Summer Heat
Aborreço-me, logo existo.
Estamos na chamada silly season. O calor faz-nos ficar mais lentos e preguiçosos.
Fernando Pessoa disse: “Ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro para ler e não o fazer”. Mas e se tentássemos, este verão, abrir uma exceção e ter o prazer de não ter nenhum dever e ter mais do que um livro para ler? Se tem férias, aproveite para desligar, mas verdadeiramente desligar, viver, nem que seja só por uma semana, como numa época pré-smartphones e Internet. As memórias que tenho das minhas férias da infância, são de um tempo que andava mais devagar, de me chegar a aborrecer. De sentir a brisa a ler um livro, viajar com um mapa de papel na mão, a hipótese de nos perdermos e a emoção de encontrar. Há quem vá hoje a concertos e os veja através de um ecrã de telemóvel, porque sem esse registo sente que não esteve, não aconteceu. Há quem viaje através de um ecrã ou para ele, sem estar verdadeiramente no sítio, de o sentir.

Rúben Dias
Élio Nogueira
Nas últimas semanas tenho vindo de metro para a redação da Esquire. Numa dessas viagens, comecei a observar as pessoas à minha frente, todas estavam a olhar para o telefone, lentamente fui olhando à volta e todas estavam absortas a olhar para o ecrã. Parecia uma cena de Black Mirror, um travelling de câmara onde todos os humanos estavam com a cabeça curvada para essa pequena janela mágica, que os deixa num estado de quase hipnose. Se estivesse a ver a série, acharia um exagero, uma hipérbole visual para nos passar a mensagem. Mas era a realidade à minha frente. Olhei e “julguei” os outros e o estado da humanidade. O quão diferente eu era, até me aperceber, que uns segundos antes da minha observação, eu era mais um a olhar para o ecrã. Mais um a acreditar que estava a ver alguma coisa importante, mais um a acreditar que não está viciado no telemóvel.

Mason Barnes
Luís Monteiro
Desde então, nas minhas viagens de metro, voltei a observar os outros como antigamente, a imaginar as suas vidas, voltei a aborrecer-me por ainda faltarem oito paragens até chegar ao meu destino, voltei a “aborrecer-me” e nesse aborrecer, voltei a pensar em coisas aleatórias sem saber bem como tinha chegado a esse pensamento. O cérebro volta a funcionar, não é apenas um espectador de milhões e milhões de criadores de conteúdo.

Rúben Dias
Élio Nogueira
Nestas férias, volte a si, deixe por uns dias de pensar no estado do mundo, ou o que andam a pôr os seus amigos nas redes. Ponha a Esquire na mala, junte um ou dois livros e faça férias sem nenhum ecrã no meio, volte a olhar para o mundo e para as pessoas à sua volta. E se alguma vez se aborrecer, faz parte, o nosso cérebro precisa disso, tanto como precisamos de férias.

Mason Barnes
Publicado originalmente na edição de julho-agosto 2026 da Esquire Portugal. For the english version, click here.
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Editorial | Edição julho/agosto 2026
16 Jul 2026