Izabela Depczyk, fundadora e diretora da Her Clique.
Na Her Clique, a criação artística afirma-se como um manifesto de identidades moldadas pela realidade (e o legado) da sociedade. Nesta galeria, a Arte cria a sua própria história, dando voz a quem sempre teve de lutar para se fazer ouvir.
Há espaços onde a arte fala mais alto. Onde cada pincelada eterniza memórias e dá vida a narrativas que moldam a realidade de cada um; afinal, é nas vivências de um artista que reside a semente da criatividade. Até porque, se o talento é inato, a criatividade treina-se: afina-se até nascer uma visão artística tão aguçada que consegue comunicar anos (quiçá, décadas) de experiências, ideais e movimentos. É precisamente sob este mote que, em 2020, em Nova Iorque, surgiu o projeto da Her Clique. Fundada e dirigida por Izabela Depczyk, no início a Her Clique afirmou-se como uma plataforma dedicada a promover e apoiar mulheres e artistas LGBTQIA+.
“A Her Clique surgiu como resultado dos meus muitos anos de trabalho na indústria da Arte e da constatação da disparidade na representação entre artistas masculinos e outros artistas — sejam eles artistas queer, de minorias culturais ou mulheres”, conta Izabela Depczyk. Até à data, o projeto, que evoluiu para uma galeria, já colaborou com mais de 50 artistas internacionais — incluindo Marilyn Minter, Cindy Sherman, Erin Riley, Betty Tompkins e Zanele Muholi, entre outros — através de uma diversidade de iniciativas que incluem exposições coletivas, edições limitadas e angariações de fundos. “O nosso objetivo continua a ser dar voz a pessoas talentosas que, na nossa opinião, de outra forma, não teriam essa oportunidade”, diz Depczyk.
Em 2024, a Her Clique transitou oficialmente do digital para um espaço tangível no coração de Lisboa. Ao longo de 465 metros quadrados, a galeria une o charme da arquitetura portuguesa do século XVI ao design contemporâneo. Nos dois anos que se passaram desde a inauguração, a fundadora acredita que o panorama artístico em Portugal se mantém em constante evolução, assumindo uma personalidade tão vibrante quanto internacional. É desta energia, que anseia por desbravar fronteiras, que surgem muitas das facetas da Her Clique. Com uma equipa internacional, a galeria assume-se como um espaço com curadoria onde cada exposição é acompanhada por uma programação cultural centrada na comunidade.

Arte de Isabella Russo Siqueira. Fotografia de Her Clique, por Pernille Haugen.
Prestes a entrar num novo capítulo da sua história, a Her Clique anuncia o seu mais recente programa de residências artísticas, com base no seu espaço na capital. “Lançámos a iniciativa porque esta se insere na nossa missão de proporcionar uma plataforma aos artistas”, avança a fundadora e diretora da Her Clique. A primeira artista a integrar esta iniciativa é Isabella Russo Siqueira, uma artista visual mexicano-brasileira nascida e criada em Cancún. “Foi muito inspirador ver os resultados da residência artística no trabalho que Siqueira criou durante o tempo que passou connosco”, continua Depczyk. A sua residência durou um mês e culminou com a exposição das obras da artista, numa mostra aberta ao público. Intitulada A Voz Que Fala Em Mim Vem De Longe, a exposição aborda o património imaterial como algo que comunica através do corpo. Ao longo das obras de Siqueira, a pintura torna-se um instrumento narrativo e uma prática de escuta, dando lugar a uma voz coletiva que desafia as fronteiras e divisões que teimam em definir a sociedade contemporânea.
Sempre com os olhos postos no futuro, a Her Clique visa dar continuidade ao legado que tem vindo a construir. A nova peça do puzzle surge sob a criação artística de Graça Pereira Coutinho, a próxima artista a integrar a iniciativa de residências da galeria. “É uma incrível artista portuguesa com uma história de vida fascinante”, diz Depczyk. Entre pinturas, instalações, desenhos e fotografias, a exposição de Graça Pereira Coutinho irá incluir obras criadas ao longo da sua carreira, incluindo trabalhos nunca antes exibidos. A inauguração da exposição tem data marcada para 30 de maio, no âmbito da Lisbon Design Week.
A Esquire Portugal falou com Izabela Depczyk, fundadora e diretora da Her Clique, numa conversa para ler abaixo.
A Her Clique nasceu em Nova Iorque em 2020 como uma plataforma digital – o que a levou a criar este projeto?
A Her Clique surgiu como resultado dos meus muitos anos de trabalho na indústria da Arte e da constatação da disparidade na representação entre artistas masculinos e outros artistas — sejam eles artistas queer, de minorias culturais ou mulheres. Por acaso, 2020 foi também o ano da pandemia, em que, devido às restrições de viagem e aos toques de recolher, muitos financiamentos foram cortados a espaços artísticos e iniciativas culturais; por isso, sentimos que tínhamos a missão de apoiar os artistas cujas exposições foram canceladas.

Arte de Isabella Russo Siqueira. Fotografia de Her Clique, por Pernille Haugen.
O projeto tem a missão de apoiar mulheres e artistas LGBTQIA+. Como é que essa intenção inicial tem vindo a evoluir ao longo dos anos? E o que a levou a decidir começar a incluir homens, a par de mulheres e artistas queer, no seu espaço?
Sim, de facto, além de artistas mulheres, também apresentamos artistas queer do sexo masculino. Isso sempre fez parte da nossa missão de incluir pessoas LGBTQIA+ no nosso espaço e de lhes proporcionar uma plataforma. O nosso objetivo continua a ser dar voz a pessoas talentosas que, na nossa opinião, de outra forma não teriam essa oportunidade.
Em 2024, abriu um espaço físico em Lisboa. O que é que motivou a transição do digital para um espaço offline?
Ter um espaço físico sempre foi o nosso objetivo. Começámos a Her Clique logo no início da pandemia, razão pela qual fizemos um soft launch exclusivamente online. A pandemia decorreu em fases; sempre que as restrições eram levantadas, organizávamos eventos pop-up ou exposições de curta duração em diferentes espaços e locais por todo o mundo. Assim que a pandemia terminou, retomámos o nosso plano inicial de ter um espaço físico que nos permitisse cumprir a nossa missão de construir uma comunidade de forma séria.

Arte de Isabella Russo Siqueira. Fotografia de Her Clique, por Pernille Haugen.
Nos dois anos que se passaram desde a inauguração, como diria que evoluiu o panorama artístico em Portugal?
O panorama artístico em Portugal é vibrante, está em constante evolução e é muito internacional. Foi assim desde o início e continua a crescer, por isso, estamos muito gratos por fazer parte dele e muito honrados com a recepção calorosa que tudo o que fazemos aqui tem recebido.
A galeria situa-se num edifício do século XVI. De que forma é que o diálogo entre passado e contemporaneidade influencia a essência e programação da Her Clique?
Dado que não representamos permanentemente nenhum artista e continuamos a trabalhar com um grupo diversificado de indivíduos, temos muita liberdade na forma como as nossas exposições são comissariadas, e certamente o contexto cultural e a história de Lisboa fazem parte desse processo curatorial. Há muitos aspetos da experiência humana que gostamos de incluir nas nossas exposições, desde histórias muito pessoais até outras que parecem universais e representativas. Os nossos artistas provêm de tantas esferas da vida que abordam os vários temas de múltiplas formas e com diversas técnicas, mas o fio condutor é sempre este espaço, que parece ser o cenário perfeito e constante para todas as narrativas contadas ao longo das nossas exposições.

Arte de Isabella Russo Siqueira. Fotografia de Her Clique, por Pernille Haugen.
A galeria já colaborou com mais de 50 artistas, incluindo nomes como Cindy Sherman, Zanele Muholi ou Marilyn Minter. O que é que procura num artista para integrar o universo Her Clique?
Existe um conjunto de critérios que temos em conta ao organizar uma exposição e ao decidir quais os artistas que melhor se adequam ao tema da mesma. No entanto, é importante salientar que, por mais que a decisão seja nossa, são também os artistas que nos escolhem. É uma honra para nós trabalhar com os artistas com quem colaboramos e adoramos o facto de o processo de seleção de obras específicas para a exposição ser sempre muito colaborativo.
A exposição atual, A voz que fala em mim vem de longe, de Isabella Russo Siqueira, inaugura também o programa de residências artísticas da galeria. Porque é que decidiu começar a fazer residências artísticas e o que distingue esta iniciativa de outros modelos tradicionais?
Lançámos a iniciativa de residência artística porque esta se insere na nossa missão de proporcionar uma plataforma aos artistas. O nosso espaço em Lisboa está distribuído por vários pisos, sendo que os dois pisos superiores estão organizados como alojamentos privados, onde agora podemos acolher os artistas durante as suas residências connosco, enquanto os dois pisos inferiores são os espaços de exposição.
Como foi acompanhar o processo da Isabella enquanto primeira artista residente? Houve algo que a surpreendeu?
Tento dar espaço aos artistas para não interferir no seu processo criativo. Foi muito inspirador ver os resultados da residência artística no trabalho que a Isabella criou durante o tempo que passou connosco. As obras são multifacetadas, apresentam materiais orgânicos tanto de Cancún, onde a artista reside, como de Lisboa, onde ela estava a trabalhar nas telas, pelo que contam realmente uma história de migração, movimento e de como estamos interligados com o ambiente natural.
A ideia de voz e de memória é crucial a esta exposição. Considera que há hoje uma urgência maior em trabalhar narrativas pessoais na arte contemporânea?
Penso que existe, e sempre existiu, uma necessidade de explorar narrativas pessoais na arte. Considero que a arte é um reflexo da pessoa que a cria, mas também da época em que esta vive. Se a arte for boa, pode ser sentida e ser relevante para quem a vê.
A próxima exposição será com Graça Pereira Coutinho. O que é que nos pode dizer sobre essa colaboração?
Graça Pereira Coutinho é uma incrível artista portuguesa com uma história de vida fascinante, que temos a honra de apresentar na nossa próxima exposição, com inauguração marcada para 30 de maio, no âmbito da Lisbon Design Week. As obras expostas incluirão diversos elementos, nomeadamente pinturas, instalações, desenhos e fotografia, criados ao longo de muitos anos. Algumas das obras nunca foram exibidas anteriormente, enquanto outras já foram apresentadas em várias instituições, incluindo o Museu Gulbenkian.

Arte de Isabella Russo Siqueira. Fotografia de Her Clique, por Pernille Haugen.
A Her Clique tem também uma vertente de angariação de fundos e projetos especiais. Até que ponto olha para a Arte como uma ferramenta de impacto social?
Não encaro a arte como uma ferramenta; pelo contrário, a arte em si mesma pode ser o impacto social. Se, graças à arte, as pessoas se sentirem reconhecidas, representadas ou inspiradas a fazer algo positivo, esse é um efeito maravilhoso que a arte pode ter. De facto, apoiamos muitas instituições de caridade com as receitas das nossas vendas, pois estamos empenhados em apoiar a comunidade de diversas formas.
A equipa da galeria é internacional mas o espaço está enraizado em Lisboa. Como é que equilibra o diálogo entre o local e o global?
Vivemos num mundo tão globalizado que a integração dos aspetos locais com os elementos internacionais é parte integrante da nossa forma de operar. Embora o nosso espaço se situe em Lisboa, realizamos também muitas iniciativas fora de Portugal, nomeadamente na Cidade do México, em Varsóvia, em Nova Iorque e em Miami. Uma das partes mais gratificantes do nosso trabalho é atrair um público internacional para a cena artística local e, ao mesmo tempo, promover os artistas portugueses junto de uma base de colecionadores internacionais.
Olhando para o futuro, o que é que sente que ainda falta construir na Her Clique?
Ainda há tantos artistas com quem gostaríamos de trabalhar, tantas exposições para as quais temos ideias e tantas histórias que gostaríamos de contar. Esperamos poder continuar presentes em Lisboa e dar continuidade ao legado que conseguimos construir ao longo dos anos de atividade da Her Clique.
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