Atualidade Style

Em Milão e Paris, uma nova masculinidade

By Pedro Vasconcelos 01 Jul 2026

Sob um sol abrasador, a virilidade apresentada nas passerelles da primavera/verão 2027 revelou-se surpreendentemente arejada.

Entre Milão e Paris, a temporada masculina da primavera/verão 2027 ficou marcada por duas sensações difíceis de ignorar. A primeira foi física: um calor sufocante, daqueles que transformam qualquer deslocação entre desfiles numa prova de resistência e fazem do ar condicionado o maior luxo da semana. A segunda foi cultural: uma ideia de masculinidade que se afasta da dureza performativa que domina hoje parte do discurso público. Enquanto a internet continua fascinada por versões cada vez mais agressivas do homem, alimentadas por fenómenos como a manosphere, as passerelles propuseram outro caminho. Não que os designers tenham respondido diretamente ao debate contemporâneo (por mais que muitos talvez queiram), mas as suas celebrações de masculinidade edificam um homem mais delicado, mais vulnerável.

Prada SS27; Thom Browne SS27.

Prada SS27; Thom Browne SS27.

Na Prada, o fenómeno manifestou-se através de uma constante recalibração do olhar. Como acontece praticamente todas as temporadas, Miuccia Prada e Raf Simons apresentaram uma coleção que parece gerar discussão antes mesmo de o desfile terminar. As camisolas justas prolongavam as golas para revelar camisas coloridas, os casacos surgiam encurtados, as calças de ganga estreitas apareceram em tons de rosa ou amarelo, enquanto detalhes como golas Peter Pan em couro ou óculos assimétricos sugerem uma certa estranheza. Em vez de oferecer respostas fechadas, Prada continua a fazer da moda um exercício intelectual.

Essa imaginação encontrou outro registo em Thom Browne. Sob um sol impiedoso, o designer escolheu regressar à fantasia infantil. Abelhas, libélulas e nenúfares bordados atravessavam a alfaiataria precisa que define a marca, transformando fatos rigorosos em personagens saídas de um conto de fadas. Havia véus, saias, referências a filmes de animação e uma paleta suave que parecia ignorar qualquer obrigação de reafirmar códigos tradicionais de masculinidade. Browne continua a provar que rigor e humor podem coexistir sem perder intensidade.

Dior SS27.

Em Paris, Jonathan Anderson consolidou mudança na Dior. A coleção imaginava o momento seguinte à festa: gravatas desalinhadas, camisas ligeiramente amarrotadas, malas de malha carregadas ao ombro como quem regressa a casa ao amanhecer. A silhueta estreita que marcou diferentes momentos da história da maison permanece presente, mas surge despida da agressividade associada ao imaginário rock dos anos 2000. As calças de ganga justas surgem em amarelo-manteiga, os casacos alongam-se, as proporções respiram com mais liberdade. Anderson continua interessado no arquivo da Dior, embora o revisite com uma sensibilidade romântica que privilegia nuance em vez de imposição.

Saint Laurent by Anthony Vaccarello SS27; Dries Van Noten SS27.

Saint Laurent by Anthony Vaccarello SS27; Dries Van Noten SS27.

Anthony Vaccarello deslocou subtilmente o eixo da masculinidade na Saint Laurent. A sedução continua presente, mas desta vez construída através de pequenos gestos: botões dourados que cintilam como joias, aplicações florais, parkas em tons pastel combinadas com alfaiataria e transparências discretas. Mesmo os elementos mais clássicos carregaram sensualidade. Cuecas de cabedal ou sapatos transparentes foram emblemáticas do sex appeal idiossincrático de Vaccarello.

Se houve uma coleção capaz de condensar o espírito da temporada foi Dries Van Noten. Inspirado por L'Après-midi d'un faune, de Stéphane Mallarmé, Julian Klausner construiu um desfile onde o tecido parecia mover-se com o próprio ar quente de Paris. Organza, seda, transparências e bordados criavam roupas que nunca se impunham ao corpo, acompanhavam-no. As cores evoluíam lentamente, como a luz ao longo de uma tarde de verão, reforçando uma atmosfera onde realidade e fantasia conviviam sem conflito. A coleção parecia interessada em estados emocionais antes de categorias de género. 

Essa mesma leveza atravessou o primeiro desfile masculino de Michael Rider na Celine. Depois de semanas de temperaturas extremas, a coleção funcionou como uma brisa de ar fresco. Rider recupera uma elegância francesa vivida, construída por acumulação de peças, cores improváveis e pequenos desvios de styling que parecem acontecer por acaso. Luvas penduradas na lapela, lenços de cetim, parkas cáqui sobre camisas verde-menta ou jeans estampados com tigres cobertos de cristais revelavam um guarda-roupa profundamente pessoal. Havia humor, espontaneidade e prazer em vestir-se sem qualquer ansiedade de provar masculinidade.

Celine SS27.

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