Alexey Kondakov só queria divertir-se, quando deu início às suas montagens com fotografias de uma Kiev suja e decadente. Recortados de pinturas neoclássicas, os seus modelos eróticos e religiosos contrariam a depressão urbana com sentido de humor. Mas desde que a Ucrânia foi invadida pelo exército russo, esses anjos e figuras mitológicas de visita à era moderna tornaram-se um símbolo de esperança num país que resiste à destruição.
Sou natural de Donetsk, uma das cidades atualmente ocupadas pela Rússia. Mas não vivo lá desde 2013, altura em que, a pretexto de uma revolta separatista, a região ficou isolada do resto da Ucrânia. Venho de uma família simples, sou filho de um mineiro e de uma engenheira, nunca ambicionei para mim uma carreira artística de renome. A minha mãe esforçou-se por promover um ambiente de diversidade cultural lá em casa. A maior influência que tive foi a formação artística que recebi na Escola de Belas Artes de Donetsk. Ali se incute a dedicação, a perseverança e a paciência, a meu ver fatores importantes para qualquer forma de sucesso.
Levei tempo a superar certas limitações que me foram impostas, como por exemplo a necessidade de distinguir se era designer ou artista. Houve um momento marcante que me ajudou a perceber que posso ser quem eu quiser, sem que tenha de ficar limitado à imagem que tenho de mim mesmo ou dos outros. A vida não me tinha preparado para isso, imaginava apenas que iria subir a escada da carreira profissional, de designer a diretor de arte e assim por diante.
Song of Angel - Modelos recortados de La Vierge aux anges (1881) de William-Adolphe Bouguereau

The Kiss - Modelos recortados de Il bacio (1859) de Francesco Hayez
Em 2014, tive uma espécie de esgotamento no trabalho como diretor de arte. Sentia-me entediado. A navegar pelos feeds do Tumblr, que era então popular, em busca de inspiração, dei com uma pintura de Caesar van Everdingen: Baco sentado num trono, enquanto as ninfas lhe oferecem vinho e fruta. Este grupo lembrou-me contemporâneos a descansarem, enquanto bebem num banco. Era uma imagem de diversão de que tinha saudade. A ideia pareceu-me divertida e nessa mesma noite tentei concretizá-la. No caminho de regresso do trabalho, tirei uma foto com um fundo que me pareceu adequado. Depois, decidi complementar a ideia tornando-a uma pequena série. Reuni outras obras de arte antiga para as quais tirei fotos. O resultado foi uma espécie de passeio pelo meu bairro.
Quando as três primeiras colagens ficaram prontas, cheguei à parte mais difícil de qualquer processo criativo: partilhá-las. Lutei contra a autossabotagem, pensamentos como "isto não vai interessar a ninguém" e coisas do género. Estou muito contente por ter seguido em frente. Para minha surpresa, as colagens foram divulgadas no blogue de um amigo dedicado a comentários irónicos sobre Kiev e rapidamente se espalharam online. Ao fim da tarde, a publicação no Facebook já tinha reunido centenas de partilhas e comentários. Depois de provar esse sucesso, decidi continuar com uma nova série. Gostei do processo e encarei-o como uma espécie de passatempo divertido, sem pensar no que poderia vir a dar.
Modelos recortados de L'Éveil du cœur (1892) de William-Adolphe Bouguereau

Romantic Encounter - Modelos recortados de Romantic Encounter (1864) de Mihály von Zichy
Out of Fuss - Modelo recortado de Girl Reading (1878) de Charles Edward Perugini
As minhas colagens começaram a aparecer em blogs internacionais. As pessoas passaram a referir-se a mim como artista, embora eu ainda me visse como um designer que tinha um projeto paralelo. Também passei a receber pedidos de compra. Não estava preparada para isso, felizmente as circunstâncias levaram-me a descobrir como lidar com a situação. Foi assim que começou uma série de mudanças inesperadas – ligações que nunca imaginei, acontecimentos que só tinha visto nos filmes. Em 2018, deixei o meu emprego tornei-me freelancer e concentrei-me em projetos criativos. No final de 2019, decidi tornar-me artista a tempo inteiro, mesmo antes da pandemia.
Foi uma prova de fé e estou contente por ter conseguido superá-la. A certa altura, senti que tudo estava finalmente a encaixar-se – tinha projetos importantes em andamento, incluindo uma colaboração com a HUGO e o lançamento do meu álbum Imaginary Adventures and Everyone I Met Along the Way. Só que depois começou a guerra e foi um golpe duro, o despertar. Tudo o que tinha construído de repente pareceu-me frágil e perdi a confiança no processo criativo.
Percebi que há muita gente a enfrentar desafios superiores, e que eu ainda tinha espaço para crescer. A catástrofe da guerra criou um vazio que tinha de ser preenchido. Continuei a trabalhar enquanto lutava contra essa perda de confiança, e estou grato de ter encontrado força e imaginação suficientes para construir uma base interior mais estável. Isso permite-me apreciar o presente e ter uma sensação de confiança em relação ao futuro, apesar da incerteza.

FOTOTESSERA - Modelos recortados de Idylle (Dáfnis e Cloé, 1893) de Bellanger Camille Felix

Stop - Modelo recortado de Abend am See (Entardecer à beira do lago, 1901) de Max Nonnenbruch

Suddenly - Modelos recortados de Diana's Maidens (1898) de Edward Robert Hughes
Continuo a viver e a trabalhar em Kiev, procurando formas de ser útil e de apoiar outras pessoas que ainda estejam à procura dessa estabilidade. Tento manter-me disponível para a vida e aproveitá-la. No meu trabalho, continuo a celebrar a vida. Embora já tenha feito algumas tentativas, evito abordar diretamente o tema da guerra. Em última análise, a vida prevalece. Há mais coisas boas do que más, é por isso que a humanidade continua a existir e a evoluir.
No início deste trabalho, observava obras clássicas e imaginava novas situações, depois saía para a cidade e ia à procura de cenários que se ajustassem. Tirava as fotografias principalmente com o telemóvel. Com o tempo, esta abordagem evoluiu – passei a reparar primeiro em ambientes interessantes e só então os relaciono com obras de arte. É como uma deformação profissional: desenvolvi uma compreensão intuitiva da iluminação nas pinturas clássicas, bem como das composições e temas recorrentes. Utilizo ambas as abordagens – partindo da imagem ou do cenário.
O processo tem parecenças com as máquinas de casino: tenho num ecrã o meu arquivo de fotografias e noutro um arquivo de pinturas clássicas. Vou alternando entre os dois. Às vezes não surgem ideias nenhuma; outras vezes consigo criar cinco a dez trabalhos num único dia. Há também ideias que ficam à espera – por vezes até cinco anos – enquanto não encontro o fundo certo, para depois se concretizarem em algumas horas.
Recentemente, tenho prestado mais atenção ao que se passa dentro de mim, e isso começou a sugerir novas formas de concretizar ideias – coisas que antes pareciam invisíveis, mas que, na verdade, são bastante óbvias. De uma forma ou de outra, o que imagino tende a encontrar a sua forma. Estou grato pelo interesse contínuo no meu trabalho e curioso para ver até onde me levará.
Modelos recortados de Baco no trono - ninfas oferecendo vinho e fruta a Baco (c. 1658-70) de Caesar Boetius van Everdingen

Green Light - Modelo recortado de Glaneuse (Ceifeira, 1894) de William-Adolphe Bouguereau
Originalmente publicado na edição de maio de 2026 da Esquire Portugal, disponível aqui.
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