Rafael Leão comemora o quinto golo da sua equipa durante o jogo entre Portugal e o Uzbequistão. Fotografia: Charlotte Wilson/Getty Images.
As duas primeiras jornadas do Mundial fazem pensar num festival onde as grandes estrelas, as vedetas, convivem com gente comum, que até os vizinhos ficam surpreendidos de vê-los na tv.
Olhamos para certos jogadores em fim de carreira e ficamos a imaginar a dieta, os métodos de exercício, a tecnologia e a medicina envolvida para mantê-los jovens, da mesma maneira que nos perguntamos qual é a dieta, os métodos de exercício, a tecnologia e a medicina envolvida para manter a Nicole Kidman, ou a Julianne Moore, ou o Tom Cruise com aspeto de ainda viverem nos anos 80 do século passado.
Olhamos para as equipas favoritas, compostas de jogadores milionários, a competirem na Champions e nas melhores ligas europeias e reconhecemos Hollywood em futebol. Depois olhamos para os jogadores das equipas do médio oriente, do norte de áfrica, do Caribe, que até podem estar a jogar na Europa, só que na Roménia, na Sérvia, na Lituânia, em equipas de segunda e terceira divisão, e muitas vezes a jogarem por fora, no banco de suplentes.
Nestas pequenas equipas, que nunca antes foram a um Mundial, e que dificilmente cá voltarão, reconhecemos os rostos dos nossos vizinhos, a mesma gente endurecida pela vida e as dificuldades que encontramos na rua e nos transportes. Chegam a este Mundial como quem ganha a lotaria, arriscam tudo em cada jogada, como disso dependesse a forma como serão valorizados para a eternidade.
Este Mundial já revelou alguns jovens, como Ayyoub Bouaddi, Alexander Freeman, Yasin Ayari, Yan Diomande, Ibrahim Mbaye, mas isso são estrelas em ascensão. Se tudo correr bem o seu lugar é na Hollywood do futebol. Eu refiro-me aos heróis por um dia: a Vozinha que não sofreu nenhum golo contra a Espanha; a Lenini que marcou o primeiro golo de Cabo Verde num Mundial; a Comenenceia que marcou um golo contra a Alemanha. Os restantes nem heróis serão, terão apenas algumas imagens para marcar a ouro a lata da sua história de vida. É o futebol-verité, o futebol como a vida é, um vale de lágrimas e um dia de festa.
_Top Esquire