Ajudado pela ciência dos muito ricos, Luís Pedro Nunes vai iniciar um processo de ficar – fazemos figas! – jovem para sempre.
O antienvelhecimento é a maior golpada que está a ser dada em benefício dos homens sem que se dê muito por isso. Parece uma coisa distante, um culto de milionários, mas é um credo masculino que percorre todas as faixas etárias e chega a ser racionalizado como uma “necessidade de autopreservação” da biologia. Alerto que tenho como defender esta tese.
Os megabilionários da tecnologia, depois de terem satisfeito todas as suas necessidades básicas e não-básicas, e de terem acumulado dinheiro que já não é mensurável em números, aperceberam-se de uma injustiça, do seu ponto de vista: eram tão mortais como os demais; havia mesmo a possibilidade de pobres viverem mais do que eles. Tal absurdo necessitava de ser corrigido.
Havia que procurar a remoção do bug supremo: transcender a mortalidade. Ainda mais, dado terem capacidade financeira para viver faustosamente até a Terra ser engolida pela massa solar daqui a uns milhões de anos. Assim, há uma década que fortunas imensuráveis são investidas em tecnologia/ciência para reverter a idade (dos homens). É visível como os nerds apatetados de Silicon Valley se tornaram machos encorpados, com pescoços de touros miura. Essa obsessão acabou por se tornar uma ideologia. De uma forma ou de outra, todos estamos a beneficiar (não sei se esse é o termo... hum... é sim: beneficiar — vamos sem medo). Aqui se falará de tal assunto.
Eu, autor, confesso-me cobaia de muito desse canto de sereia (má analogia). O que me dá alguma autoridade para escrever esta coluna. Que há para falar? Há um processo que começa com Jeff Bezos, Peter Thiel ou Sam Altman a terem uma crise de meia-idade que passa por acharem que o envelhecimento é um “bug de software”, que a morte é um “problema de engenharia que pode ser resolvido” e não um destino, mas um desafio. E começam a testar algo. Dois anos depois, estamos a ouvir num podcast um professor XPTO dizer que devemos imergir-nos em banhos de gelo pela manhã; que temos obrigatoriamente de tomar creatina e magnésio todos os dias se não nos queremos tornar um figo seco ao sol já na próxima semana. Não acontece a todos. Aconteceu-me já a mim, que sou vulnerável. Eis o motivo por que vos estou a escrever: não da cátedra de quem sabe, mas do extremo algorítmico de quem é manipulado.
Quando olhamos para fotografias de desconhecidos de 1980, não acreditamos que os homens tenham 25 ou 35 anos. Aparentam ter 40 ou 50. Há diferentes explicações que podemos avançar, mas podemos reverter o raciocínio. Se recuássemos para 1980, muitos — mas muitos — de nós não teríamos o aspeto atual: seríamos uma versão muito mais “deteriorada”. Não havia qualquer cuidado com questões de saúde — pode argumentar-se que a alimentação seria mais saudável (seria?), mas, em contrapartida, fumava-se e bebia-se “porque sim”. Os hábitos de higiene eram outros (banho semanal?), o acesso ao dentista era deficitário e a própria medicina ortodôntica tendia para o “arrancar o dente” como solução natural. A “falta de vista” era uma inevitabilidade que se resolvia com óculos de fundo de garrafa; o sedentarismo da repartição engordava dentro da camisa de poliéster; ia-se ao médico em caso extremo e morria-se de “uma coisa que lhe deu”. Repito: quantos de nós seríamos aqueles das fotos se lançados para os anos 70/80?
Lembro-me de quando vi o filme American Psycho (adaptado do livro de Bret Easton Ellis) e de como eu e mais 99% dos espectadores masculinos portugueses ficámos mais banzados com a rotina matinal de Patrick Bateman do que com os seus crimes hediondos. A sua higiene pós-acordar, para a data, é que parecia de psicopata: “Acredito em cuidar de mim. De manhã, se a minha cara estiver um pouco inchada, ponho uma compressa de gelo enquanto faço abdominais. Já consigo fazer mil. Depois de tirar o gelo, uso uma loção de limpeza profunda dos poros. No duche, uso um gel de limpeza ativado pela água, depois um esfoliante corporal de mel e amêndoa, e um gel esfoliante de rosto. Aplico uma máscara facial de ervas e menta, que deixo atuar durante dez minutos enquanto preparo o resto da minha rotina. Uso sempre uma loção pós-barba com pouco ou nenhum álcool, porque resseca a cara e faz-nos parecer mais velhos. Hidrato, depois um bálsamo antienvelhecimento para os olhos, e por fim uma loção hidratante protetora.” Que coisa de doidos. A única possibilidade eram aftershaves com álcool. E um ou outro perfume. Por essa altura, disse a outros jornalistas que punha creme hidratante nos cotovelos para não ficarem esbranquiçados. Fui gozado durante anos.
O protocolo matinal de Bateman marcou toda uma geração yuppie como reflexo da obsessão pela aparência e pelos cuidados de luxo. Hoje, chega a ser inocente. Qualquer homem hidrata a pele. Faz um pouco de desporto. Tem um perfume especial. Hoje, mesmo se elevássemos a preços de produtos de luxo, a rotina de Bateman custaria uns 300 euros por mês. Sei lá. Mas é impossível descrever o choque que foi, na altura, a “rotina Bateman”. Só era crível porque ele era um tipo de personalidade detestada na altura em Portugal (ser yuppie) e também porque assassinava mulheres no seu apartamento de luxo em Manhattan, à machadada, a ouvir música pop.
Envelhecer mal é visto como uma falha de carácter a ser combatida. Não basta viver e lidar com a idade. É preciso resistir.
Hoje, é o mínimo de alguém preocupado em, enfim, mais ou menos, “cuidar de si” (isto é: estar num qualquer patamar da luta antienvelhecimento). É que, se ainda há 30 anos colocar hidratante nos cotovelos punha em causa a minha masculinidade, hoje “o eterno masculino” — ou o “masculino em busca da eternidade” — exige uma complexidade de rituais que já é mais do que vaidade: é ideologia de vida. “Envelhecer mal” é visto como uma falha de carácter a ser combatida ativamente. Não basta viver e lidar com a idade. É preciso resistir. Quem não está a combater a idade é visto como descuidado consigo próprio. O capitalismo da imortalidade cria assim uma arquitetura da imortalidade. E quem está fora é desdenhado.
Bom, chegou a hora de introduzir a palavra mágica: biohacking. Que quer dizer o que vos apetecer. Mas está em tudo. É a estratégia para enganar a morte. No filme de Bergman, O Sétimo Selo, quando o cavaleiro joga xadrez com a Morte, o biohacking seria ele usar um supercomputador para vencer o destino. Ou ganhar mais tempo. Biohacking é a ideia de que se pode encontrar maneira de encurtar caminhos, atalhos, para otimizar o corpo e até reverter o envelhecimento. Hackear-me como se fosse um sistema.
E daqui posso dar-vos um cardápio imenso. Algumas destas coisas já experimentei (calma: as simples). Continuo a envelhecer. Da obsessão por ter todos os dados do orga- nismo em tempo real via gadgets (Whoop, Apple Watch, etc.) à crioterapia, à câmara hiperbárica, à otimização circadiana em que se manipulam os ciclos do sono; às imensas possibilidades dos diagnósticos de vigilância com full body scans; à suplementação e farmacologia off label (anotem: vêm aí os peptídeos); às clínicas de eternidade — isto para não falar de terapia de luz vermelha, rotina das 5 da manhã (acordar, ginasticar, meditar, etc.), mas também a obrigatória reposição de testosterona; ou os mais secretos botoxes no escroto (escrotox); depilações totais a laser (banais); aumentos penianos com remoção de almofadas de gordura e corte do nervo de suspensão do falo (não se fala muito, mas...) que os viagras desta vida permitem, dada a sexualidade masculina ter sido expandida até à geriatria entubada. O corpo e a mente são um território inesgotável, pronto a ser otimizado, analisado e direcionado para uma via que não seja o desfecho que dizem ainda ser inevitável: a tal da morte. Matéria não me faltará.
Como se vê, a ideologia da longevidade é tudo menos democrática. Ela é inerentemente elitista. A medicina 3.0 é hipercara e cria ainda mais “masculinos disfuncionais” por exclusão. Isto é inacessível a uma maioria de aspirantes a machos alfas e sigmas e cria uma multidão de excluídos. Que são atirados para uma obscuridade raivosa, autoconvencidos da sua vitimização e de que só o lookmaxxing radical (nomeadamente o bonesmaxxing — alteração do corpo partindo ossos do maxilar cirurgicamente para ter um queixo mais masculino, ou do fémur para crescer uns centímetros...) seria a solução para a sua vida. Isto aqui já é sério. O rabbit hole das ideologias extremistas capturou alguma (muita) desta otimização masculina. O homem idealizado e perfeito sempre foi um fascínio homoerótico da extrema-direita. Sim, é como digo.
Este mundo existe. Está aqui. Estamos todos — uns mais, outros menos — dentro dele. Aqui estarei para o provar.
Originalmente publicado na edição de lançamento da Esquire Portugal, disponível aqui.
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