Fotografia: Instagram via @sefutbol
De Ketelaere. Repararam nele? Jogador belga, quase dois metros de altura, tão estrelicadinho que mais parecia um junco ao vento. Foi o único jogador neste mundial a marcar um golo à Espanha. Na final de ontem, a Argentina esteve longe de conseguir tal coisa, marcar um golo.
Em duas horas mais descontos, fez dois remates, nenhum enquadrado com a baliza. Portugal, que foi a desilusão que nós sabemos, rematou dez vezes.
Tirando a porrada, os empurrões, as placagens, as ameaças, as provocações, o repertório já gasto da delinquência sul americana — apesar dos seus jogadores jogarem ou terem feito carreira na Europa — a Argentina não teve porra nenhuma para oferecer a esta final. Messi divagou em campo como um mendigo a que ninguém se dignou esmolar uma bola.
A final acabou por ter algumas parecenças com o primeiro jogo de Espanha: se bem se lembram, a Espanha inaugurou a sua participação neste Mundial empatando a 0-0 com Cabo Verde. Dessa vez, a sua superioridade já havia sido asfixiante: 27-6 em remates; 7-1 em remates enquadrados com a baliza. Ontem, contra a Argentina, essa superioridade foi ainda mais enfática: 20-2; 12-0.
Os jovens que ontem se plantaram em frente à televisão podem até filosofar com o que viram: o que é que eu quero para a minha vida? Lutar lutar lutar, para não ter sequer uma oportunidade, e soltar a frustração agredindo alguém, só para descomprimir as campainhas de testosterona?
A equipa espanhola não ganhou apenas um jogo: deu uma lição de vida. Não é no último momento do processo, numa final, que devemos dar tudo o que temos, como se fossemos um lobo enjaulado disposto a arrancar as unhas para fugir do cativeiro.
Uma final é um exame, sim, mas é apenas a consequência de um processo iniciado muito antes. sabemos o que sabemos, o que estudámos já foi testado, só nos resta esperar pelas oportunidades. Só nos resta confiar que é o nosso trabalho, e não impedir os outros de fazerem o seu, a levar-nos a algum lado.
A Espanha encarna hoje o sentido de ter uma ideia, um modelo para aplicá-la e uma estratégia para não deixar que os seus executantes se distraiam no processo. Foi encantador ver jogadores de 19 anos — Cubarsi, Yamal — serenos como monges tibetanos, nos instantes em que foram provocados e até mesmo agredidos.
Tinham já passado 16 minutos do prolongamento quando Nico Williams fez aquela sublime cabeçada de costas para a baliza, que impediu a bola de sair pela linha de fundo e assistiu Ferran Torres para chutar sem ninguém a incomodá-lo. O jogo, no entanto, foi menos uma disputa pela vitória do que uma execução longamente adiada.
A Argentina é um país que se deixou inexplicavelmente isolar. Tem pouco mais a oferecer ao mundo, e a si própria, para além da sua cultura boluda. E faria um bom exercício de humildade se refletisse neste facto — o jogador mais influente do futebol nos últimos 20 anos, embora nascido na Argentina, foi um produto da formação espanhola. Tinha 13 anos quando chegou a Barcelona.
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10 Jul 2026