Happiness, 1998, de Todd Solondz
O planeta das miúdas tem as suas próprias regras tácitas. Uma delas é que a primeira impressão estabelece um horizonte de futuro. Assim, não basta aos rapazes serem como são. Eles têm de estar no seu melhor, assumirem-se como homens, reconhecerem a importância cerimonial do primeiro encontro.
Nos dias em que não me sinto uma marciana a pisar os terrenos desconhecidos dos encontros modernos, permito-me um pouco de otimismo. Há algo inegavelmente esperançoso em ir ao encontro de um completo estranho que, se as circunstâncias o permitirem, pode tornar-se a pessoa mais importante neste mundo. Cada um à sua maneira, todas nós temos a paixão dos presságios. Sinais que antecipam o que aí vem! Um bom primeiro encontro pode ser a antevisão de algo maior, pode ser um vislumbre fugaz, quase cinematográfico, do que a vida nos dará. É uma espécie de trailer, um condensado que resume em poucas horas os momentos mais intensos que só o futuro pode desvendar. Tal como acontece com as coisas que valem a pena serem bem feitas, o primeiro encontro tem as suas próprias regras tácitas. Se é um homem que espera causar uma impressão duradoura, não se trata apenas de aparecer: trata-se de como aparece. Há vários aspetos a ter em conta quando se aterra no planeta das miúdas.
Ser pontual
Para começar bem, por favor, chegue a horas. Para tal, tem de antecipar imprevistos que provoquem atrasos. Apareça, pelo menos, um minuto mais cedo. E se acontecer um impedimento, avise com antecedência. Ela fica menos ansiosa e consegue evitar nela um sentimento de abandono — mesmo que dure apenas alguns minutos, ela pode interpretar esse primeiro sentimento como o prenúncio de algo a temer em si.
Ir arranjado
Ela não comprou bilhete para ver um documentário sobre o estado do seu quarto ou do apartamento em que vive. Ela candidatou-se apenas a conhecer um rapaz bem-intencionado que apareça e vire a vida dela de cabeça para baixo, com alegria e entusiasmo. É essa a expetativa com que vai lidar, escusa, portanto, de ser coerente com a sua rotina de mastronço. Aproveite a oportunidade para se apresentar alguns degraus acima do melhor que reconhece em si mesmo. É um favor que lhe faz e a si também.
Ir preparado para conversar
Não precisa de pesquisar temas para iniciar a conversa, mas esforce-se por abordar assuntos significativos e divertidos para a manter interessada. Um homem fica mais atraente quando sabe conversar e sabe conversar bem. Não precisa de concordar com tudo o que ela diz, mas tente encontrar aspetos conciliatórios, que reforcem o seu ponto de vista. Não esteja sempre a mudar de assunto, mesmo que seja para evitar melindres e tempos mortos. Faça-lhe perguntas que mostrem a sua curiosidade, mas evite ser indiscreto. A bisbilhotice, assim como a má-língua, é uma manifestação de insegurança e de frivolidade.
Não falar da ex
Às vezes acontece, por isso o melhor é estar alerta para evitar o assunto, principalmente no primeiro encontro. Se ela precisasse de conhecer a sua ex, estaria a encontrar-se com ela antes de se encontrar consigo. Desvie-se também da rasteira que é falar do seu “tipo”. Pouca gente gosta de ser engavetada em “tipos”. Pode não saber quem ela é, mas tem de a respeitar e de respeitar o tempo que lhe tomará para mostrar quem é.
Não gabar
Transformar o primeiro encontro numa promoção publicitária é desmotivante e sabe bem como a publicidade pode ser enganosa. Evite falar de sexo, a não ser que ela force o assunto, e mesmo assim seja reservado, tente ganhar perspetiva do assunto, não se comprometa. Pode ser uma rasteira. Perigo! Está a ser testado! A máxima “os homens dão atenção às mulheres para terem sexo, as mulheres têm sexo para obterem atenção” pode não ser verdadeira, mas para um primeiro encontro de certeza que é! Mencionar proezas, mesmo que discretamente, é um alerta vermelho para qualquer mulher que não esteja perturbada.
Não ser mesquinho
Uma mulher investe muito do seu tempo e dinheiro a preparar-se para sair de casa, ritualizando, com pequenas encenações de si mesma, os encontros, inclusivamente em ocasiões de rotina. Mesmo que se apure, dificilmente investirá tanto como ela investe. Ora se a conta dela já está pesada, não seja mesquinho, agora que chegou a sua vez de pagar. Ela apareceu para conhecer um homem generoso, por isso, por favor, não a desminta. Não precisa de se armar em mãos largas, desde que não se assuste com a conta.
Ser um bom ouvinte
Oiça. Oiça bem. Está a ouvir? Não, não está. Está só a ouvir-se a si mesmo a convencer-se de que está a ouvir, mas continua a dar mais atenção à sua voz interior. Concentre-se no que ela diz, foque-se e não comece já a interpretar as palavras que ela disse antes de terminar de as dizer. Muitas vezes, as pessoas estão tão obcecadas em contar o seu lado da história que mal ouvem ou retêm alguma coisa da conversa. Antes de dar a sua opinião, faça o seguinte: depois de escutar, confirme com ela que entendeu corretamente o que disse.
Ir além da aparência
É da natureza humana ser atraído pelo visual. Mas se se concentrar apenas na aparência, ela pode concluir que é fútil. E em vez de querer ficar, começará o contrarrelógio para se ir embora. Se tem um fundo por baixo procure ir além da superfície, explore atributos mais envolventes. Estabeleça uma ligação que não seja apenas momentânea, episódica. Que permaneça. Mesmo que não saiba como fazer tal coisa, ter vontade já é um bom sinal, e a ocasião vai aparecer para dar prova disso.
Não usar calão
A menos que tenha intenção de estragar o encontro, evite uma linguagem demasiado informal. Não se vai encontrar com os seus camaradas, por isso escusa de falar como se estivesse na companhia deles. É uma forma de manifestar a sua incapacidade em sair do ambiente de rua e se adaptar a novas circunstâncias, como a delicadeza que antecede momentos de intimidade.
Before Sunrise, 1995, de Richard Linklater
Praticar os mais elevados padrões de higiene
Mesmo que se considere um bom observador, considere a possibilidade de se encontrar com alguém que o faça três vezes melhor. Unhas bem cortadas, pele hidratada nas mãos e nos cotovelos e um nariz que não esteja a brilhar como um pirilampo já são um bom ponto de partida. Siga os padrões de exigência que estabelece para o sexo oposto, isso já ajuda. Todas as áreas do corpo que despertam a sua atenção podem despertar a dela também. O pior que pode acontecer a uma parte do corpo que nos atrai e causa prazer é não estar imaculada.
Não fazer figura de distraído
Desligue o telemóvel e estude o local em que se encontra, não para ficar atento às suas atrações, mas para evitar distrair-se com elas. Pode achar que são pormenores sem importância, mas de cada vez que desvia o olhar da pessoa que está a conhecer, isso é um sinal a querer dizer que não a acha digna da sua atenção e curiosidade. Que qualquer estímulo, um ruído que seja, é mais interessante do que a sua presença. É óbvio que não o faz de propósito, por isso comporte-se com propósito. A pessoa com quem está é o protagonista do encontro, não a última pessoa que acabou de atravessar a sala.
Ser autêntico, mas…
A autenticidade é um ativo tão prestigiante como qualquer outro bem, mas como é imaterial não se pode perder nem desvalorizar. É um sinal de carácter, como uma rocha que resiste à mentira e à hipocrisia. Ser autêntico, ainda assim, não é um passaporte para ter um comportamento detestável. “Ser verdadeiro” por vezes é apenas uma desculpa para quem não quer abdicar dos seus preconceitos nem dos impulsos mais selvagens. Ser autêntico não significa vomitar o nosso instinto, mas antes acautelar a possibilidade de dizermos ou fazermos algo de que nos podemos vir a arrepender. Se se mostrar um tipo genuíno, sem as típicas encenações ensaiadas à pressa para primeiros encontros, ela vai sentir-se mais à vontade e ficará tranquila na sua companhia. E a tranquilidade, na companhia de alguém, é já uma manifestação de felicidade.
Ir preparado para a desilusão
Às vezes, corre mal; outras vezes, não é o que espera. Quando tal acontece, tem uma oportunidade de mostrar um comportamento exemplar. Dê o seu melhor, seja cordial, converse honestamente. Se estiver interessado, mas ela não, agradeça-lhe na mesma, diga que gostou muito de a conhecer, apesar de tudo. Mostre que pode ser uma pessoa impecável, digna, mesmo quando as coisas não lhe correm bem. Se exibir o seu cavalheirismo até ao fim, lembre-se que ela ainda pode mudar de opinião. Lembre-se que pode conhecer outras pessoas que venham a cruzar-se consigo. Se permanecer gentil, ficará também orgulhoso da sua capacidade de controlo, mesmo perante um revés.
Oferecer boleia
Há uma linha muito ténue entre ter o comportamento de um cavalheiro e de um tipo esquisito que rapidamente ameaça tornar-se um predador. Pergunte-lhe como tenciona regressar, se se sente segura, se precisa de ajuda para alguma coisa. Se quer boleia ou prefere que a acompanhe a pé no regresso a casa, nem que seja parte do caminho. Em vez de lhe propor isso de forma direta, o que pode ser considerado um atrevimento, mostre-se disponível, prestável. A confiança é algo difícil de conquistar. Se logo no primeiro encontro conseguir inspirar segurança e responsabilidade, tem uma forte hipótese de ser considerado para encontros futuros.
Originalmente publicado na Esquire Portugal, na edição de maio de 2026, disponível aqui.
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