À superfície, pode parecer que Mason Barnes é apenas mais um surfista, no sentido em que sofre da mesma irresistível e incessante busca pelo melhor swell. Mas enquanto surfista de ondas grandes, destaca-se pelo modo como navega os meandros da modalidade fora da água, combinando a reputação enquanto Ás das ondas e um sentido de estilo que lhe valeu parcerias com marcas como a Dior. Texto de Elsa Gonçalves. Fotografia de Luis Monteiro. Styling de Mariana Pimenta.
É da Carolina do Norte, mas fez da Nazaré (também) casa: a cidade natal, Wilmington, trouxe-lhe o gosto pelo surf; a Nazaré consagrou-o como um dos nomes incontornáveis da modalidade de Big Waves. Além da participação no documentário 100 Foot Wave, ali, em 2022, no campeonato de ondas grandes da World Surf League, arrecadou o prémio de Biggest Wave — depois de quase ter perdido a vida na onda anterior. É um desporto de risco, não nega, mas fá-lo com o cálculo dessa noção bem como a segurança que a experiência e a preparação lhe trouxeram. Na gestão da carreira, o modus operandi parece ser o mesmo: não tem medo de ceder a alguma ousadia, procurando patrocínios e parcerias fora da esfera mais óbvia do surf, mas não se atira para nada que não encaixe no grau de excelência que procura — e na sua própria identidade, não só enquanto surfista, mas também de estilo. Desde jovem, admite, nunca seguiu muito a onda de surfer look expectável, e até chegou a customizar blusões de pele. A veia de empreendedor não se esgotou nessa altura em que fazia negócio com as suas criações, vendendo os casacos nas traseiras da loja de um amigo: hoje, tem um negócio em ascensão, ligado tanto às suas raízes como ao modo de vida que preconiza. No Bevvymart, uma loja de conveniência de opções saudáveis em Wrightsville Beach, Carolina do Norte, o objetivo é servir a comunidade, criando um espaço de encontro que devolva à cidade tudo o que esta lhe trouxe — mas que lhe serve também como uma ligação ao berço. Com apenas 32 anos “e ainda tanto por conquistar”, repete com convicção, já escreveu uma história tão impressionante como as ondas que surfa um pouco por todo o mundo. Mas responde à entrevista desta edição munido da mesma humildade com que se vê nesse mesmo swell gigante: como um pequeno ponto em cima de uma prancha, que respeita o poder imenso da natureza que o circunda — e o eleva.
Como é que o surf de ondas gigantes entrou na tua vida? E qual o papel de Nazaré nisso?
O surf de ondas gigantes é tudo, para mim. É tudo em que penso e me dedico obsessivamente todos os dias, desde que acordo até à hora de dormir. Comecei a praticar o desporto gradualmente. Comecei a surfar na Carolina do Norte em ondas de 30 centímetros e apaixonei- -me pelo surf, lá. Foi esta obsessão de querer sempre mais e querer melhorar naquilo que faço que uma onda de 1,5 metros levou a uma de 2,5 metros, e depois a 3 metros, a 6 metros e, quando dei por mim, estava na Nazaré a tentar encontrar ondas de 30 metros. Pessoas como Garrett McNamara e Grant Twiggy Baker desempenharam papéis fundamentais, abrindo caminho e mostrando-me como se faz. Ensinaram-me muito ao longo dos anos; absorvo o que me ensinaram e tento fazer a minha própria versão.
Não conheceste o Garrett na Nazaré, pois não?
Conheci-o Garrett ainda criança. Ele e o meu pai eram muito próximos e ele levou-me a surfar em modo tow-in [rebocado para a onda em jet ski] pela primeira vez, quando tinha uns 12 ou 13 anos. Foi o primeiro momento em que realmente senti a emoção das ondas grandes, fisgou-me na hora. Quinze anos depois, estava a rebocar-me para a maior onda da minha vida, na Nazaré, o que foi um ponto de viragem na minha carreira como surfista e como pessoa. De certa forma, a Nazaré mudou a minha vida; não só para mim, para muitos surfistas, incluindo o Garrett. E é muito especial por isso, fez muito por nós e continua a crescer como parte fundamental da cultura do desporto.
Sobrecamisa estampada, camisa estampada com bordado Dior e calções Riviera, DIORIVIERA. Chinelos Dior Rivage e Mochila Dior Jett, DIOR.
Até compraste lá uma casa
A Nazaré... tem algo de especial. Quando saio da autoestrada e começo a conduzir pela vegetação, consigo ouvir as ondas, sentir o oceano... arrepio-me sempre. E todos aqueles que levei lá sentiram o mesmo. Há algo no ar, não há nada igual em mais nenhum lugar do mundo: as pessoas, a comida e as ondas falam por si. É quase como se tivesse sido colocada neste mundo para ser o que é agora, a forma como está configurada, como a onda se forma, como as pessoas podem vir vê-la como num anfiteatro e observar-nos a fazer o que adoramos de uma perspetiva tão próxima... não há nada igual e é um lugar onde quero passar muito tempo e partilhar com muita gente. E continuo a fazê-lo todos os anos.
Se estiveres fora de água na Nazaré, onde é que te encontramos?
Provavelmente estarei sentado no meu carro, com um café, a observar as ondas, porque essa é uma das minhas coisas favoritas para fazer lá. Há tantos lugares onde se pode simplesmente sentar no carro, ouvir música e tomar um café, e é tão fixe poder ficar ali sentado a observar ondas gigantes. Esta é a característica especial da Nazaré: as ondas são sempre grandes, pelo que podes chegar lá em qualquer dia de inverno e provavelmente verás ondas de mais de 12 metros, o que é simplesmente fascinante, mesmo que não sejam boas para surfar. Por isso, fico a apreciar e simplesmente maravilhado com o poder daquilo.
Acontece veres ondas boas e não teres a tua prancha?
Isso nunca acontece. [risos] Se as ondas estão boas, eu estou dentro de água. Se estou ali sentado sem surfar, mesmo com as ondas boas, é porque estou lesionado ou algo do género... Sabemos as condições, os melhores ventos, as melhores marés, e normalmente estou lá porque as condições são boas. Não conseguiria estar só ali parado.
Um momento marcante na tua carreira foi quando ganhaste o prémio de maior onda, no campeonato da WSL em 2022, na Nazaré. Quase morreste, pouco antes de apanhar a onda que te valeu o prémio.
A Nazaré e as ondas gigantes em geral... Sempre foi um local que me ensinou muita humildade. Pode proporcionar-te o melhor e mais sublime momento da tua vida e, segundos depois, matar-te. E já me mostrou todas as suas faces: trouxe-me tanta alegria e quase me matou, tudo no mesmo dia. Aquela onda em particular foi um dos maiores dias que já vi no surf; estava a ser rebocado pelo Garrett, ele atirou-me para uma onda enorme e eu apanhei demasiada velocidade, bati na ondulação e caí, à velocidade mais alta que alguma vez alcancei numa prancha... fiquei praticamente inconsciente, fui sugado pela corrente numa onda de cerca de 20 metros, e fiquei numa situação terrível mesmo em frente às rochas, a ver estrelas. Mas o Will Skudin estava lá comigo. É alguém a quem confio a minha vida. Ele apanhou-me na mota de água, arrastou-me para águas seguras e o Garrett apareceu: "Boa, vamos lá!”. Antes mesmo de poder dizer que não e perceber no que me estava a meter novamente, já estava no jet ski do Garrett, a caminho do outside. Lembro-me agora, mais do que nunca, de ver a cara do Will e do Cotty [Andrew Cotton], eles meio que a pensar "não sei se isto é boa ideia". Mas foi um dia tão especial; se havia algum dia para me superar como ser humano, seria naquele momento. E, minutos depois, a onda que mudou a minha carreira veio mesmo na nossa direção: saí daquela onda e nem sabia o tamanho dela, porque não se sabe na altura, mas, assim que a apanhei, senti satisfação. Desabei em lágrimas de alegria e nunca o tinha sentido em toda a minha vida até àquele momento. É uma coisa tão bonita o equilíbrio dos opostos; estava quase a morrer minutos antes e, logo a seguir, foi um momento marcante que nunca mais esquecerei. Há sempre uma história. A Mãe Natureza é quem manda, Nazaré é quem manda. Depois só tens de a deixar fazer o que tem de fazer e aceitar o que vier.
Explica-nos as precauções de segurança que se tomam para surfar ondas gigantes. Não é desporto de uma só pessoa.
Na minha opinião, as outras quatro ou cinco pessoas que trabalham connosco são mais importantes do que o surfista. Tudo o que fazemos é apanhar a onda. Essa é a parte mais fácil. O que elas fazem é igualmente perigoso, exige igualmente habilidade e é também imprevisível. E colocam-se em risco para nos manterem seguros. Portanto, é um trabalho de equipa. Não há mais nenhum lugar no mundo como este, no sentido em que isto é absolutamente necessário: não se pode estar na fila para competir na Nazaré sem uma equipa de três ou quatro pessoas, o melhor equipamento, os melhores profissionais... se se está na água ali, é preciso estar pronto para a guerra e para o pior cenário possível, e essa parte elimina as pessoas que só querem pôr um pezinho na água. Não é realmente acessível, porque sem preparação e dedicação para estar lá nestes dias gigantescos, não vai acontecer. Portanto, é uma peça fundamental deste puzzle: os pilotos, a segurança, os spotters... não é fisicamente possível fazer tudo sozinho e, mesmo assim, não deixa de ser perigoso. As precauções tomadas hoje em dia, os padrões estabelecidos são muito elevados... se não seguires estes protocolos, é mal visto andar por lá.

Sobrecamisa estampada, camisa estampada com bordado Dior e calções Riviera, DIORIVIERA. Chinelos Dior Rivage e Mochila Dior Jett, DIOR.
As quatro ou cinco pessoas que trabalham connosco são mais importantes do que o surfista
Quão importante é estar preparado física e mentalmente para este tipo de desporto e como te preparas?
Antes de tocar numa mota de água na Nazaré, passei quase quatro temporadas a remar até ao mar aberto, conquistando o meu espaço para ser rebocado até lá. Acho que esta é uma parte muito importante do processo, porque dá uma perspetiva diferente do oceano. Faz-te apreciá-lo e ajuda-te mais. Foi aí que me apaixonei pelas ondas grandes: a remar para o outside. Continua a ser a melhor sensação do mundo para um surfista, mas há um limite. Um nível que sabes que não pode ser ultrapassado. Há dias na Nazaré em que é humanamente impossível remar. É aí que estas equipas e estes jet skis são cruciais, nestes dias que nunca pensámos que seria possível surfar, e agora este equipamento e estas pessoas estão a torná-lo possível.
Dizem que as pessoas que anseiam por este tipo de emoções são diferentes. Foste sempre viciado na adrenalina?
No início era mais uma procura de satisfação. Tinha estes padrões definidos na minha cabeça, coisas que queria fazer, e fazia-as, e agora... simplesmente adoro. E faz parte de quem eu sou, e não sei mesmo fazer mais nada para além disto. Não vou para a Nazaré para surfar a maior onda do mundo; vou porque adoro, e acho que coisas boas acontecem quando se fazem as coisas pelo motivo certo. É por isso que ainda estou aqui a fazê-lo. Faço surf desde que nasci, praticamente, e ainda sou tão apaixonado como era desde que comecei, e esse é o meu propósito agora: fazê-lo por amor.
Mas precisas de patrocínios, para que seja sustentável. Ainda é difícil essa luta, mesmo quando se atinge um certo nível de reconhecimento?
É sempre difícil. Não importa quem és ou o que conquistaste. Há sempre trabalho a ser feito fora de água para manter os patrocinadores e os contratos, para manter o sonho vivo, e isso exige criatividade. Muitas pessoas têm dificuldade em alcançar os seus objetivos, mas o surf está num ótimo momento, mais pessoas do que nunca adoram o desporto, mais pessoas do que nunca o veem, e só precisas de te dedicar ao máximo. Se quiseres, a oportunidade está ao teu alcance, mas precisas de dedicar a tua vida inteira. E se não resultar, tens de tentar de novo, e de novo, e de novo. Este contrato termina, é preciso começar a procurar outro e é um fluxo constante de tentar fazer acontecer, só para poderes fazer o que amas. Mas essa é a beleza disto, porque se pudesses simplesmente relaxar e descansar, seria um pouco aborrecido. Quer dizer, obviamente, alguns contratos de 10 anos, que nos dão um pouco mais de segurança, são ótimos. Mas é assim que o surf funciona agora e, como já disse, há tantas oportunidades, tantas marcas fora da indústria do surf a entrar neste mercado e que já fizeram tanto por mim, e acho que ainda há muito a ser feito. Estou entusiasmado por contar a minha história e partilhá-la com o mundo porque acho que é algo que pode realmente inspirar as pessoas a pensar fora da caixa e a correrem atrás daquilo que amam, por mais incrível que pareça.
Sei que selecionas cuidadosamente as marcas parceiras e, curiosamente, a maioria delas não está relacionada com o surf. Foi uma decisão consciente?
Sim, esta é uma imagem que criei na minha cabeça há muitos anos. E sempre tive este fascínio por conectar o meio das ondas grandes com o resto do mundo. Qualquer pessoa pode olhar para uma onda gigante e apreciá-la, mas nem todos conseguem olhar para alguém a fazer um aéreo e perceber a técnica e a dificuldade da manobra. Vi isto como uma oportunidade de partilhar o que fazemos. Mudei-me para Los Angeles há 15 anos com isso em mente, tentando conhecer pessoas e colocando-me em situações que pudessem tornar isto possível. Recebi muitos "nãos", até que finalmente consegui algumas oportunidades depois de anos e anos a não ser levado a sério. Bastou uma pessoa dar-me a oportunidade, o resto surgiu naturalmente. Estou muito grato por trabalhar com algumas das pessoas e marcas mais incríveis do mundo. Está a inspirar-me a ser melhor e a esforçar-me ainda mais.
Blazer e calções Riviera, DIORIVIERA. Sandálias Dior Aqua, DIOR.
Como surgiu a parceria com a Dior?
Sempre adorei moda. Sempre fui aquele tipo na praia a usar algo que não parecia apropriado... e isso não era intencional! Era simplesmente a minha maneira de ser desde criança. Com 14 ou 15 anos, customizava casacos de cabedal nas traseiras da loja de um amigo, só por diversão, e vendia-os como um trabalho extra. Por isso, o design e a moda sempre me interessaram. Tornou-se uma parte importante de quem sou como surfista, porque as pessoas usam-me como exemplo de surfistas que não agem ou se vestem necessariamente como tal, e isso tornou-se parte da minha identidade, o que considero um elogio. E fazer parte de marcas como a Dior ajudou-me a elevar isto a outro nível, porque as peças e as pessoas com quem trabalham são mestres naquilo que fazem, e isso inspira-me a ser mestre na minha arte e a unir estes dois mundos.
Mostrares-te fora do surf é tão importante para o teu desporto como estar nas ondas?
Com certeza. Tudo se soma a um objetivo maior. O que fazemos na água fala por si, mas o que faço fora de água torna tudo ainda mais especial. Sem o apoio destas marcas, não conseguiríamos fazer o que fazemos. Tudo isto custa dinheiro e leva tempo, e é um trabalho de equipa, por isso, sem tudo isto fora de água, nada seria possível.
Como é que uma capa da Esquire se encaixa na tua vida pessoal e profissional, continua a ser importante trabalhar com print?
A imprensa em papel é tudo. Não há nada como ter uma revista física nas mãos, nada substitui isso, por mais avançados que estejamos com tecnologia... até mesmo tocar nestas revistas, quando cheguei aqui esta manhã, foi tão refrescante, e acho que toda a gente sente isso. Temos de continuar a demonstrar o quão mais poderoso é segurar revistas nas mãos, guardá-las em casa e partilhá-las com outras pessoas. É algo que podes guardar para o resto da vida, oferecer aos amigos e familiares, e isso tem um significado especial. É uma história que permanece viva para sempre, e isso não tem preço. A Esquire é um nome icónico para mim, e ter o meu nome associado é uma grande honra e um enorme prazer ter esta oportunidade. Atravessei o mundo para o fazer, tal é a minha gratidão por esta oportunidade.
Camisa e calções com padrão floral azul, DIORIVIERA.
Viajas pelo mundo em busca de ondas gigantes. É mais difícil equi- librar as relações quando se está constantemente em movimento, sejam amizades ou relações amorosas?
No mundo de hoje, é sempre fácil, independentemente do quão ocupado se está ou onde se está, encontrar tempo para o que é mais importante. Tudo o que tens de fazer é pegar no telefone e falar com as pessoas. Há muitas maneiras de fazer alguém sentir que está presente sem realmente estar lá, por isso só precisas de ver o que funciona, e as pessoas certas na tua vida permanecerão nela pelos motivos certos. Vão apoiar-te no que fazes e vão querer ver-te perseguir os teus sonhos e realizar grandes feitos. Vão ficar ao teu lado, não importa o tempo que demores.
O teu pai, Reggie Barnes, era skater profissional. Também andas de skate?
O skate foi uma parte fundamental da minha vida e ainda é. Eu costumava andar de skate todos os dias. Adorava andar de skate mais do que surfar, durante a minha adolescência. Foi só por volta dos 15 anos que realmente deixei o skate de lado e comecei a surfar, surfar e surfar, mas até então, era tudo o que eu queria fazer, estar no skatepark... Ainda ando de skate uma vez por mês. Não ando de skate tanto quanto gostaria porque tenho de ter cuidado para não me lesionar, senão fico meses fora de ação, tenho de ser esperto.
A comunidade do skate também influenciou o teu surf?
100%. Há uma geração de skaters que estavam com o meu pai, sabes, Dogtown, Tony Alva, tipos assim são indivíduos incríveis. Fizeram muito pela cultura do skate e isso inspirou-me a ser criativo, a fazer as minhas próprias coisas, a surfar e simplesmente a fazer acontecer.
Existe esta ideia de que os surfistas e os skaters têm algum tipo de rivalidade. Achas que isso é verdade?
Não acho que seja verdade. Não consigo pensar em nenhum skater de quem não goste. Passei muito tempo com skaters. O ginásio onde treino em Los Angeles é 95% skaters e todos eles são boas pessoas. Vivem definitivamente uma vida bem diferente da de um surfista comum. Mas nunca encontrei um mau skater.
Imagem da esquerda: blazer, calças e camisola às riscas, DIORIVIERA. Chinelos, DIOR. Imagem da direita: blazer e calças às riscas azuis claras; camisa às riscas azul-claro, DIORIVIERA.
E entre surfistas? Há concorrência?
Diria que, se for à Nazaré, vou encontrar muita gente à procura das mesmas ondas que eu. Mas acho que o oceano não funciona bem assim, principalmente se estiveres numa competição e for heat a heat, aí já é outra história. A onda certa para ti vai encontrar-te, e eu tento ir com calma e deixar que as ondas certas venham ter comigo. E isso parece funcionar. Quer dizer, às vezes passo dias sem apanhar uma onda, o que é ótimo, porque estou a tentar ser mais paciente. E não tenho nada a provar. Não quero disputar uma onda com ninguém. Foi assim que fui educado.
Quando estás na Nazaré, sentes-te um local?
Definitivamente não sou um local na Nazaré e nunca serei. Os locais têm prioridade sobre tudo o que faço naquela cidade. E é assim que funciona. Quando visitas algum lugar, és um turista e há pessoas que nasceram e cresceram lá e têm prioridade sobre ti. Vais para o Havai, e é a mesma coisa. Vais para a Carolina do Norte, de onde eu venho, e espero que as pessoas me tratem da mesma forma. Infelizmente, o único local onde posso utilizar esta vantagem é onde as ondas têm trinta centímetros [risos].

Camisa estampada e calções com padrão Dioriviera, DIORIVIERA.
É por isso que existem regras dentro do surf.
Sim, exatamente. Cria um sentido de organização e mantém um nível de respeito que não é muito falado. Mas é saudável manter tudo a funcionar na direção certa e sem problemas.
Para além da Nazaré, quais foram as ondas mais fixes, as maiores ondas que surfaste pelo mundo?
Bem, Portugal tem tantas ondas. Antes do final da temporada, passei aqui mais um mês, sem ondas grandes, apenas a surfar ao longo da costa. Ericeira, Supertubos, todas estas ondas pelas quais as pessoas viajam por todo o mundo, que não são ondas gigantes e perigosas. São apenas ondas divertidas, de nível internacional. E essa é uma das coisas mais giras em Portugal: tens mesmo de tudo. É uma costa tão rica em beleza e podes encontrar uma onda realmente divertida, sem ninguém por perto, em qualquer dia da semana. E isso é especial.
Fato-de-banho com padrão Dioriviera, DIORIVIERA.
Regressado à Carolina do Norte, o teu pai renovou um antigo posto de abastecimento de combustível e transformou-o no Bevvymart. Podes falar-nos um pouco sobre isso e qual é o teu papel?
Bem, o Bevvymart é meu. Eu sou o dono. É um negócio que comecei com um sócio, o Cheeto [Chris Batten]. Obviamente, como surfista profissional, é muito difícil para mim gerir um negócio a tempo inteiro, especialmente um como este. Tornou-se um grande sucesso. Estou muito grato pela comunidade gostar e ver o negócio como eu o imaginei. E sim, estou muito grato ao meu sócio, Cheeto. Está lá em casa, a tratar de tudo, a garantir que tudo funciona, e está a fazer um ótimo trabalho. A história por trás disto é que vivemos numa ilha pequena. Havia um posto de abastecimento de combustível que eu frequentava todos os dias depois da escola quando era criança. Íamos lá, comprávamos slushies, Slim Jims, coisas que não fazem bem à saúde. O local esteve fechado durante mais de dez anos e era apenas um edifício a deteriorar-se. Comprámo-lo, renovámo-lo e transformámo-lo no Bevvymart. A minha visão era criar um ambiente mais saudável, cool e divertido, conveniente para a comunidade, sem necessariamente impor hábitos saudáveis, mas apenas tornando-os uma opção fácil. E tem sido incrível até agora. É uma versão saudável de uma loja de conveniência, porque já não tem posto de gasolina. Mas podes entrar lá e comprar snacks saudáveis, café, batido, burritos, saladas, slushies — porque ainda há algumas coisas que eu queria incluir e que me fazem lembrar a minha infância. Encontras pessoas de todos os tipos. Há pessoas acima dos 80 a tomar um café de manhã. Há crianças depois da escola a irem buscar slushies. Há universitários a comprar bebidas. Há gente de todos os tipos. E tornou-se um ponto de encontro comunitário muito giro, que as pessoas adoram. Obviamente, os negócios demoram a dar lucro. Felizmente, este tem sido rentável num curto espaço de tempo. Tem uma ótima localização. E estou muito grato por ter tanto apoio da cidade. As pessoas estão a adorar. Estou a abrir mais dois. Um fica na mesma rua do primeiro e o outro do outro lado da cidade. Quero abrir mais alguns na cidade onde nasci e cresci antes de ir para outros lugares. O objetivo é ter lojas em todo o país. Gostaria de me tornar a nova referência em termos de conveniência e saúde. Tens o clássico 7-Eleven aqui, ou um Bevvymart ali. Podes escolher.
E um na Nazaré?
Com certeza, quero abrir um em Portugal. Isso vai definitivamente acontecer.
Qual foi a maior dificuldade de seres surfista e de te tornares empreendedor?
Fui criado num ambiente empresarial. O meu pai é dono de uma grande distribuidora de skate. E, quando era criança, estava lá todos os dias. Não por opção própria. Eu tinha de estar lá. A minha mãe trabalhava e levava-me todos os dias. E eu só os observava a gerir um negócio. Aprendi muito com isso. Aprendi mais com isso do que acho que se aprende na escola em geral. E ainda há muito que preciso de aprender como empreendedor. É uma espécie de tentativa e erro. E é por isso que é muito importante para mim ter parceiros como o Cheeto. Geriu cafés e restaurantes por toda a cidade e teve muito sucesso nesse ramo. Para ambos, ainda é uma questão de tentativa e erro, tentar criar algo que vá ao encontro de todos os gostos e carteiras.
O que é que o surf te ensinou?
O surf ensinou-me a ter paciência e a confiar no processo. Podes esforçar-te ao máximo, mas o que te está destinado vai acontecer. Por isso, está preparado, sê paciente. E quando o mundo estiver a tentar deitar-te abaixo, sabe que há luz ao fundo do túnel.

Fato-de-banho com padrão Dioriviera, DIORIVIERA.
A Esquire Portugal agradece ao Hotel Tivoli Avenida Liberdade e à Street Smash Burgers por todas as facilidades concedidas. Editorial realizado em exclusivo para a Esquire Portugal.
O José Santana, diretor da Esquire, tem um desafio em que pergunta se a tua vida fosse um filme, gostarias da perso- nagem que estás a interpretar?
Sim, gostaria muito. Obviamente, há coisas que faria melhor. E são coisas em que estou a trabalhar atualmente. Mas a vida é assim mesmo. Ninguém é perfeito. E é uma aprendizagem constante, todo o santo dia. No geral, se me olhasse ao espelho e me conhecesse, dava-me um “high-five". Diria: "Não desistas".
Originalmente publicado na Esquire Portugal, na edição de Julho de 2026, disponível aqui.
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