O CV do londrino na representação é tão impressionante que até parece ter tido direito a curadoria. A passagem por Portugal para adicionar mais um título a essa bagagem de peso foi o argumento perfeito para fazer acontecer as páginas que se seguem. Fotografia de Élio Nogueira. Styling de Mariana Pimenta.
Foi Custom of the Country, uma adaptação do romance de Edith Wharton, de 1913, no qual contracena com Sydney Sweeney e Matthew Goode, que fez com que o ator britânico passasse mais de um mês em Lisboa. A película é mais uma num rol de papéis em séries e longas-metragens que fariam roer de inveja qualquer ator em emergência — diríamos até, qualquer profissional estabelecido: depois de um papel aqui e ali, o ponto de viragem surgiu com a participação na segunda temporada de The White Lotus (2022), à qual se seguiu uma catadupa de escolhas televisivas e cinematográficas que o consagraram como nome da indústria a ter em conta. Títulos como One Day (2024), Bridget Jones: Mad about the Boy (2025), Tuner (2025) ou Vladimir (2026) — e acaba de ser confirmada a sua participação em Lord of the Rings: Hunt for Gollum, com estreia marcada para 2027 —, compõem o currículo admirável de Woodall, agora com 29 anos.
As conquistas não lhe retiraram os pés do chão, ainda que fosse compreensível que todas estas oportunidades lhe tivessem subido à cabeça: falar com Leo é confirmar a sua honestidade, cordialidade e, atrevemo-nos a dizer, normalidade. Fomos encontrá-lo num dia de filmagens, em inícios de abril, bastante adoentado; a rodagem no Porto, no dia anterior, tinha-o deixado engripado e a sua energia estava claramente afetada, mas em nenhuma altura abriu mão da simpatia e da disponibilidade em subir a estátuas, mudar de roupa, variar nas poses e, em certos momentos, até tocar piano, para deleite da equipa. O que já não conseguiu encaixar foi esta entrevista, que decorreu uns dias mais tarde, por telefone, já com Leo em Nova Iorque, agora com um vigor renovado.
Espero que Portugal te tenha tratado bem, ainda que estivesses um pouco constipado no dia de rodagem.
Que gentil da tua parte. Sim. Foi tudo muito tranquilo. Trataram-me muito bem.
Blazer, PROTHABITAU. Calças, LEVI’S.
Vou tentar não ocupar muito do teu tempo: como é que a representação entra na tua vida?
Fiz algumas peças quando era muito pequeno, só para a escola, e depois mais umas experiências no liceu, mas nunca foi algo que quisesse seguir. Há uma expressão que usam para os atores chamada "apanhar o bichinho” e lembro-me de ter uns 19 anos e de estar a tentar descobrir o que queria fazer da vida. Não conseguia parar de pensar na ideia de representar, e isso transformou-se um pouco num plano real, por isso decidi que ia estudar para tentar a minha sorte.
Mas houve algum papel que tenha despertado essa ideia?
Diria que foi durante a minha formação na Escola de Artes. Estávamos a estudar os clássicos americanos e encenámos Um Eléctrico Chamado Desejo. Fiz de Stanley Korski e adorei. Foi a primeira vez que senti aquela chama dentro de mim, o que só aconteceu algumas vezes, mas foi uma chama muito forte e decisiva.
Uma das coisas que a representação te trouxe foi Lisboa, onde estiveste a gravar Custom of the Country. O que nos podes contar sobre o filme e como é que Portugal se encaixa aí?
É sobre uma jovem americana do final do século XIX, a entrar no século XX, que tenta ascender socialmente. Naquela época, havia muito poucas oportunidades para as mulheres. E ela está a tentar encontrar a pessoa certa para casar. Eu interpreto o rapaz, Elmer Moffatt, por quem ela se apaixona no início, quando ainda estão nesta pequena cidade fictícia chamada Apex, e casam em segredo. Mas não é um pretendente adequado para os pais dela, por isso, ele é mandado embora. E se continuar, vou acabar por dar spoilers. [risos] Enfim, é mais ou menos o percurso deles, desde o encontro até à separação, e o dela para se inserir na alta sociedade. Portugal, em si, não tem um papel na história. É o cenário. Quem conhece Portugal, sabe que está lá, mas não se assume que seja Portugal.
Além de Sweeney e Goode, interagiste com vários nomes sonantes, como Jennifer Coolidge, Rachel Weisz. Também fizeste Tuner com Dustin Hoffman. Ficas mais nervoso ou é exatamente o oposto?
Definitivamente, torna-se mais fácil. Pen- so que no início, sim, o nervosismo era um pouco mais evidente. A insegurança talvez fosse mais evidente. E isso ainda existe. Mas encontrei formas de lidar com isso. Ganhei confiança.
Também te tornaste um nome reconhecido... É diferente, agora, da primeira vez que trabalhaste com eles, acredito.
Bem, isso é muito gentil da tua parte. Sabes, ainda tenho a síndrome do impostor. E acho que nunca quero perder este sentimento de, sei lá, gratidão. E também o surreal que é estar frente a frente com o Dustin Hoffman, como disseste. Espero nunca perder isso.

Full look, LOEWE. Fios, do próprio.
O teu portefólio é impressionante, parece ter sido cuidadosamente selecionado, não só pelos atores, mas também pelo enredo. Isso foi algo ponderado ou sorte?
Definitivamente, um pouco dos dois. Tento ser o mais consciente e específico possível nas minhas escolhas de papéis e projetos. Mas também preciso de sorte. E, até agora, bate na madeira, tenho conseguido conciliar os dois. Espero que continue assim. Mas sim, acho que é importante ser específico e consciente das minhas escolhas sempre que surge um novo projeto. Porque quero experimentar vários tipos de papéis e de géneros. Há tantos cineastas e atores incríveis por aí e não se pode trabalhar com todos eles. Mas podes fazer o teu melhor para tomar as decisões certas.
Parte disso é dizer sim a alguns papéis e dizer não a outros. O que te faz dizer sim?
É diferente de cada vez, sinceramente. Penso que, até agora, não houve um projeto ao qual eu tenha dito sim a que eu próprio não gostasse de assistir. Acho que isso influencia muito as minhas impressões iniciais sobre as coisas. Se leio algo e penso: "Bem, acho que não gostaria de ver isto", então não me dá vontade de o fazer.
E houve algum papel que tenhas recusado antes e do qual te tenhas arrependido?
Não, o que é estranho dizer em voz alta. Provavelmente houve, e talvez me tenha esquecido. Ou talvez me tenha esquecido conscientemente. Mas eu de facto demoro a tomar estas decisões. E certifico-me de que, quando as tomo, elas são bem ponderadas.
Também foi anunciado recentemente que foste selecionado para o papel de Halvard em Lord of the Rings: Hunt for Gollum (2027). Já podes revelar algo sobre isso?
Há muito pouco que possa dizer por agora. Estou incrivelmente entusiasmado por fazer parte deste mundo. Sou um grande fã desde pequeno, O Senhor dos Anéis teve um papel importante na minha vida. Não de uma forma estranha. [risos] Sempre adorei este filme ao longo das últimas duas décadas. E poder fazer parte dele, e saber que Ian McKellen vai continuar no papel, para além de Elijah Wood e, obviamente, Andy Serkis a fazer de Gollum, é incrível. Não sei se estarei no set com o Elijah, mas estarei com o Ian e o Andy. Vai ser surreal. E alguns dos novos atores como eu, como o Jamie Dornan, deixam-me muito entusiasmado. E, claro, a Kate Winslet... voltando à questão anterior, é alguém que terei muito gosto em conhecer pessoalmente.
Full look, SAINT LAURENT BY ANTHONY VACCARELLO.
Há mais pressão ao entrar para uma saga tão aclamada?
É uma boa pergunta. Penso que com The White Lotus, ainda estava no início da minha carreira e tinha feito alguns trabalhos aqui e ali, mas esse foi o papel que me lançou verdadeiramente. Mudou tudo. Estava muito focado em fazer o meu trabalho da melhor forma possível e a tentar ignorar a pressão. É difícil, porque a bitola que a primeira temporada tinha deixado era muito eleva- da. E acho que todos sentimos um pouco: "Será que vamos conseguir manter o nível na segunda temporada?". Com Bridget Jones, quando as filmagens começaram, já tinha um pouco mais de experiência, tinha amadurecido um pouco mais, e agora com O Senhor dos Anéis, foi mais ou menos a mesma coisa. Sinto-me tão sortudo, tão grato, tão abençoado por fazer parte disto. É um dos motivos pelos quais o faço, fazer parte de O Senhor dos Anéis é realizar um sonho de criança. Estou a esforçar-me para não sentir a pressão, porque não está tudo nas minhas costas. E o argumento é muito bom, acredito que este filme será incrivelmente gratificante para os fãs da saga. E até que conquistará novos fãs. Mal posso acreditar que me vou poder divertir com uma espada e um cavalo na Nova Zelândia. É muito emocionante para mim.
Penso que a fórmula que referiste antes, que é ir lá e dar o teu melhor, é sempre a melhor opção.
Sim, perceber que não está no meu controlo é importante. A única coisa que está é o meu próprio trabalho. Então, concentro-me nisso.
Full look, ZEGNA.
Sei que muitas audições, hoje em dia, acontecem através de vídeos gravados remotamente. Achas que é melhor ou pior gravar uma self tape em vez de fazer um teste presencial?
No início da carreira, preferia gravar self tapes porque te sentes mais no controlo. Não se fica nervoso com o realizador, o diretor de casting, seja quem for que esteja na sala. Esse elemento é eliminado. No entanto, agora, sinto exatamente o contrário. Acho que é muito melhor estar presente na sala, porque há uma energia. Podes alimentar-te dessa energia também e influenciá-la. E as pessoas na sala querem que te saias bem. Portanto, quando partilham uma observação, não é bem uma crítica. Ao passo que, quando se é um ator muito mais novo, é bastante fácil pensar: "Ah, bem, claramente fiz algo de errado" se me apontarem algo. Mas agora, com um pouco mais de experiência e maturidade, tiras isso da cabeça. E, na verdade, trata-se apenas de desfrutar, de aproveitar a oportunidade de brincar com a personagem e o guião e simplesmente divertires-te um pouco. E, mais uma vez, não está no teu controlo, há tantos fatores diferentes que influenciam se consegues ou não o papel. Por isso, tentar aliviar essa pressão é muito importante.
Leo Woodall já é um nome sonante. Qual foi a parte mais difícil de lidar com o reconhecimento, a fama e os aplausos na tua idade? Alguma vez te sentiste assoberbado?
Tem sido uma viagem. É uma viagem estranha, porque não se consegue ver da perspetiva de outra pessoa. Por isso, ainda é estranho para mim quando ouço coisas destas. Houve momentos em que foi um pouco avassalador. Toda a gente tem os seus dias maus, ou dias em que só se quer ser normal ou até mesmo invisível, e há muitos dias em que se consegue isso, e aqueles dias em que não se consegue, e em que se quer mesmo, podem ser difíceis. Mas acho que tento, e na maioria das vezes consigo, felizmente, levar tudo com boa disposição. E tento lembrar-me que é tudo um bocado tonto e que muita coisa não é real, e que, no final de contas, todo o reconhecimento, as vantagens e as dificuldades, vêm do trabalho e desse lado dele. Por isso, acho que tento colocar tudo em perspetiva e focar-me no trabalho o mais possível. E tento ignorar o ruído.

Full look, PRADA.
A cada novo filme e colega de elenco, levas certamente contigo algo dos teus pares. Qual o melhor conselho que já recebeste de um colega de elenco e quem o deu? Ou foram todos péssimos?
[Ri-se] Não, recebi muitos bons conselhos. Acho que o Dustin Hoffman já o disse algumas vezes, mas ficou-me na cabeça: tratar cada take como um ensaio, o que realmente transparece na forma como trabalha. Ele é tão livre, explora tanto e experimenta tantas coisas diferentes em cada plano, e no cinema podes fazer o mesmo porque terás outra oportunidade e, eventualmente, eles decidirão o que gostam e o que não gostam, e depois editam a cena, etc. Foi um conselho muito bom da parte dele. Renée Zellweger, já vinha a pôr isto em prática um pouco, mas ela realmente enfatizou a importância de te protegeres e à tua vida privada, e não te expores só porque te pedem. E eu também vi isso na prática, como ela se comporta e o faz com tanta elegância. É extremamente generosa, amorosa e uma pessoa simplesmente radiante, mas também pensa em si, e isso foi algo que eu realmente admirei e respeitei, e quis absorver um pouco para mim e imitar.
Deixas inevitavelmente algo de ti em cada personagem, mas será que as personagens que interpretaste também te influenciam, nem que seja só um bocadinho?
Tenho a certeza que sim, na maior parte das vezes, pelo menos para mim, não é consciente. Lembro-me que durante The White Lotus, ao interpretar aquela personagem, não fui de todo aos extremos dele, mas tinha aquela malícia, aquela sede de emoção e de diversão. Quer dizer, também foi muito fácil deixar que isso me influenciasse, porque era muito divertido e uma experiência nova. Foi um mundo completamente novo entrar naquele programa, profissional e pessoalmente. Estávamos na Sicília, hospedados no Four Seasons com um monte de gente simpática, por isso talvez, não sei, um pouco do Jack me tenha influenciado, mas não sei ao certo. Eu também tinha um pouco do Jack em mim, por isso talvez seja por isso que fui escolhido para o interpretar. Ou seja, a resposta é: não sei bem. Acho que isso acontece naturalmente, sabes? Não se apercebe, mas é uma espécie de diálogo entre ti e as personagens, por isso, eventualmente, elas tornam-se parte de si e tu tornas-te parte delas.
Imagem da esquerda: full look, DSQUARED2. Imagem da direita: full look, DOLCE & GABBANA.
Voltando a Lisboa, e à temporada que passaste em Portugal, foi a tua primeira vez? Apanhaste algum hábito português?
Não foi a minha primeira vez. A minha primeira vez foi em 2021. Estive apenas uma semana e apanhei COVID. Toda a produção parou, mandaram toda a gente para casa, menos eu, e tive de ficar confinado ao Pestana Palace, que não era de todo um mau sítio para ficar. Mas era Natal, por isso, passei as Festas no hotel, mas cuidaram bem de mim. Hábitos portugueses... quer dizer, tentei ao máximo adaptar-me às caminhadas. Para onde quer que vás, tens de fazer um trilho numa ladeira muito íngreme. Não era a minha coisa favorita, mas é uma cidade muito gira. Há muita coisa para fazer, para ver, a comida é boa. Há uma steakhouse muito boa onde fui algumas vezes, chamada Sala de Corte.
Conheço o chef de lá.
A sério? Quando voltar, vais apresentar-me ao chef.
Sim, com certeza. Ele vai ficar feliz por saber isso.
É um bom restaurante, e cuidam muito bem de ti. Além disso, qual é mesmo o nome das custard tarts...?
Pastel de nata.
Isso, são letais. Mas tão bons.
É por isso que se anda muito a pé em Lisboa, para queimar as calorias...
É, queimam-se as calorias todas.
Aprendeste alguma palavra em português?
Silêncio.
É uma palavra tão estranha de se saber.
Não sei se é porque falo demais... [risos] Não, é só porque era muito utilizada no set de filmagens. Eu já sabia "obrigado" e "desculpa". Mas "silêncio" foi a novidade.
Camisa e calças, BÉHEN. Tanktop, ZARA. Botas, AMBITIOUS.
Esta temporada em Lisboa incluiu também a sessão fotográfica para a capa da Esquire Portugal, como correu? E porque é que ainda é importante fazer esse trabalho para revistas em papel, para um ator?
Diverti-me muito a fazê-la. Foi muito bom. Eu sei que estava um bocado doente, mas correu tudo muito bem. Estávamos naquele Palácio [do Grilo] realmente incrível. Foi muito giro e acho que... bem, para ser sincero, não tenho uma resposta concisa para explicar porque é que acho tão importante que os atores façam estes ensaios fotográficos para capas de revista, mas posso dizer que é uma adição divertida ao nosso trabalho. Obviamente, vestem-se figurinos e experimentam-se diferentes facetas das personagens, e fazer ensaios como o da capa da Esquire permite levar-te, não necessariamente a um novo patamar, mas a uma direção diferente. E é um exercício interessante de interpretação, porque, como é diferente daquilo a que estás habituado e não estás a falar, consegues praticar uma quietude e uma introspeção muito maior da personagem do que terias se estivesses a falar num set de filmagens e a fazer um monte de coisas estranhas.
Faz sentido? Sim, faz todo o sentido.
Um bom exemplo é que, sabendo que não tens muitas oportunidades para o fazer, em sessões como esta, consegues ir além dos limites, porque usas roupas ainda mais extravagantes do que usarias num papel, e estás em cima de uma estátua enorme, indo a extremos ainda maiores. Acho divertido explorar os limites desta forma. As pessoas pensam que, por ser ator, pode ser mais fácil, mas também pode ser mais desafiante, porque não tens a muleta de falar e de te mexer; precisas de estar parado, e essa imobilidade precisa de mostrar tudo, precisa de mostrar mundos diferentes. Definitivamente, acho mais desafiante fazer isso do que representar.
Full look, GIORGIO ARMANI. Botas, AMBITIOUS. Anel e fios, do próprio.
A Esquire Portugal agradece ao Palácio do Grilo por todas as facilidades concedidas. Editorial realizado em exclusivo para a Esquire Portugal.
Originalmente publicado na Esquire Portugal, na edição de maio de 2026, disponível aqui.
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