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Adeus smartphones e solidão, como socializar à mesa em 2026

By Vera Prada 30 Apr 2026

Fotografia: Photo Media/ClassicStock/Getty Images

Entre jantares, run clubs, retiros gastronómicos e clubes de leitura, de que forma estamos a redefinir a forma como vivemos em comunidade?

No fundo, as nossas avós tinham razão: quando a vida se complica, a resposta não é instalar uma nova app. Na maioria das vezes, é uma mesa, duas cadeiras, algo para comer e aquela sensação, quase esquecia, de estarmos no mesmo lugar, no mesmo momento, com pessoais verdadeiramente reais. Depois de anos passados a uma distância de segurança, que acabou por se tornar sinónimo de online, parece que estamos a voltar atrás. E fazemo-lo de uma forma curiosa, com um novo léxico sobre o que é viver em conjunto.

No Social Study 2026 da Eventbrite, esta nova forma de conviver tem um nome específico: soft socialising. Ou seja, uma socialização suave, sem pressão. As regras são simples e funcionam precisamente por isso: fazer algo de que se gosta em conjunto com outras pessoas, mas é cada um que decide a profundidade da relação. Pode-se manter superficial, pode-se criar uma relação de confiança, pode-se desaparecer por um mês e regressar sem ter de dar explicações. Se houver comida envolvida, ainda melhor.

Chega de noites de espetáculos: a nova maneira de socializar é mais descontraída e passa pela mesa

Deixámos para trás os eventos que exigiam horas de preparação. A tendência inverteu-se: hoje, parece que o que mais precisamos é o contacto humano no tempo e no espaço. O relatório da Eventbrite diz, sem rodeios, que as pessoas querem "festas de bairro onde os vizinhos se tornam amigos" e espaços onde "moldar o momento em vez de representar para o momento". A razão para tudo isto — parece um paradoxo, mas não é — é a solidão.


Quase um quarto dos jovens entre os 18 e os 29 anos afirma, de facto, sentir-se sozinho e a maioria diz querer participar em mais eventos IRL (In Real Life), este ano. O Business Insider resume isto numa frase que parece ser dita num tom baixo, mas em coro: "Estamos todos no mesmo barco. Todos sentem alívio ao perceber que não são os únicos a sentir-se assim tão sozinhos." Anna Bilych, fundadora da Les Amis, uma app que promove amizades entre mulheres através de eventos ao vivo, confirma: "De acordo com os nossos dados, a principal motivação que leva as utilizadoras a participar é combater a solidão. Esta tornou-se uma característica típica da nossa geração, sobretudo devido à grande mobilidade que caracteriza os Millennials e a Geração Z. Assim, procurar experiências partilhadas ao vivo é uma forma de criar comunidades no local onde se escolheu viver".

O que é que a comida tem a ver com tudo isto? Tudo (e nada)

Os italianos têm uma resposta histórica para quase todas as questões existenciais: vamos comer qualquer coisa. Não é por acaso que muitos dos eventos mais concorridos do país passam pela mesa. Mesmo que não seja o objetivo do encontro, acaba por se tornar nisso. "O nosso começou como um clube de corrida. Começámos a prever sempre um momento de convívio. Chegámos a um ponto em que, hoje, há quem não corra e venha apenas para comer", conta Francesco Giombini, fundador do Amor Run Club, um clube de corrida romano que fez de "eat pasta, run fasta" o seu mote.


Também nos retiros gastronómicos de Sara Porro e Myriam Sabolla, a cozinha é "mais um meio do que um fim": durante dois ou três dias, cozinha-se e come-se em conjunto, partilha-se tempo e espaços, descobrem-se locais e produtores. "É uma forma de nos reconectarmos offline", contam, "uma experiência de viagem em grupo que combina convívio, intercâmbio cultural e também uma pequena renovação pessoal".

Cortesia Myriam Sabolla e Sara Porro

Comida, mas não só: o regresso às coisas normais feitas em conjunto

O mais interessante é que o soft socialising não é uma fuga gourmet permanente. É, simplesmente, o regresso às atividades normais feitas em conjunto. O Barclays constata que quase um terço dos adultos mudou a forma de sair no último ano, e, entre os 18 e os 34, muitos combinam o convívio com exercício físico ou eventos relacionados com o bem-estar. A tecnologia não desaparece: muda de papel. Já não é o lugar onde vivemos, mas volta a ser a ferramenta com que descobrimos para onde ir. Isso também se vê em Parma, onde as Silent Book Parties reúnem até 100 pessoas a cada duas semanas: "O silêncio ajuda a não olhar para o telemóvel", conta a fundadora Roberta Bovaia. "As redes sociais servem-nos para comunicar, mas a razão pela qual as pessoas participam é desejo de coletividade: partilhar uma paixão e ter um momento para estarem juntas".


Cozinhe, leia, corra, faça cerâmica. Não para se tornar alguém, mas para voltar a ser alguém, com os outros. O Guardian chama-lhes "cosy hobbies" e já os destacava no final do ano passado como pequenos atos de resistência contra a fadiga social. Em 2026, socializar volta, resumidamente, à sua escala humana: de forma lenta e não performativa, com atividades que preenchem silêncios e reconstroem comunidades. E talvez seja precisamente este o ponto: não estamos à procura de pessoas com quem fazer match — estamos à procura de novos contextos para as conhecer.

Traduzido do original, disponível aqui.

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