviços para tu encontrares o teu estilo”, explica. “É aí que as coisas entram nessa espécie de ideologia que o Ocidente criou e que concebe os indivíduos a partir de uma suposta ontologia profunda, a ideia de que há uma verdade, uma essência, uma autenticidade que é interior. Ninguém sabe onde ela está ou onde é o interior, mas isso pouco importa, porque se opõe à superfície, à ideia de superficialidade.”

Não se deve trazer a interioridade do ser para a vida social porque as pessoas não têm nada a ver com os nossos problemas se não são nossos amigos.

A religião não anda longe daqui. “Quanto mais puritano for o grupo, e aí entram as religiões, mais a superfície é condenável, criticável”, prossegue Filomena. “Daí a defesa de uma aparência depurada e não vistosa.” Esta ideia de que há algo guardado no mais profundo de nós não é mais, afinal, do que “um derivativo do conceito cristão de alma”.

A sociedade contemporânea tenta conjugar as duas coisas — ou melhor, tenta vender as duas coisas. “Os vendedores da ideia de estilo procuram fazer a quadratura do círculo quando dizem que seres capaz de criar o teu estilo é ir buscá-lo às profundezas do ser, à tua autenticidade, à tua essência, e mostrá-lo à superfície, num trabalho de construção da superfície.” Ou seja, podemos ser profundos e superficiais ao mesmo tempo, o que, assim de repente, parece bem.

Filomena vai buscar para esta conversa o que diz o antropólogo Daniel Miller. “Ele é a pessoa que reabilita os estudos da cultura material a partir da década de 90, é muito graças a ele que se passa a estudar o consumo.” Miller trabalhou muito sobre as ilhas de Trinidade, nas Caraíbas, e sobre a forma como a moda é aí encarada. “Para eles, a verdade está na superfície, na criação de ti à superfície. É aí que está a identidade.”

Para os habitantes dessas ilhas, há uma diferença entre estilo e moda. A moda é rejeitada por ser algo imposto pelo exterior “e essa rejeição vai a par de uma recusa de tudo o que é institucional, do que são as normas”, explica Filomena.

O estilo é positivo, individual, criativo, próprio de cada um e isso existe à superfície. A moda, pelo contrário, obedece a regras impostas pelo exterior.

Voltemos ao cool. Se nasce de uma atitude de não reação, que é uma estratégia de sobrevivência, é legítimo perguntarmos porque é que valorizamos a não reação e porque é que uma reação emotiva é muitas vezes considerada histérica e vista de forma negativa.

Neste momento, lembra Filomena, há, na chamada manosfera, uma valorização da violência e de um temperamento excitável. Perder a cabeça não é visto necessariamente como uma atitude negativa, mas como a reação inevitável a uma sociedade que vai no sentido contrário ao que eles desejariam. O cool não tem aqui lugar.

Talvez a palavra sobrevivência volte a ser importante neste contexto. Exibir força e um temperamento violento passa uma mensagem: eu sou o mais forte.

Curiosamente, um temperamento menos calmo e mais emotivo nas mulheres é, em geral, encarado de forma negativa — o rótulo de “histérica” tem uma longa história na desvalorização das emoções manifestadas por mulheres, sendo que, ironicamente, não é usado quando são os homens que se deixam levar pelas emoções (veja-se o caso do futebol, onde lágrimas e manifestações de desespero, muito pouco cool, são consideradas o normal).

Mostrar coolness e não reagir não significa necessariamente que se tenha paralisado. “É quase uma coisa ontológica”, diz Filomena. “Sabes que sobrevives melhor se só usares a força quando não há outra saída.” Será, pergunto, que o que torna atraente uma pessoa cool é sentirmos que tem mais ferramentas para sobreviver e intuirmos que, junto a ela, as nossas hipóteses de sobrevivência são também maiores? Será que o nosso fascínio pelo cool é apenas mais uma manifestação do medo da morte?

E foi assim que um texto que poderia ter sido sobre casacos de cabedal, óculos escuros, cigarros e copos de whiskey se transformou num olhar angustiado sobre a fragilidade da vida humana. Nem suficientemente profundo, nem totalmente superficial. Não tão cool como desejaríamos, portanto.

Originalmente publicado na edição de julho de 2026 da Esquire Portugal, disponível aqui.

Alexandra Prado Coelho By Alexandra Prado Coelho

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