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Gabriel Antunes: “A representação permite-nos expressar emoções com honestidade”

By Esquire Portugal 17 Jul 2026

Num editorial e entrevista com a Esquire Portugal, Gabriel Antunes desvenda uma nova faceta e fala-nos sobre como a vontade de dar vida a histórias e personagens moldou, desde cedo, a sua vida – dentro e fora das fronteiras lusitanas. Fotografia de Dino Sablić. Entrevista de Rita Petrone.

Gabriel Antunes é um misto de identidades exemplar. Ator de profissão e luso-americano de nacionalidade, cresceu entre diferentes países, culturas e papéis. Agora, baseado em Londres, tem vindo a solidificar-se como um dos talentos a ter em conta no que ao universo da representação diz respeito. Entre o cinema e a televisão, já integrou projetos como o filme Hey Joe (2024) – de Claudio Giovannesi, apresentado na 19ª edição do Festival de Cinema de Roma –, a série da BBC Three What It Feels Like for a Girl – nomeada para vários prémios BAFTA – e Eloise – o novo filme da Netflix, realizado por Amy Sherman-Palladino e produzido e protagonizado por Ryan Reynolds.

Cresceste entre diferentes países, línguas e culturas. De que forma é que sentes que isso impactou a forma como olhas para o conceito de identidade e casa?

Acho que foi um privilégio enorme poder crescer entre diferentes mundos. Ao mesmo tempo, senti-me muitas vezes um pouco como um outsider, sobretudo quando era mais novo. Hoje, vejo isso como uma vantagem. Aprendi a adaptar-me facilmente e a encontrar pontos em comum com pessoas muito diferentes. Fez-me perceber que "casa" é muito mais sobre as pessoas e o sentimento de pertença do que sobre um lugar específico.

Camisa, SAKS FIFTH AVENUE. Camisa (por baixo), calças vintage, cinto e pulseira, do próprio.

Imagem da esquerda: camisa, SAKS FIFTH AVENUE. Camisa (por baixo), calças vintage, cinto e pulseira, do próprio. Imagem da direita: casaco vintage e fio, do prórprio.

Imagem da esquerda: camisa, SAKS FIFTH AVENUE. Camisa (por baixo), calças vintage, cinto e pulseira, do próprio. Imagem da direita: casaco vintage e fio, do prórprio.

Quais são as tuas primeiras memórias do mundo da representação? E quando é que sentiste que passaste de “querer ser ator” para sentir que eras, de facto, ator?

Desde pequeno que adorava entreter as pessoas. Na escola primária, fazia truques de magia, malabarismo... Mas entrei no mundo do teatro quase por acaso. Na altura, pensei que o curso de Artes do Espetáculo, no secundário, ia ser mais direcionado para as artes circenses, mas começámos logo com teatro no primeiro dia. Acho que foi depois da minha primeira peça que percebi que queria continuar na representação. O momento em que senti que era realmente ator veio mais tarde, quando comecei a trabalhar profissionalmente e percebi que já não era apenas um sonho, mas a minha profissão.

O que é que achas que o universo da representação te permite fazer que a vida real não permite?

Ser completamente honesto. Acho que, hoje em dia, as pessoas sentem cada vez mais pressão para usar uma máscara, para suavizar as opiniões ou esconder aquilo que realmente sentem, quase para não incomodar ninguém. A representação permite-nos expressar essas emoções com honestidade. Podemos estar a viver circunstâncias inventadas, mas, no centro de tudo, está sempre a verdade.

Camisa, SAKS FIFTH AVENUE. Camisa (por baixo), calças vintage, cinto e pulseira, do próprio.

Como é que te preparas para dar vida a um novo papel? Para ti, interpretar uma personagem é um exercício de empatia ou de imaginação?

Acredito que cada projeto pede uma abordagem diferente. Há personagens que aparecem quase naturalmente e outras que exigem muito mais trabalho. Antes de pensar em qualquer metodologia, gosto sempre de perceber bem a história, o mundo da personagem e as circunstâncias em que ela vive. A partir daí, acho que entra tanto a empatia como a imaginação. Uma ajuda a compreender a personagem, a outra ajuda a preenchê-la.

Casaco vintage e fio, do prórprio.

Casaco vintage e fio, do prórprio.

Falas várias línguas. Sentes que cada uma desbloqueia uma versão diferente de ti enquanto ator?

Como ator, não sei se sinto propriamente isso. Já aconteceu trabalhar um texto numa língua e traduzi-lo para outra para perceber melhor o que me estava a pedir, e isso pode mudar a forma como o interpreto. Mas, por hábito, quando estou a trabalhar tento sempre praticar a articulação e a pronúncia para regressar a um lugar mais neutro. Depois chego a casa e falo tão mal que, às vezes, até fico com vergonha.


Há alguma personagem que tenhas interpretado e que tenha ficado contigo muito depois de terminarem as filmagens?

Por acaso, recentemente, interpretei uma personagem da alta sociedade da época vitoriana. Como passava muito tempo a caminhar de braço dado com outras personagens, fiquei com esse hábito. Agora dou constantemente o braço à minha namorada: na rua, nas lojas... Ando muito finório.

Em "Hey Joe" (2024), interpretaste uma versão mais jovem da personagem de James Franco. Como foi essa experiência e até que ponto achas que o desafio é criar alguém novo ou preparar o terreno para outro ator?

O James já tinha gravado quase metade do filme quando comecei a filmar. Por isso, decidi confiar muito na visão do realizador. A história estabelece vários paralelos entre as duas versões da personagem, o que ajuda a criar essa ligação para o espectador. O desafio foi encontrar um equilíbrio entre construir a minha própria interpretação e preparar o caminho para aquilo que o James já tinha feito.

O que procuras num argumento para dizer “sim”? Há algum padrão nas histórias que escolhes?

Acho que me sinto mais atraído por histórias naturalistas. Gosto muito daqueles conflitos de "baixo risco", em que o maior problema das personagens são situações com que qualquer pessoa se consegue identificar. Dito isto... também adorava fazer de vilão.

Houve algum momento nesse projeto em que sentiste que estavas a dar um salto importante na tua carreira?

Absolutamente. Estava em Londres, num ensaio para uma peça, e, quando acabou, vi que tinha imensas chamadas perdidas. Liguei de volta e era o diretor de casting a perguntar se estava disponível para fazer uma audição presencial em Roma. Aconteceu tudo muito depressa, mas lembro-me de pensar constantemente que aquele projeto podia mudar muita coisa na minha carreira.

Casaco vintage e fio, do prórprio.

Casaco vintage e fio, do prórprio.

A tua geração cresceu a ver carreiras construídas entre países, plataformas e formatos. Ainda faz sentido falar de um mercado “português” ou “internacional”?

Acho que é uma questão complicada. Do ponto de vista do público, essa barreira está cada vez mais esbatida. Hoje, um projeto português, italiano ou irlandês pode facilmente chegar a uma audiência internacional através das plataformas, e isso é fantástico. Mas, para os artistas e produtores, continua a existir uma diferença muito grande em termos de oportunidades, financiamento e dimensão do mercado. Acredito que isso vai continuar a evoluir. A indústria está sempre a mudar; agora, resta-nos ver o que o futuro traz.

O que é que nos podes contar sobre os teus futuros projetos?

Acabei de filmar a terceira temporada da série britanica The Forsytes, na Croácia, e diverti-me imenso com esta personagem. Há uns meses, filmei, também em Londres, Eloise, um novo filme da Netflix que deverá estrear em breve. E, ainda este ano, estreia Red Flags, uma produção britânica filmada maioritariamente no Algarve. Tenho trabalhado sobretudo em projetos internacionais, mas gostava muito de me estrear também, ainda este ano, em projetos nacionais.

Editorial realizado em exclusivo para a Esquire Portugal.

Há realizadores e atores, portugueses ou estrangeiros, com quem sonhas trabalhar um dia?

Podia ficar aqui o dia todo a dizer nomes. Há imensos realizadores e atores que admiro e com quem adorava trabalhar. Mais do que um nome específico, gosto da ideia de colaborar com pessoas que me desafiem e me obriguem a sair da minha zona de conforto. Acho que é aí que mais se cresce, tanto como ator como enquanto pessoa.

TalentoGabriel Antunes @ 11.8 elevendoteight e Conway Van Gelder Grant | @gabrielantunes.__ @11.8elevendoteight @cvgg_ltd
FotografiaDino Sablić | @dino.sablic.33
EntrevistaRita Petrone | @rita.petrone
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