Há um a.C e um d.C. — antes e depois de Condessa —, na representação. Mas o ator não distingue os dois tempos. A representação nunca assumiu um pretérito perfeito, na sua vida. Foi sempre presente do indicativo. Entrevista de Sara Andrade. Fotografia de Luis Monteiro. Styling de Mónica Lafayette.
A representação era algo que tinha de fazer, ponto final. De tal forma, que ir para a escola de teatro foi algo que fez contrariando a preocupação dos pais, nomeadamente da mãe. “Acho que o medo da minha mãe era mais: o que é o futuro para uma pessoa do teatro?” No caso de José Condessa, o futuro é risonho: com apenas 29 anos, já se destacou em diversas novelas, peças de teatro e séries de televisão aquém e além fronteiras. Estreou-se em 2015 na novela Jardins Proibidos, a primeira de muitas, como Santa Bárbara (2015), A Herdeira (2017), Bem Me Quer (2021) e Cacau (2024), mas foi a série da Netflix, Rabo de Peixe (2023, uma produção portuguesa já na terceira temporada realizada por Augusto Fraga), que o catapultou para um lugar de não retorno, nacional e internacionalmente. Não foi a primeira vez que colocou o pé “fora de casa”: em 2020, participou na novela brasileira Salve-se Quem Puder, da Rede Globo, e fez também a curta-metragem de Pedro Almodóvar, Estranha Forma de Vida (2023), tornando-se o primeiro ator português a trabalhar com o aclamado realizador.
A internacionalização é bem-vinda mas não esmorece a vontade de continuar a trabalhar em Portugal, não só no pequeno e grande ecrã, mas também nos palcos de teatro, que continuam a apaixoná-lo. Aliás, o mesmo palco que sanou as preocupações da mãe: “Nós tínhamos uma prova de aptidão profissional final, na escola de teatro de Cascais, em que fazíamos uma apresentação ao público. E eu fiz 30 dias, porque era o protagonista, de uma peça que se chama Peer Gynt, do [Henrik] Ibsen, e que tinha mais ou menos 3 horas e 40, e a minha mãe, dos 30 dias, viu 24. O Carlos Avilez, na altura, arranjou uma plaquinha e pôs o nome dela numa cadeira. Porque ela já era assídua, aquele lugar era dela. O medo da minha mãe era o medo de qualquer pai. Não que não compreendesse a paixão, porque eu desde sempre fiz teatro amador, como o meu pai que também é ator amador, a minha irmã também fazia teatro amador. Não era por falta de noção do que era aquela paixão, era por medo desta inconsistência do trabalho, que está completamente certa. O ser ator é viver constantemente numa luta entre o que tu queres fazer enquanto artista e o que tu precisas de fazer para continuar a sobreviver.”
Achei curioso alguém que está estabelecido na indústria como tu dizer “a minha mãe tinha razão, é muito difícil viver disto”. Mesmo com todo o sucesso, é uma luta, ainda?
Há dois caminhos para essa resposta, e acho que se completam bem. Sim, é uma luta constante, é inegável, mas também porque os trabalhos têm prazo de validade e depois ficas sempre com a sensação de “o que é que vem depois?”, “será que perdi tudo aquilo que construí?”, “será que nunca mais me vão chamar?, “será que se esquecem?” E a segunda parte, e que lhe é indissociável, é que eu sou um privilegiado, um privilegiado que sabe o que é a realidade, olho para os meus pares e para as pessoas que estudaram comigo na escola de Cascais, e para aqueles que continuam a trabalhar comigo em televisão e em cinema, e não sou totó, não é regra para todos. E não é só uma questão de dizer eu sou privilegiado antes de qualquer frase; é ter noção de que não é uma realidade no nosso país. E por isso acho que sou um sortudo, e por isso é que dou esse valor. Agora, isso não me impede, enquanto artista, de lutar pelos direitos que se calhar não preciso hoje.
Full Look, DIOR WINTER 26 MENSWEAR.
Também batalhaste por ter esse privilégio.
Muito, acho que é muito essa batalha invisível, e acho que é o momento agora de falar bem de mim e dos meus, que eu me identifico também, mas acho que é honroso não te esqueceres daquilo que tu és, e não esqueceres a luta que tiveste, porque neste momento tens alguma visibilidade, voz, deves usá-la naquilo que tu acreditas, e não te esqueceres daquilo em que acreditavas quando era difícil. Porque a outra forma de ver isto seria “eu vou ficar calado porque já cá estou e não quero que alguém venha fazer-me cócegas”. E eu acho que é o contrário: eu quero que alguém me inquiete, porque todos nós temos de ter oportunidade.
Um ponto de viragem na tua carreira foi Rabo de Peixe. Há três temporadas que és o Eduardo Melo. Preocupa-te ficares colado a uma personagem?
Nunca tinha pensado em ficar agarrado à personagem. As pessoas acarinharam tanto esta série, mesmo lá fora, não tenho medo algum de ser associado a Rabo de Peixe, é um projeto de que me orgulho muito, foi muito importante para nós e já disse isto várias vezes. Tenho orgulho de ter feito esta série, de tê-la feito com as pessoas com quem fiz e acima de tudo de ter conhecido o Augusto [Fraga], que é um dos meus melhores amigos nos últimos cinco anos e com quem tenho criado muito também fora do Rabo de Peixe, temos crescido muito juntos e preparado coisas muito bonitas que se tudo correr bem vão ser também de sucesso e sim, algumas já estão a acontecer e esperemos que sejam também tão acarinhadas como Rabo de Peixe. Mas não tenho medo de ficar agarrado a isso, tenho feito outras coisas e acho que temos de estar felizes. Se me disseres “esse vai ser o teu projeto mais reconhecido”, claro que há uma tristeza, por quereres sempre fazer alguma coisa melhor, queres sempre evoluir.

Camisa e calças, LUIS CARVALHO. Acessórios, LUIS CARVALHO x TOPÁZIO.
Ainda sobre Rabo de Peixe, recusaste um duplo para o salto do telhado. És alguém que gosta de testar os seus limites ou é só uma questão de method acting?
Não, não, zero method. Eu gosto de testar os meus limites, de explorar o que é ser ator. No dia em que nos balizarmos com regras, estou morto como artista, e isso eu tento trazer um bocadinho para tudo na forma como lido com aquilo que me é exigido dentro de um set, em frente a uma câmara, na preparação... também muda completamente de personagem para personagem, tenho ritmos diferentes, tenho hábitos diferentes, rotinas que também mudam de teatro para cinema, para televisão e isso também acontece em certas personagens, o facto da personagem ter um lado físico que me é exigido eu gosto de o procurar, seja visualmente como esse salto em Rabo de Peixe — que o Augusto não queria que eu fizesse — mas também acho que é necessária essa rebeldia como ator de “eu faço e fiz porque o próprio Eduardo é uma personagem a que ninguém traça o seu destino”. Se calhar uma outra personagem muito mais certinha não me teria acrescentado aquele salto, aquela irreverência.

Gravata, ASCOT, na Loja das Meias. Botas, JOHN LAKES.
Como é que um ator se desliga de um papel que encarna 10, 12, 16 horas por dia?
A experiência tem-me trazido uma coisa que é um bocadinho contrária ao que costuma ser dito e às vezes até penso se sou eu que estou um bocadinho errado, mas dá-me cada vez mais gozo brincar com o on e off; em vez de ter pressa de sair, gosto de viver na personagem de forma prolongada, mesmo fora do horário. Não é aquela questão de levar um método à exaustão e trazê-lo para casa e trazer esses demónios e tudo, acho que as coisas devem ficar em algum lugar, mas gosto de brincar com essa linha tão ténue porque às vezes, quando se fala sobre isto, não se fala de uma forma clara e eu, como ator, quero trazer a personagem perto de uma realidade tão real que se confunda comigo. Não sendo eu o Zé, mas que possa ser verosímil, que aquela pessoa existe, aquela voz, aquele corpo, aquela forma de estar e ser e imaginar, isso dá-me um gozo enorme, viver esses coração partidos ou essas felicidades extremas ou essas tragédias porque me alimentam também depois como o Zé sozinho. Gosto desse prazer de ir mais longe e não ficar pela rama.

Camisola, VUE SUR MER, na Loja das Meias. Camisa, LUIS CARVALHO. Gravata, ASCOT, na Loja das Meias. Calças, FRED PERRY. Sapatos, MARIANO.
Entraste no Estranha Forma de Vida do Almodóvar. Como é que esse papel te moldou ou mudou enquanto ator?
Muito. Tive a sorte de trabalhar com o Almodóvar a meio da primeira temporada de Rabo de Peixe. Isto é engraçado porque quem acredita em numerologia, há alguma coisa cósmica, porque ambos estrearam mundialmente a 26 de maio de 2023. Tem graça porque são dois projetos díspares — um muito mais comercial, no bom sentido (eu odeio a palavra comercial como é dita, mas tenho orgulho dela) e outro que é cinema de autor, de alguém completamente estabelecido, e que é o Almodóvar. O que me trouxe, trabalhar com o Almodóvar, é que nós filmámos muito mais do que aquilo que foi depois usado. Então, o processo todo, das cenas que foram construídas e a preparação com os atores, com o resto do elenco, a falar com o Ethan Hawke, com o Pedro Pascal, com o próprio Almodóvar, foi o que me alimentou mais como ator. Parecia que estava outra vez sentado numa escola de teatro a falar com os mestres e a ouvir. Acima de tudo, com os dois Pedros, pronto, o Almodóvar e o Pascal, com quem eu estive muito, sentir que consegues ser um génio mundialmente conhecido e ser merecedor desse reconhecimento sem seres um merdas. E, às vezes, é bom cruzarmo-nos com pessoas que são um exemplo disso, para nunca cairmos no engano de que temos de mudar aquilo em que acreditamos como pessoas, no trato humano, do dia a dia, para atingir algum patamar de excelência, que temos de perder alguma coisa que é mais comum. Eu acho que é o contrário, faltam pessoas que consigam levar para esse lugar de excelência o dia a dia. Podia falar mil coisas que o Almodóvar me trouxe, mas, acima de tudo, saber que é possível ser humano e ter sucesso.
Full Look, SAINT LAURENT BY ANTHONY VACCARELLO.
Tens um plano ou uma vontade de te internacionalizares, além daquilo que Rabo de Peixe já foi e já fez por ti?
Sim, claro. Eu acho que essa vontade de ser internacional nasce do que falámos, de ter desafios diferentes. Não por ser internacional por si só. Eu acho que ser internacional não quer dizer que seja bom e acho que ser nacional não quer dizer que não seja bom. Isto é claro para mim. Ou seja, o ir para fora só por ir, vou de férias. Acho que o que eu tenho feito nos últimos anos, e a seguir a Almodóvar também tive a oportunidade de fazer já mais dois projetos em Espanha, e alguns ainda vão estrear agora, e muito no Brasil, acho que tem a ver com o facto de ter a oportunidade de tentar atingir sempre um bocadinho mais. Eu não tenho um plano traçado, mas quero trabalhar muito com pessoas que me alimentam e isso também passa por Portugal. Eu não quero nunca deixar de trabalhar cá. Eu quero muito ter a oportunidade de fazer parte desta geração que está a fazer coisas boas cá e para o mundo. Se já demos um primeiro pontapé na porta, agora é irmos todos.

Full Look, SAINT LAURENT BY ANTHONY VACCARELLO.
Essa sofreguidão de conquistas é o que te continua a motivar?
Eu comecei com o meu pai no teatro amador. Tudo o que é teatro, arte, representação, é sinónimo de amor. De, perante o cansaço das pessoas que vinham do trabalho às nove da noite, ainda iam fazer ensaio, porque gostavam, ninguém lhes pagava, ninguém queria nada mais do que só fazer teatro. Isso é exemplo de não desistir ao primeiro projeto que não resulta. Essa renovação constante, essa inquietação de procurar algo que mantenha a chama viva, é o meu dia a dia. E isso tem a ver com a forma como sou: quero fazer mais, ir mais longe, fazer diferente e a diferença... é uma coisa saudável porque não é uma competição com ninguém ao meu lado, é uma competição comigo mesmo. Mas é bom quando a competição é saudável, quando dizes quero trabalhar com esta pessoa, aprender, beber dali, tentarmos fazer melhor ainda, porque eu acho mesmo que o trabalho de ator não é solitário e o caminho não é feito sozinho.
Camisa, calções, gravata, botas e sapatos, SAINT LAURENT BY ANTHONY VACCARELLO. Meias, da produção.
Dizem que o traço mais recorrente das pessoas com sucesso é a insegurança e a síndrome de impostor. Sentes isso?
Nunca tive síndrome de impostor. Há uma certa dose de confiança e egocentrismo que é necessária para saber que estás a fazer as coisas certas. Podem estar completamente erradas, mas o tentar... acho que isto se aprende também na escola de teatro, o dares o passo, é motivo para aplauso ainda que caias no chão. E o aplauso pode ser só o meu. Se eu tenho inseguranças? Tenho. Mas não perco muito tempo nesses lugares e não é porque tenho de me tirar de lá; no fim, digo, “eu consigo, se alguém consegue sou eu”. Posso não conseguir, mas não te faz empancar muito tempo no mesmo lugar. Volto a dizer, tem de ser bem doseado este egocentrismo, mas há um lado de confiança em ti que te pode levar mais longe. Que é necessária. Há uma coisa que me ajudou muito na vida, que foi o futebol. Comecei a jogar com cinco anos (na mesma idade em que comecei a fazer teatro). E há ali uma provação literalmente de queda, de se arranhar fisicamente, de continuar, de serem todos bué grandes, eu era muito pequenininho, de levar encontrões, esse lado físico de ser difícil de chutar a bola e de veres que a insistência te leva a um lugar, ao menos de orgulho em ti, mesmo que o remate saia ao lado, mas já sai do teu pé. E quando trazes isso para o palco, para o ensaio que corre mal, no dia seguinte tentas outra vez. Há um momento em que de repente começas a andar e, nesse momento, não há nada a não ser aplaudires-te a ti mesmo. E esse é o egocentrismo de acreditares que se há alguém que é capaz, és tu. Porque é fácil acreditar que se há alguém que vai falhar, és tu. Tomada de responsabilidade, eu puxo para mim.

Full Look, LOUIS VUITTON.
Uma consequência dessa motivação e egocentrismo controlado é a quantidade de projetos que tens entre mãos...
Vai estrear este ano ainda uma série da Netflix Espanha, que se chama El Problema Final, é baseada numa obra do Pérez Reverte, que ele voltou a revisitar no estilo policial. É uma espécie de Poirot, digamos assim, Sherlock Holmes, Poirot, em que há um crime numa ilha, estão só nove pessoas lá e todos são suspeitos. É o meu primeiro trabalho em espanhol, porque o Almodóvar foi em inglês. Depois tenho também uma série, Os 12 signos de Valentina, que é uma série da Netflix Brasil e foi um desafio grande, com muitos meses de preparação. É um elenco muito fixe. Toca ali num lado meio de comédia que eu adoro, por ter feito tanta tragédia e tanto teatro de drama, às vezes não tenho oportunidade de explorar esses lugares porque somos catalogados um bocadinho. Ou nós próprios nos catalogamos. Tenho também Vindima, um filme português do Luís Galvão Teles, de uma obra do Miguel Torga, e que vai estrear também este ano. Vou agora para o Brasil trabalhar outra vez num filme... Para 2027, outras coisas.
Full Look, LOUIS VUITTON.
Blazer e calças, LIDIJA KOLOVRAT. Top, EMPORIO ARMANI, na Loja das Meias. Sapatos, CENTENÁRIO.
O que é que te mantém com os pés assentes na terra?
É o amor. O amor a tudo. À minha família, aos meus amigos, à terra. Eu sou muito nostálgico. E a nostalgia leva-me para um lugar de lembranças positivas. É não esquecer o que as pessoas fizeram por ti. De alguma maneira, segues o legado daqueles que acreditaram em ti. Mesmo que ninguém te cobre isso. Eu, pelo menos, tenho isso em mim. Lembro-me de me terem apoiado no início, de me terem dado a primeira oportunidade, lembro-me do primeiro grupo de teatro amador, lembro-me dessas pequenas coisas de quando alguém faltou no teatro e alguém disse “ele faz isso, ele é pequenino, mas ele consegue”. É devolver essa confiança que se calhar a minha mãe teve, apesar do medo. Deixar-me inscrever no último dia, na escola de teatro. Apesar de ter medo também tenho de continuar a inscrever-me, sabes? Devo-lhes e devo-me porque fui eu que quis começar esta caminhada. Sem cair em clichês, ser grato.
Full Look, LIDIJA KOLOVRAT. Sapatos, AMBITIOUS.
Haveria alguma coisa que te faria desistir disto tudo? Deixar a representação para trás?
Não. Não mesmo. Estava agora a pensar em coisas... Eu acho que coisas muito boas que posso imaginar ou coisas muito más que me possam acontecer... veria na arte sempre um caminho de... salvação, de escape, de tudo. Em último caso, de grito. Seja um grito de alegria ou de dor. Eu continuo a dizer, se isto tudo correr mal, eu tenho o meu teatro amador. Vou continuar a ser feliz em cima de um palco, seja para não sei quantos milhões de pessoas ou para quatro que vão ao teatro à sexta-feira.

Sobretudo, DIOR WINTER MENSWEAR.
Editorial realizado em exclusivo para a Esquire Portugal. A Esquire Portugal agradece à Fundação Calouste Gulbenkian e a Street Smash Burgers pelas facilidades concedidas.