Cultura

Ver tinta secar nunca foi tão bonito

By Elsa Gonçalves 14 May 2026

Mural colaborativo em Santiago do Escoural. © José Pedro Marques

Festival de Arte Rupestre é apenas um nome pomposo para titular um encontro de artistas em Santiago do Escoural, Alentejo.

Muito mais do que mero convívio, ainda que seja constantemente assim referido, esta intervenção de arte na via pública é, acima de tudo, uma oportunidade de dinamizar comunidades e manifestar a humanidade e o companheirismo que há na Arte.

Mural assinado por Pedro Mojo Jojo e Fredy Klit - e, ainda, Fred Aranha..
Lighthouse Publishing

Escreve, na primeira pessoa, uma infiltrada. Não pintei, mas dei colorido. Não contribui artisticamente, mas registei para mais tarde partilhar. Não fiz parte do brainstorming, mas imiscui-me no coração desta comunidade de artistas cuja amizade entre todos, de longa data ou nova, se sente em cada traço e cada abraço, em cada pintura e em cada aplauso, em paredes partilhadas e troca de impressões.

Vale a pena fazer o name drop, quando o lineup é este: Artur Ventura aka ChureOner, Daniela Guerreiro, Filippo Fiumani, Fred Aranha, Fredy Klit, Gonçalo Mar, Hélio Bray, Johnny Double C., Luís Baldini aka FrAme01, Luís Teixeira aka Fraude, Nuno Barbosa aka Mosaik, Pedro Mojo Jojo, Ricardo Romero e Russo1003. Todos, a convite do infame nativo do Escoural, José Geraldo vulgo Robert Panda, abriram mão da sua agenda e honorários para fazer parte de algo maior a diversos níveis.

Uma infíma parte do mural a solo de Daniela Guerreiro.
Lighthouse Publishing

Quando este rol de profissionais se junta, uns mais veteranos, outros mais recentes, a hierarquia não se sente quando cada um traz para a mesa um CV que não se faz só de quantidade, mas de qualidade. Todos diferentes na forma como apresentam a sua arte, unem-se num ponto comum: o respeito mútuo. E a vontade de estar uns com os outros, naquela que pode ser a oportunidade anual de se (re)verem. Vê-los no habitat natural, com o à-vontade da amizade que os une, é servir de David Attenborough numa selva de testosterona largamente suplantada por criatividade e talento artístico: estão sempre prontos a soltar um ou outro jocoso insulto (é a maneira de demonstrarem amor e isso é notório nessa simpatia hostil) tanto quanto estão prontos a arriscar a própria vida em cima de andaimes para ajudar ou rematar a obra de um fellow artist.

O convívio não é só da boca para fora: Fred Aranha, Fredy Klit, Daniela Guerreiro, Mosaik e Filippo Fiumani.
Lighthouse Publishing

“É importante referir que grande parte de nós veio de uma escola da rua que é o graffiti”, sublinha Romero, responsável pela intervenção na torre da EDP. "E todos nós nos conhecemos há bastantes anos, fruto desse trabalho. Claro que depois, enquanto artistas, cada um seguiu o seu caminho. Hoje em dia, não considero que faça graffiti. Mas continuo a ser bem recebido por eles e vice-versa. Tenho um enorme respeito por aquilo que todos criámos. Existem outras culturas urbanas, como o skate, onde aquele lado do ego passa um bocadinho ao lado. Ficamos contentes quando os outros têm sucesso e vão crescendo. E aqui é um bocadinho igual. Eu acho que o importante é, independentemente da geração à qual pertencemos, continuarmos a ser relevantes naquilo que fazemos. Com esse lado muito humano e muito de camaradagem presente.”

A camaradagem não é o único objetivo neste Festival, mas é um móbil com força: “Acredito que sejam, de facto, as pessoas”, que fazem Filippo Fiumani dizer que sim a este fim-de-semana de “arte rupestre”. “Como não sou de Portugal, isso é muito bonito. Fico grato por ter a oportunidade de conhecer malta que escreveu a história do graffiti cá e poder dizer que acabaram por se tornar meus amigos”. A opinião é corroborada por Mosaik, que confirma que aceitar o convite é, primeiro, pela “amizade, que eu acho que é primordial em quase tudo que são reuniões de pessoas com o mesmo princípio, com o mesmo fim, com a mesma ambição. E como ele [Robert Panda] é nosso amigo há imenso tempo e estivemos ligados desde os primeiros tempos pelo graffiti, hoje estou presente”. 

A reta final de FrameOne.
Lighthouse Publishing

A motivação de convívio é incrementada pelo propósito maior no cerne deste projeto artístico: a olho nu, pode parecer que organizar um fim de semana deste género é só uma desculpa de Robert Panda para convidar os amigos para o seu habitat diário, mas o que o move vai além dos laços com estes artistas; prende-se com a vontade de criar algo duradouro que sirva a comunidade em que se insere e que seja exemplo para outras, dinamizando vilas do género para chamar mais visitantes ou, simplesmente, desbloquear conversas no café da aldeia. Não faz bandeira óbvia disso, mas esse orgulho de José Geraldo vulgo Robert Panda, cabecilha da Associação Cotovia Tagarela (que organiza o festival) é sintomático no esforço que dedica ao evento e notório em cada gesto para fazer acontecer. “Este evento no Escoural, para mim significa muito”, ratifica o amigo e elemento honorário da Associação, Ricardo Romero. “Porquê? Porque eu sou alentejano, nasci em Évora, que é relativamente próximo. E desde que conheci aqui o projeto do Zé e da Cotovia Tagarela, disponibilizei-me para o que fosse preciso. Porque acredito mesmo que faz falta este tipo de iniciativas em territórios como este. Para nós, enquanto artistas, que estamos habituados a ir a festivais e a viajar pelo mundo, onde outras coisas se sobrepõem muitas vezes àquilo que é a nossa verdadeira essência, enquanto humanos, este festival surge aqui um bocadinho como contracorrente.” 

Suri, a denunciar o cansaço de um fim de semana em cheio.
Lighthouse Publishing

“A desertificação é uma coisa real, os jovens tendem a desaparecer”, aponta Mosaik, “mas, como viste, há bocado estavam aqui vários jovens de sitios diferentes: são comunidades que estão ligadas à arte ou que gostam da parte artística e que vêm das vilas envolventes. Eu acho que estão a tentar criar uma sinergia entre todos estes polos de forma a que haja circulação. Há uma comunidade já grande daquilo a que chamamos os street art seekers, pessoas que procuram este género de roteiros. E há uma indústria já por trás, pessoas que perceberam que há um movimento que se pode criar em redor e que traz de facto empregos, traz turismo, inclusive. E os nativos, as pessoas mais velhas, gostam de vir ver, porque isto é uma maneira de dar cor à vila, de se identificarem, até com imagens que nós reproduzimos que têm a ver com pessoas daqui, com coisas que aconteceram aqui, mitos daqui e isso traz de facto aquele sangue novo que volta a transbordar dentro deste coração que está semi-adormecido e que pode trazer exatamente toda esta empatia - até connosco. ‘Então, cá outra vez?, dizem-nos, porque muitas vezes o estímulo é simplesmente comunicarem com pessoas que não são daqui.”

Work in progress: Mosaik e Johnny Double C.
Lighthouse Publishing

Santiago do Escoural é uma vila e freguesia de Montemor-o-Novo, com pouco mais de 1.000 habitantes, mas no primeiro fim-de-semana de maio, o falatório parecia denunciar uma densidade populacional ainda maior. Porquê? Porque as intervenções artísticas não são simplesmente disruptivas do quotidiano, honram o sítio em que se inserem e isso é rastilho para (bons) comentários: “No meu trabalho, gosto muito de retratar pessoas, principalmente algo que é um pouco diferente, e o Zé (Robert Panda) falou-me de uma personalidade muito peculiar e interessante, o ‘Égua', e eu acho piada colocar algo diferente numa parede. E é contar também a história um bocadinho das pessoas daqui”. O mural de Daniela Guerreiro, na parede da Cooperativa, foi literal no reflexo dos habitantes, mas não foi o único a beber da narrativa da zona. Ricardo Romero, este ano, “quis pegar mesmo nesta questão da pintura rupestre [a gruta do Escoural com pintura rupestre paleolítica é Monumento Nacional desde 1963] e dar-lhe aqui um lado mais contemporâneo. Colocar-me um pouco na posição dos humanos daquela altura. Eles tiveram uma necessidade de se exprimir. E na altura, os motivos da pintura eram muito relacionados com a caça. E eu aqui, basicamente, o que fiz foi tentar ir buscar um bocadinho dessa linguagem e dar-lhe este lado mais contemporâneo, daquilo que estamos a viver hoje em dia, por isso, a guerra e tudo mais está bastante implícito na mensagem do mural”, explica.  

Um mote para o fim-de-semana.
Lighthouse Publishing

Não foi só o seu conceito que foi aos arquivos do Escoural: o trabalho de Russo1003 também foi buscar imagens de outrora para honrar a população local num painel simples na execução, mas forte no impacto, e, mesmo a parede comunitária, com intervenção colaborativa dos vários artistas do graffiti, na desativada Escola N1 do Escoural, não quis esquecer em spray o ambiente que a envolve: “havia um tema, que era isto de estar inserido na cultura e comunidade envolvente até a nível geográfico; o que é que há aqui? O campo, as ovelhas e tudo o que é parafernália rural. Sentamo-nos todos à mesa e pomos a parede no papel de toalha, partilhando o que cada um gostava de fazer. No final, sem qualquer receio, todos têm a abertura para opinar, porque todos queremos que resulte em nome da colaboração… Há uma concertação e há concessão, como um serviço comunitário em que todos têm algo para dar, todos têm algo a aprender sempre e todos sabem que o contributo na parede vai ser benéfico para todos”, remata Mosaik, acrescentando que “o graffiti sempre foi isto, a cooperação de vários artistas para um objetivo comum; todos pintam em cima uns dos outros, todos têm intervenções em cima das peças e ninguém leva a mal. A cultura [do graffiti] sempre dinamizou este lado da cooperação e acima de tudo da coexistência de vários estilos dentro da mesma peça, por isso é que fazemos geralmente peças conjuntas com muitos artistas. É isso que torna o graffiti diferente de todas as outras artes”.

Uma janela para Santiago do Escoural, assinada por Russo1003
José Pedro Marques

Essa camaradagem sente-se, assegura esta infiltrada que nunca se sentiu intrusa. Não só entre os artistas que imprimiram o seu ADN naquela parede, mas também nos restantes com trabalhos a solo, como Fiumani, cuja montagem complexa da obra, na parede da Associação Cotovia Tagarela, não dispensou uma mãozinha dos amigos: “É uma instalação composta por uma peça escultória, no sentido de que é tridimensional, e um stencil [bidimensional]. Em termos conceptuais, toca vários temas, um dos mais importantes para mim é o papel da tecnologia na sociedade de hoje em dia, e o papel do lixo tecnológico. A peça consiste numa cruz, composta por tecnologia já descartada, e uma freira com o telemóvel na mão, desenhada na parede.” Quis explorar, na mensagem, “a tecnologia enquanto nova religião, e o que isso comporta, como assumir que tudo o que está na internet é verdadeiro; ao mesmo tempo, esta dependência que criamos do telemóvel, por exemplo, para nos deslocar, ou para saber qual é o melhor restaurante da zona, em vez de ir à descoberta e perguntar. Infelizmente, este distanciamento humano também acaba por se criar entre as pessoas. Porque quanto mais nos escondemos atrás de uma tela, mais separamos a vida entre nós.” Algo que não se sentiu neste Festival de Arte Rupestre, em que o lado humano singrou com veemência. “Não tinha pensado nisso”, concorda o artista, “a própria peça está inserida num contexto onde não se pratica esse tipo de situação, o que me deixa ainda mais feliz. De facto, nestes dias há uma parede comunitária onde muita gente acabou por intervir e pintar. E colaborar. E eu, como também outros artistas que fizeram peças a solo, acabamos por passar imenso tempo nesta parede comunitária e falámos e brincámos e conhecemo-nos e isso é a parte realmente bonita do festival”. 

A obra de Filippo Fiumani, na sede da Associação Cotovia Tagarela.
Lighthouse Publishing

Mesmo para a população local, essa ligação, interação, conexão é manifesta. Enquanto entrevistava Daniela Guerreiro, uma estreante do convívio, pelas ruelas da vila, um transeunte cumprimentava-a pelo nome e convidava-nos, melhor, insistia que ficássemos para almoçar. Porque é esse o bónus que este género de iniciativas consegue também ter: “Acaba por ser um projeto que nasce de uma vontade em retribuir, ainda que não haja muita ajuda monetária. Há apoio logístico da junta”, explica Robert Panda, fundador da Cotovia Tagarela, “mas os custos são todos suportados pela Associação, da estadia dos artistas aos materiais usados no trabalho.” A falta de financiamento não esmorece a vontade de continuar, mas é um lamento, porque com isso vem também a falha em reconhecer o impacto que o projeto pode ter e tem junto da população local. 

Mural de GonçaoMAR com Mosaik.
Lighthouse Publishing

 “Eu posso falar abertamente sobre isso porque, nos últimos seis anos, fui responsável por organizar 20 festivais de arte urbana pelo país”, confessa Ricardo Romero. “Grandes cidades, pequenas cidades, vilas, aldeias, tudo. E eu acho que tenho essa consciência e tenho essa noção que cada vez mais é preciso... não digo fixar, que é difícil, não é só a arte que vai ajudar a fixar pessoas, não é? Há a política e outros fatores. Mas todos os fatores têm um papel e este não é diferente. Em territórios como o Escoural, faz todo o sentido haver estes apontamentos para que se possam criar algumas rotas alternativas àquilo que é a cultura já existente. Temos aqui o percurso megalítico, temos a gruta do Escoural, temos a cidade de Évora, património da UNESCO, relativamente perto. E eu acho que este tipo de ações podem ajudar a trazer diferentes pessoas para o território. Até para diversificar aquilo que é a oferta, porque as pessoas vêm e vão à gruta e vão ver algo que se passou há 50 mil anos, mas se calhar depois almoçam e dão uma volta para ver as paredes. É super importante e cada vez mais faz sentido - se for feito desta forma, por artistas e para os artistas e para a comunidade.”

O mural acabado de Johnny Double C.
Lighthouse Publishing

“Eu acho que o próprio Zé está a tentar fazer acontecer algo dentro da comunidade local que deveria acontecer em mais sítios do mundo”, assegura Fiumani. “Este trabalho acaba por juntar uma comunidade externa. Deixando uma marca dentro de uma outra comunidade e que, eventualmente, no futuro próximo começará a trazer mais atenção sobre ela. Inclusive com o projeto do estúdio dele, Cotovia Tagarela, onde vai dinamizar o próprio espaço, abrindo-o à comunidade. Por experiência também pessoal, quando isto acontece, instiga quase uma espiral energética que acaba por trazer mais vida a estes pequenos sítios onde se passa pouco. Porque chama muita gente e acredito que cria uma injeção de vida dentro de um sítio que, enfim, é pequenino”. 

Uma amostra da paleta cromática de Daniela Guerreiro.
Lighthouse Publishing

Essa injeção não é unilateral. “Eu como sou de uma vila pequena, sei quais são as necessidades primárias de um sítio como este, e acho que as pessoas fixam-se tanto na vivência diária, na rotina dos afazeres, que se esquecem um pouco da beleza das coisas”, assegura Daniela Guerreiro. “Isto da cultura, da pintura, da música, são pequenas coisas que fazem as pessoas mais felizes, nem que seja só para fugir um bocadinho da rotina. Acho que é extremamente importante dinamizar os sítios, as zonas pequenas, porque infelizmente há pessoas que nunca saíram daqui. Mas, na verdade, essa questão tem uma reviravolta: eu acho que somos nós, quem vem para cá, que leva mais para casa, do que as pessoas que ficam com a pintura. Porque quando vamos visitar um sítio, um, dois, três, quatro dias, nós conhecemos toda a gente, conhecemos o sítio, temos essas experiências, e levamos essas mais-valias connosco”. 

Os artistas (com a infiltrada) no mural colaborativo na Escola de Santiago do Escoural.
Cotovia tagarela/Lighthouse Publishing

Mais valias que não se esgotam no fim de semana do convívio: visitar a junta de frequesia de Santiago do Escoural, a partir de agora, é acrescentar ao plano de festas uma tour pelas obras destes artistas consagrados que, neste Festival, são apenas uma ínfima parte de um todo que é bem maior que as partes. E todos vivem bem com isso. Vivem melhor por isso. 

The end. E o merecido descanso do(s) guerreiro(s).
Lighthouse Publishing

VídeoJosé Pedro Marques
Elsa Gonçalves By Elsa Gonçalves

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