Editorial | Edição de maio/junho 2026

By José Santana 19 May 2026

Caro Leitor

Quando fazemos algo pela primeira vez, sabemos, ou queremos acreditar, que à segunda vez será mais fácil e o resultado ficará inevitavelmente melhor. Pensei nisso várias vezes enquanto fazíamos a primeira edição da Esquire Portugal.

Agora, enquanto “cozinhámos” a segunda edição, outro sentimento pairou em mim: “e se não ficar tão boa como a primeira?”. Ironia das ironias, depois do que tinha sentido, talvez o ter recebido tantas mensagens de amigos e leitores a elogiar a edição de estreia fez esse sentimento ganhar força. Apesar dos muitos anos no mundo editorial, a minha experiência e segurança não me fez deixar que esse pensamento pairasse na minha cabeça.

Leo Woodall
Élio Nogueira

Alguém que adquire uma primeira edição, fá-lo movido por curiosidade, quando compra a segunda já tem expectativas. “E se esta edição não estiver à altura?” Mas os pensamentos, mesmo os maus, não fazem parar uma redação. Os textos começam a chegar, as sessões fotográficas acontecem, as imagens são entregues. As páginas começam a erguer-se lentamente: aos textos juntam-se fotografias, escolhidas depois de um processo exaustivo, quase obsessivo.

Na correria entre computadores, provas e paginações, encontro tempo para ler. Entre os textos desta edição está a conversa entre Alexandra Prado Coelho e Pedro Mexia sobre fé. Enquanto a lia, senti exatamente aquilo que desejo que o leitor sinta ao ler uma Esquire. O prazer da leitura de um texto que não se espera, nem procura.

Vasco Pereira Coutinho
Branislav Simoncik

Textos tão diferentes uns dos outros, como a conversa com Jorge Mota, sobre a sua carreira e o filme onde encarna Salazar. É com esse pensamento ainda vivo que volto ao ficheiro das capas e revejo as imagens dos shootings de Leo Woodall e Vasco Pereira Coutinho. Apesar de ter estado presente em ambos, há sempre qualquer coisa de novo quando vemos as fotografias pousadas no silêncio do ecrã. E sinto aquela satisfação difícil de explicar: a de perceber que temos imagens que vão ficar para sempre. Fotografias que, mesmo sem entrevistas ou legendas, sobreviveriam pela sua força estética. Vasco e Leo dão rosto a esta edição, duas vidas muito diferentes unidas pela mesma arte, a de encarnar personagens. Aqui, foi-lhes dado outro papel: serem modelos para o olhar das nossas objetivas.

Aos poucos vou sentindo a riqueza desta edição e penso em todos os que tão generosamente contribuíram para ela ser tão rica. Nomes como Carlão, Paulo Pires, Rafael Morais, Ruben Rua, que conseguiu um look completo por 78 euros, na feira da Vandoma, no Porto. Ou Philippe Starck que, depois de responder às nossas perguntas, deixou uma pergunta ao próximo convidado, uma pergunta que me deixou feliz por não ter de ser eu a respondê-la. 

Leo Woodall
Élio Nogueira

Vejo também o trabalho que o artista Binau entrega para o cartaz de cinema, digno de ser emoldurado e muda-se a paginação para permitir isso ao leitor. Sinto também orgulho nas ilustrações que o Nuno da Costa está a desenvolver para a Esquire Portugal.

Mas, como em qualquer revista, seja a edição número 2 ou a 222, existem prazos. Há sempre um momento em que as páginas têm de seguir para impressão. A sensação constante de que ainda pode ficar melhor precisa de ser domada. E isso faz-me pensar no texto “Ainda Posso Fazer Mais”, de Esteban G. Villanueva, presente nesta edição. Um texto sobre o corpo e a permanente sensação de insuficiência. No final, escreve ele, e perdoem-me o spoiler: “Você está a tentar. Continue a tentar. Certifique-se apenas de que está realmente a gostar, porque qual é o sentido de se melhorar, se nunca parece suficiente?

Vasco Pereira Coutinho
Branislav Simoncik

E foi nesse momento que senti, finalmente, que era suficiente.

E aqui está, caro leitor: a segunda edição da Esquire Portugal. Espero que lhe proporcione bons momentos de leitura, descoberta e contemplação.E nós, deste lado, continuaremos a tentar.

Mas isso fica para a próxima edição.

Publicado originalmente na edição #2 da Esquire Portugal, de maio-junho 2026. For the english version, here

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