Fotografia: Mark Sennet / Getty Images
Destacamos o que há de melhor no catálogo de obras do lendário realizador, cujo portefólio marcou a história de Hollywood.
Steven Spielberg é considerado por muitos o melhor realizador vivo. Nesta lista, destacamos as melhoras obras do cineasta de 79 anos responsável por Tubarão, Jurassic Park, O Resgate do Soldado Ryan e, mais recentemente, Disclosure Day.
1941 (1979)
Entre os filmes Encontros Imediatos do Terceiro Grau e Os Caçadores da Arca Perdida, Spielberg realizou aquele que é, sem dúvida, o seu pior filme até à data. É uma verdadeira surpresa (e uma pena), mas não é certamente uma tarefa fácil realizar um filme, com um elenco numeroso, sobre o pânico em Los Angeles na sequência do ataque a Pearl Harbor, em 1941. Segundo Spielberg, num telefonema com John Wayne durante o período de produção do filme — originalmente intitulado The Night the Japs Attacked, do argumentista Robert Zemeckis — John Wayne disse-lhe que não devia perder tempo com a ideia. Disse: “Sabe que foi uma guerra importante, e está a gozar com uma guerra que custou milhares de vidas em Pearl Harbor”, recordou Spielberg em 2011. “Não brinque com a Segunda Guerra Mundial”. Já vimos muitos filmes excelentes que brincam com a Segunda Guerra Mundial — Inglourious Basterds, Catch-22, To Be or Not to Be — mas o maior defeito de 1941 é que o filme tenta brincar com a Segunda Guerra Mundial sem nunca ser engraçado.
Always (1989)
Always é notoriamente um dos maiores fracassos de Spielberg. Mas mesmo assim, o cineasta é mais interessante num mau dia do que a maioria dos realizadores num dia comum. Um remake do filme A Guy Named Joe, de 1943 — Always conta a história de Richard Dreyfuss, um piloto falecido, cujo fantasma orienta Brad Johnson, um piloto iniciante. Entretanto, o novo piloto apaixona-se pela namorada que Richard deixou em terra, Holly Hunter. Criticado aquando do lançamento pelo seu sentimentalismo excessivo, Always talvez tivesse mais hipóteses de sucesso hoje em dia, devido à fama da literatura de romance e fantasia.
O Amigo Gigante (2016)
Com o apoio da Disney, Roald Dahl juntou-se a Spielberg para a realização do filme O Amigo Gigante, de 2016. Baseado no livro infantil de Roald de 1982, o filme narra a improvável amizade entre uma órfã londrina de 10 anos, interpretada por Ruby Barnhill, que faz amizade com um gigante idoso de 7 metros, dobrado por Mark Rylance. Embora a sua atmosfera de livro de contos tenha um encanto especial e a sua mistura quase perfeita de imagens geradas por computador de alta fidelidade com atores reais seja um espetáculo para se ver, O Amigo Gigante nunca se compara com a obra original, muito menos com outros filmes de Spielberg destinados ao público infantil.
As aventuras de Tintim (2011)
Spielberg, sem qualquer experiência na realização de uma longa-metragem de animação, dedicou-se ao seu primeiro filme em 3D com captura de movimentos — As aventuras de Tintim. Ainda assim, no que toca ao impacto inicial da animação tecnologicamente avançada, o filme teve um bom desempenho nas bilheteiras. As representações excessivamente realistas das personagens tornaram a adaptação da série de banda desenhada francesa um verdadeiro desafio. A procura de Spielberg pelo realismo também deu a Tintim um rosto muito semelhante ao design original do filme Sonic: o Ouriço, antes de a Paramount o corrigir. Por esta razão, é pressuposto o porquê de ninguém ter tentado fazer outro filme do Tintim desde então.
Amistad (1997)
Spielberg voltou a demonstrar a sua versatilidade em 1997, quando lançou dois filmes de âmbito totalmente diferente: O Mundo Perdido: Jurassic Park, uma sequela da franquia que veio acompanhada de uma enorme quantidade de produtos promocionais, como cereais e videojogos, e Amistad, um drama histórico que aborda questões sobre o preço da liberdade. A bordo do navio negreiro espanhol Amistad, o filme adapta para a ficção a revolta de 1839, quando um grupo de escravos matou o capitão do navio e tomou o comando da embarcação, dando início a uma batalha jurídica em alto mar enraizada na ausência de ética do comércio de escravos. Protagonizado por Morgan Freeman, Anthony Hopkins, Matthew McConaughey e Djimon Hounsou — numa interpretação que marcou a sua carreira, Amistad mostra Spielberg no seu melhor, mesmo que este não seja o seu melhor filme.
O Império do Sol (1987)
É estranho pensar em como Spielberg ganhou a reputação de um realizador repleto de nostalgia, idealismo e inocência, quando, na verdade, os seus filmes são muitas vezes tudo menos isso. Frequentemente esquecido entre as suas obras está o filme O Império do Sol, de 1987, protagonizado por Christian Bale no papel de um estudante britânico que cresce numa família abastada antes de se tornar prisioneiro de guerra dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Uma reflexão sobre a morte da inocência, O Império do Sol tinha boas intenções — mas está longe de ser o trabalho mais memorável de Spielberg.
The Sugarland Express (1974)
Por falar em filmes esquecidos de Steven Spielberg, falemos de The Sugarland Express, o que é curioso, pois, tecnicamente, trata-se da sua estreia no cinema — uma vez que Duel foi originalmente realizado para a televisão. A história segue uma mulher, Goldie Hawn, que ajuda o marido a fugir da prisão, faz um polícia estadual refém e, em seguida, tenta recuperar o seu filho de um lar de acolhimento. Por alguma razão, The Sugarland Express simplesmente não tem aquela magia de aventura familiar que se esperaria de um filme de Spielberg. Poderia-se atribuir a falta de emoção ao facto do filme ter surgido tão cedo na sua filmografia — argumentando que Spielberg ainda estava a encontrar o seu caminho como realizador —, mas o cineasta deu a volta por cima e deixou o público boquiaberto quando realizou o filme Jaws a seguir.
Cavalo de Guerra (2011)
Para além de Seabiscuit e Secretariat, há muito poucos filmes decentes sobre cavalos e não se sabe o porquê. O anúncio anual da cerveja Budweiser para o Super Bowl provavelmente tem mais visualizações do que muitos filmes sobre cavalos, mas a mistura americana e da ligação entre humanos e animais em Cavalo de Guerra atraiu claramente Spielberg para o projeto. No entanto, a história de Cavalo de Guerra, repleta de emoção e resiliência, acaba por ser uma ida ao cinema praticamente esquecível. Não há nada de terrível na história; na verdade, é uma jornada razoavelmente inspiradora, passada durante a Primeira Guerra Mundial, sobre um jovem que apenas quer reencontrar-se com o seu cavalo depois de ter sido forçado a vender o animal ao exército. Cavalo de Guerra simplesmente não tem justificação para ter quase duas horas e meia de duração.
O Mundo Perdido: Jurassic Park (1997)
“É assim que tudo isto começa. Mas depois há corridas e gritos”. Só Jeff Goldblum poderia ser tão perspicaz em relação à série Jurassic Park, logo no segundo filme. Lançado em 1997, O Mundo Perdido: Jurassic Park chegou aos cinemas como a tão esperada sequela do seu antecessor marcante de 1993 e o resultado final não foi o mesmo. Jeff Goldblum regressa, desta vez como protagonista principal, enviado para outra ilha da InGen, a Isla Sorna, enquanto o sobrinho de Hammond pretende construir o parque jurássico no meio de San Diego. Menos filosófico e com ênfase em emoções baratas, O Mundo Perdido revelou-se um presságio do que as sequelas viriam a tornar-se em breve: maiores, mas nem sempre melhores.
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008)
Numa série que já contou, sem dúvida, com fantasmas, tribos canibais e o próprio Santo Graal, são, de alguma forma, os extraterrestres e os frigoríficos atingidos por uma bomba nuclear que enfurecem os fãs de longa data de Indiana Jones. Para ser justo, a sequela de 2008, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, é o capítulo menos marcante da saga, uma vez que empalidece em comparação com os seus antecessores mais grandiosos. Mas a mestria de Spielberg na realização mantém o filme interessante, e a introdução do filho rebelde de Indiana Jones, interpretado pela estrela em ascensão Shia LaBeouf, tornou-se o modelo a seguir para outras sequelas em Hollywood.
Hook (1991)
É difícil ofuscar Robin Williams, mas no filme Hook, de Spielberg, o jovem ator Dante Basco conseguiu exatamente isso no papel de líder rebelde dos meninos perdidos da terra do nunca. Mas Rufio não é o herói do filme: este continua a ser o Peter Pan, agora um advogado cínico e pai de família, interpretado por Williams, que redescobre as suas memórias perdidas enquanto figura lendária do folclore. Hook não foi regado por pó mágico aquando do seu lançamento em 1993, recebendo críticas mistas e fracassando nas bilheteiras — além do próprio Spielberg, que admitiu em entrevistas retrospectivas o quanto não ficou satisfeito com o resultado final. Isso não impediu que Hook alcançasse o estatuto de clássico de culto, com os seus fãs a reconhecerem a sua imaginação exuberante que nenhuma execução física poderia fazer jus.
Twilight Zone: O Filme (1983)
O público costuma lembrar-se de três coisas do filme The Twilight Zone: a cena em que um passageiro do avião entra em pânico ao ver uma criatura na asa, a criança aterrorizante viciada em televisão que arranca a boca da irmã, realizada por Joe Dante, também do filme Gremlins, e o acidente de helicóptero que matou o ator Vic Morrow. Nunca se fala do segmento de Spielberg, intitulado de Kick the Can. O conceito é perfeito para Spielberg: os residentes de um lar de idosos recordam a sua juventude até serem magicamente transformados de volta em crianças. Infelizmente, a história de Spielberg é simplesmente ofuscada pelos segmentos mais assustadores e fantásticos do filme.
Ready Player One: Jogador 1 (2018)
Em 2018, a popularidade dos e-sports, do Fortnite e da realidade virtual significava que a visão de Ernest Cline de um metaverso num futuro próximo poderia realmente tornar-se realidade. Mas enquanto o livro de Cline, Ready Player One, de 2011, se debate entre a ficção distópica e a utopia dos colecionadores de Funko Pop, o filme de grande orçamento de Spielberg encara-o simplesmente como mais uma aventura de ficção científica numa fuga da realidade. Num cenário onde o futuro se aproxima mais depressa do que queremos admitir, Ready Player One: Jogador 1 acompanha um jogador órfão, interpretado por Tye Sheridan, que corre contra o tempo para encontrar o cobiçado ovo de Páscoa dourado na vasta simulação de realidade virtual chamada Oasis. O livro de Cline está repleto de homenagens a Spielberg, por isso faz todo o sentido — e, honestamente, é o melhor cenário possível — que tenha sido o próprio Spielberg a realizar a sua adaptação para o grande ecrã. Ainda assim, o resultado final é, na melhor das hipóteses, suficiente.
A Guerra dos Mundos (2005)
O clássico de H. G. Wells sobre a invasão alienígena, A Guerra dos Mundos, ganhou uma importante reinterpretação após o atentado de 11 de setembro na subestimada adaptação cinematográfica de Spielberg, de 2005, protagonizada por Tom Cruise. A estrela de Top Gun e Missão Impossível interpreta um pai divorciado em Nova Jérsia que tem de levar os filhos de volta para a mãe, em Boston, no meio da chegada repentina de poderosas máquinas de guerra vindas do espaço sideral. Um thriller de sobrevivência envolvente, repleto de horror e violência, A Guerra dos Mundos é melhor do que talvez se lembre.
Disclosure Day (2026)
Para o filme, Spielberg voltou a um tema que lhe é muito querido: a vida extraterrestre. No entanto, Disclosure Day, aborda a exploração tardia do que existe lá fora, é muito mais enraizada na realidade do que qualquer coisa que vemos em ET ou em Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Neste thriller de ficção científica, o realizador não se preocupa apenas com conspirações da vida real e teóricos da conspiração alienígena com chapéus de papel de alumínio, mas sim com o que realmente aconteceria se a humanidade percebesse que não está sozinha. O resultado é um dos trabalhos existenciais mais cativantes de Spielberg até à data, mas o tom irregular de Disclosure Day — que oscila entre comédia, thriller de conspiração, filme de ação e sentimentalismo como se fosse um OVNI com avaria — impede-o de alcançar a metade superior da obra desta lenda. A banda sonora de John Williams é uma das melhores de sempre do compositor.
A.I. Inteligência Artificial (2001)
Décadas antes de a IA generativa se tornar uma ameaça existencial, tivemos o filme de Spielberg, A.I. Inteligência Artificial — um projeto herdado de Stanley Kubrick e uma releitura da história de Pinóquio para o século XXI. Haley Joel Osment interpreta David, um andróide com ar infantil que foi construído para servir de substituto de um filho de um casal de Nova Jérsia. Este é apenas o início de uma viagem fantástica, que se estende por milénios, na qual David, acompanhado por um ursinho de peluche falante, tenta alcançar o impossível: tornar-se um rapaz de verdade. Pode não parecer, mas A.I. Inteligência Artificial é um dos filmes mais sombrios de Spielberg — a sua mistura de narrativa de conto de fadas e ficção científica especulativa confere ao filme uma atmosfera inquietante. E o final vai deixá-lo de coração partido.
The Terminal (2004)
Depois de dois grandes sucessos com O Resgate do Soldado Ryan e Apanha-me se Puderes, Spielberg e Tom Hanks tentaram conseguir um sucesso triplo com The Terminal. Um drama reconfortante que exalta a generosidade de estranhos prestáveis e a capacidade de improvisação de cada um, este filme apresenta Hanks no papel de um visitante da Europa de Leste que fica retido no Aeroporto Internacional JFK devido à agitação geopolítica no seu país. Embora The Terminal seja meloso ao ponto da loucura, Hanks demonstra o seu charme de protagonista mais do que o suficiente para permitir que o filme se sustente apenas na boa vontade do público.
West Side Story (2021)
Durante anos, Spielberg falou da importância que West Side Story, originalmente de 1961, teve na sua vida. Em 2021, dirigiu finalmente a sua própria versão, um remake que não reescreveu, mas reformulou através do olhar de um verdadeiro admirador. Rachel Zegler interpreta Maria, que se torna o objeto de afeto de Tony, interpretado por Ansel Elgort. É um verão escaldante em Nova Iorque, e as ruas estão a aquecer devido a uma guerra de gangues travada entre adolescentes brancos e porto-riquenhos. Será que o amor jovem conseguirá sobreviver à violência? Inspirado em Shakespeare, West Side Story destaca-se como um dos raros remakes que se mantém à altura do original.
Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984)
A sequela da obra-prima de Spielberg, Os Caçadores da Arca Perdida, é, na verdade, uma prequela. Indiana Jones e o Templo da Perdição, de 1984, um filme comparativamente mais sombrio e cruel, traz de volta Harrison Ford ao papel de Indiana Jones, que tem a missão de ajudar uma aldeia indiana a resgatar as suas crianças de um culto perverso que pratica magia negra. Embora O Templo da Perdição tenha a sua legião de fãs, é difícil aceitar a sua representação descuidada da Índia e a presença de Kate Capshaw no papel da estridente Willie. Ainda assim, deu-nos Short Round, interpretado pelo futuro vencedor de um Óscar, Ke Huy Quan, e alguns dos seus próprios momentos clássicos de sempre do cinema de ação.
The Post (2017)
Embora retire grande parte da sua energia das ansiedades do primeiro mandato de Donald Trump, The Post é um thriller político cativante que faz jus ao espírito de clássicos dos anos 70 como Network, All the President’s Men e The China Syndrome. Meryl Streep interpreta Katharine Graham, editora do The Washington Post, que tem de decidir se deve publicar os infames Pentagon Papers e arriscar-se a sofrer graves repercussões. The Post estreou-se no mesmo ano em que o verdadeiro Washington Post adotou um novo slogan: “A democracia morre na escuridão”. The Post é uma exploração cativante desse mesmo sentimento.
Bridge of Spies (2015)
Quando parecia que os thrillers da Guerra Fria estavam em suspenso, Spielberg trouxe-os de volta em grande estilo com o seu sucesso de 2015, Bridge of Spies. O realizador volta a colaborar com Hanks, que interpreta um advogado encarregado de negociar a libertação de um piloto da CIA da União Soviética. Em troca, os soviéticos recuperam Rudolf Abel, encenado por Mark Rylance, que o advogado tinha defendido anteriormente. Deixando de lado os factos, Bridge of Spies marca um regresso à forma, não só para Spielberg, mas também para um género que outrora cativou o público cinéfilo.
Munique (2005)
Embora não tenha escapado à controvérsia, o filme Munique, de Spielberg, é um drama de espionagem cativante que procura abordar o fardo da retaliação. Passado no rescaldo do massacre de Munique, durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972, conta com Eric Bana no papel de um agente do Mossad encarregado de liderar uma missão para assassinar onze palestinianos que teriam estado envolvidos no massacre. Mas, à medida que os corpos se acumulam, também aumentam as dúvidas sobre todas as suas ações. Embora Munique tenha suscitado a ira de grupos pró-Israel, o filme foi aclamado por vários críticos de cinema profissionais, que, no seu conjunto, consideraram que o filme era capaz de proporcionar emoção e, ao mesmo tempo, suscitar uma reflexão mais profunda.
Duel (1971)
A estreia de Spielberg no cinema, um telefilme sobre um camião assassino, é um clássico de culto subestimado. Muito do mérito cabe a Christine, de 1983, de John Carpenter, mas Duel ganha pontos extra por ser o primeiro filme a retratar um carro como o monstro central. Este filme é também um daqueles filmes de estreia que só fica melhor à medida que a carreira de Spielberg avança. Há muito a retirar do carro assassino de Duel como antecessor de Tubarão — e é emocionante ver Spielberg a aperfeiçoar o que virá a ser o seu timing de ação impecável.
Minority Report (2002)
Está bem claro que Minority Report não transborda exatamente com o charme e a emoção típicos de Spielberg. Mas isso não faz mal nenhum, porque Minority Report é simplesmente fantástico. Baseado numa novela de Philip K. Dick de 1956, Minority Report passa-se num futuro em que uma unidade policial descobre uma forma de prever crimes antes de estes acontecerem — e Tom Cruise interpreta o seu líder, fantástico, mais uma vez. A partir daí, Spielberg leva Cruise ao seu limite absoluto como herói de ação, fazendo-o saltar de um lado para o outro num futuro bizarro e repleto de efeitos especiais, onde até o pão bolorento ainda representa uma ameaça. Dá para perceber que o Cruise estava entre Missão Impossível 2 e Missão Impossível 3 quando filmou Minority Report, porque a sua personagem é simplesmente um Ethan Hunt cyberpunk — e parece que Spielberg e Cruise não só sabem disso como também acreditam nisso. E isso também é fantástico.
Lincoln (2012)
Em 2012, Spielberg propôs-se a realizar o filme biográfico sobre Abraham Lincoln. Trabalhou ao lado de Daniel Day-Lewis que estava profundamente empenhado e o realizador conseguiu exatamente isso com o seu aclamado Lincoln. Ambientado nos últimos dias da Guerra Civil, em 1865, Lincoln mostra o seu protagonista, interpretado por Day-Lewis numa atuação premiada com um Óscar, a lidar tanto com a política externa como com a sua consciência interior na abolição da instituição da escravatura através da 13ª Emenda. Lincoln é um épico maduro e elegante que funciona como uma autopsia para compreender melhor a essência da coragem e da convicção. Infelizmente, em demasiados aspetos, Lincoln nunca foi tão relevante.
A Cor Púrpura (1985)
Quando Spielberg adaptou o romance homónimo de Alice Walker, vencedor do Prémio Pulitzer, já tinha realizado Tubarão, Encontros Imediatos do Terceiro Grau e Os Caçadores da Arca Perdida. Assim, A Cor Púrpura, que conta a comovente história de amadurecimento de uma jovem negra chamada Celie Harris, interpretada por Whoopi Goldberg, representou certamente uma mudança para o realizador, que se aproximava dos 40 anos. Spielberg reconheceu posteriormente as críticas de que um realizador negro deveria ter dirigido o filme, mas, com a presença de Walker no set, fez justiça ao material original. E fê-lo colocando o seu excecional elenco em destaque, com atuações notáveis no início da carreira de Goldberg, Oprah Winfrey e Danny Glover.
The Fabelmans (2022)
Em The Fabelmans, Spielberg conta uma história familiar: uma criança obcecada por cinema muda-se para o outro lado do país, vê o casamento dos pais desmoronar-se e redobra os seus esforços para concretizar os sonhos de se tornar realizador. Esta é a história das origens de Spielberg — e dirige a sua versão mais jovem e ficcionalizada, Sammy Fabelman, interpretado por Gabriel LaBelle, com uma sensibilidade impressionante. Apesar de ter sido ofuscado por Everything Everywhere All at Once durante a época de prémios de 2023, The Fabelmans é muito mais do que a sua reputação de quase-autobiografia de Spielberg. É um retrato do que significa escolher uma vida dedicada às artes. Daqui a cerca de 20 anos, quando pudermos ver o alcance total do terceiro ato da carreira de Spielberg, é provável que The Fabelmans mantenha este lugar na lista — ou até que suba ainda mais.
Indiana Jones e a Última Cruzada (1989)
Os Caçadores da Arca Perdida é um filme tão perfeito que garantiu que a lenda de Indy e de Harrison Ford vivesse para sempre, apesar do que se possa pensar de O Templo da Perdição. Devemos estar muito felizes por Spielberg ter encerrado a trilogia original em grande estilo com Indiana Jones e a Última Cruzada. A terceira viagem de Indy pelo mundo levou-o a perseguir — e o que mais poderia ser — o Santo Graal, auxiliado pelo seu pai, interpretado por — quem mais poderia ser — Sean Connery. Sem nunca ter medo de fazer jus ao preço do bilhete, Spielberg recuperou de O Templo da Perdição com algumas travessuras deliciosamente ao estilo de Jones, desde as magníficas trocas de palavras entre pai e filho, “voar, sim. Aterrar, não”, até àquela perseguição de mota.
Apanha-me Se Puderes (2002)
Elegante, hilariante e, por vezes, surpreendentemente comovente, Apanha-me Se Puderes é um sucesso, quer as histórias fantásticas de Frank Abagnale Jr. sejam verdadeiras ou não. Baseado na autobiografia de Abagnale, Apanha-me Se Puderes narra a perseguição que durou anos entre um agente do FBI, interpretado por Tom Hanks, e um carismático vigarista, interpretado por Leonardo DiCaprio, que faz de todo o tipo de esquemas pela América dos anos 60. Acompanhado por uma banda sonora inspirada em filmes de espionagem, da autoria de John Williams, Apanha-me Se Puderes vai inspirá-lo a pedir um martini e a convencer o barman a prepará-lo por conta da casa.
E.T.: o Extraterrestre (1982)
Use todas e quaisquer palavras que usaria para descrever uma aventura de Spielberg: maravilha, admiração, magia, descoberta, emoção. Porque E.T.: o Extraterrestre tem tudo isso e muito mais. O filme — que estreou em Cannes e destronou Star Wars como o filme de maior bilheteira de todos os tempos — acompanha um rapazinho chamado Elliott, interpretado por Henry Thomas, que faz amizade com um extraterrestre perdido e, depois de muitos Reese’s Pieces, o ajuda a regressar a casa. Há uma razão pela qual a imagem de E.T. e do Elliott a voar tem servido fielmente como logótipo da Amblin — a produtora de Spielberg — há mais de 40 anos. Se tivesse de mostrar a um extraterrestre de outro planeta um filme de Spielberg provavelmente seria o E.T..
O Resgate do Soldado Ryan (1998)
Um dos melhores filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg, é um retrato comovente de coragem, bravura e sacrifício, sem a idealização da guerra em tons sépia, ao contrário da maioria dos outros filmes da época. Tom Hanks lidera um grupo de Rangers do Exército que mascam tabaco para enfrentar uma missão de resgate centrada nas relações públicas, com o objetivo de trazer de volta para casa o soldado James Ryan, interpretado por Matt Damon, de algum lugar entre os escombros da Normandia. A cena inicial macabra que retrata o Dia D é lendária, mas todo o filme merece uma saudação.
A Lista de Schindler (1993)
Apesar de Spielberg ter lançado um pequeno filme chamado Jurassic Park em 1993, não é surpresa que A Lista de Schindler tenha conquistado 7 Óscares na cerimónia dos Óscares de 1994 — incluindo na categoria de Melhor Filme e Melhor Realizador. A sua obra-prima a preto e branco é uma adaptação do romance de Thomas Keneally de 1982, A Arca de Schindler, que narra a história de um industrial alemão da vida real chamado Oskar Schindler, que salvou mais de mil vidas judaicas durante o Holocausto. Com interpretações brilhantes de Liam Neeson, Ralph Fiennes e Ben Kingsley, A Lista de Schindler continua a ser tão impactante como há 30 anos. “É o melhor filme que já fiz”, disse Spielberg ao The Hollywood Reporter numa entrevista sobre a história de A Lista de Schindler, em 2024. “Não vou dizer que é o melhor filme que alguma vez farei. Mas, neste momento, é o trabalho de que mais me orgulho”.
Encontros Imediatos do Terceiro Grau (1977)
Na verdade, só Steven Spielberg poderia dar continuidade a Tubarão, com um filme como Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Após o seu sucesso do tamanho de um tubarão branco, Spielberg voltou imediatamente a juntar-se a Richard Dreyfuss para o seu próximo projeto. A história segue Roy Neary, interpretado por Dreyfuss, um homem comum de Indiana que se depara com um OVNI — e rapidamente enlouquece com o que vê. Encontros Imediatos não só capta a nossa obsessão pela vida extraterrestre como compreende, a um nível quase molecular, porque é que nos sentimos compelidos a seguir o desconhecido. E se Spielberg estava a aperfeiçoar o seu estilo, prestes a tornar-se lendário, em Duel e alcançou o sucesso com Tubarão, então Encontros Imediatos dá-nos a sensação de que já estamos a assistir a um mestre em ação. Eis um exemplo concreto: faça-me um favor e volte a ver a cena da perseguição ao OVNI que supera todas as outras — continua a ser impressionante.
Tubarão (1975)
Tubarão praticamente inventou e definiu o conceito de grande sucesso de bilheteira de verão apenas com uma grande dentada — mas isso já todos sabem. É muito mais divertido enumerar um manifesto de citações icónicas: ”Esse chapéu não fica bem, Harry”, ficará para sempre no nosso coração, o delirante capitão de navio interpretado por Robert Shaw e até que ponto políticos intrigantes e ávidos por dinheiro podem sabotar os melhores interesses dos cidadãos que juraram proteger. Mas a verdadeira estrela é Spielberg. O realizador, então com 27 anos, enfrentou com coragem uma produção tão turbulenta que Tubarão é tanto um feito cinematográfico como um testemunho da sua força de vontade.
Jurassic Park (1993)
O clássico de Spielberg que fez com que todas as crianças dos anos 90 tivessem um brinquedo T. Rex enquanto cresciam — e que, não tão secretamente, sonhavam em ganhar a vida a desenterrar ossos de dinossauros. É uma adaptação cinematográfica do romance de Michael Crichton, de 1990. Tudo o que faz de Jurassic Park um dos melhores filmes de Spielberg — e de todos os tempos— é o T. Rex animatrónico em tamanho real e as atuações incrivelmente cativantes de Jeff Goldblum, Laura Dern e Sam Neill. Tudo isto acompanhado, mais uma vez, por uma mensagem avassaladora que nos lembra quem tem sempre a vantagem na batalha entre o homem e a natureza. Há uma razão pela qual nenhuma sequela da série chegou perto dos patamares do filme de 1993 — é um filme que só surge uma vez por geração, até pela sua música tema.
Os Caçadores da Arca Perdida (1981)
Um homem com um chapéu fedora e um casaco de couro caminha com confiança pela selva sul-americana em 1936. Não vemos o seu rosto nos primeiros minutos do filme. Depois, vira-se, estala o chicote para arrancar a arma da mão de outro homem e sai das sombras. Conheça Indiana Jones, um dos maiores heróis de aventura do cinema de todos os tempos. George Lucas e Philip Kaufman conceberam a história de um arqueólogo aventureiro que luta contra os nazis para encontrar a Arca da Aliança, a estrela de cinema e argumentista Lawrence Kasdan escreveu o guião e Harrison Ford conferiu o seu carisma de grande estrela de cinema à personagem Jones. Mas foi Spielberg quem combinou estes elementos e criou magia. Lançado seis anos depois de ter definido o conceito de grande sucesso de bilheteira de verão com Tubarão, Os Caçadores da Arca Perdida mostra o realizador no auge das suas capacidades. Uma obra-prima de cenas virtuosas, enredo cativante e humor perspicaz, Os Caçadores da Arca Perdida é um dos filmes mais perfeitos de sempre.
Traduzido do original, disponível aqui.
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