Fotografia: Juankr
Nem uma mandíbula perfeita, nem abdominais impossíveis. O ator britânico encara uma nova masculinidade que desafia o algoritmo da beleza masculina e devolve o encanto ao caráter, à personalidade e à autenticidade. O seu impacto espelha mudanças nas tendências de cabelo, grooming, medicina estética e até de treinos no ginásio.
A esta altura, ninguém duvida que Jonathan Anderson é o novo rei Midas da moda, capaz de transformar em ouro tudo — e todos — em que toca. A sua forma particular de entender a beleza permitiu-lhe perceber, antes de mais ninguém, o potencial do ator Josh O'Connor, nascido a 1990, em Southampton, no Reino Unido, quando, em 2018, o nomeou embaixador da Loewe, marca da qual era, na altura, diretor criativo. Não é de admirar que agora, à frente da Dior, tenha querido levar consigo o seu rapaz de ouro do mundo da representação, nomeando-o embaixador global da maison francesa no início deste ano.
O ator ganhou fama pela sua interpretação do príncipe Carlos em The Crown — pela qual ganhou um prémio Emmy e foi nomeado para um BAFTA —, embora o seu rosto já fosse familiar graças aos seus papéis em Peaky Blinders ou em Os Durrell. No entanto, foi Rivais, de Luca Guadagnino — com Jonathan Anderson responsável pelo guarda-roupa —, que acabou por elevá-lo ao estatuto de ícone.

Cortesia Dior
Josh O'Connor contra o algoritmo da beleza masculina: o poder de dizer não aos padrões clássicos
Josh O’Connor é um ícone diferente de todos os outros. O ator britânico não possui a mandíbula geometricamente perfeita que, durante anos, tem sido motivo de obsessão no TikTok. Também não parece ter definido os seus abdominais no ginásio, e o seu rosto está longe de se enquadrar nos padrões clássicos de beleza ou na simetria com que tantas vezes se compara celebridades como Brad Pitt.
A comparação com Paul Mescal é inevitável, embora também demasiado óbvia. Ambos representam uma masculinidade contemporânea que deslocou o foco da perfeição para algo mais evasivo: o caráter. Talvez Mescal tenha aberto a porta a uma nova sensibilidade — atlética em vez de hipertrofiada —, mas O'Connor parece ter levado a tendência um passo mais além.
O verdadeiro efeito Josh O'Connor tem mais a ver com um fenómeno sociológico do que com uma tendência estética. É uma resposta ao desânimo coletivo face aos corpos esculpidos, aos rostos fabricados em série e à sensação permanente de que tudo — incluindo a atratividade — devia tornar-se um projeto de melhoria contínua.
Os especialistas consultados para este artigo concordam: a perfeição está a perder prestígio e a personalidade volta a ganhar valor.
O efeito Josh O'Connor no ginásio: o adeus à perfeição artificial
Durante décadas, a masculinidade ideal teve um corpo muito específico: grande, definido e moldado em treinos. Para Sergio López López, treinador, fisioterapeuta e licenciado em Atividade Física e Saúde, a questão não é que esse modelo tenha desaparecido, mas que deixou de ser o único possível.
“Antes, parecia existir um único ideal muito dominante: grande, magro e musculado. Agora vemos mais modelos: atlético, esguio, funcional, elegante, desportivo ou natural. Essa diversidade pode ser positiva se reduzir a pressão para nos encaixarmos num único molde”.
O interessante é que a diferença não é apenas física. “O padrão anterior transmitia disciplina extrema, controlo e exibição física. Este novo modelo transmite mais naturalidade, estilo, mobilidade e uma menor obsessão pela musculatura visível. Não é necessariamente um corpo menos cuidado; é um corpo menos hipertrofiado e condicionado pela cultura do ginásio-espelho”.
Sérgio afirma que também está a mudar a forma como os homens falam dos seus objetivos quando treinam. “Cada vez mais homens expressam objetivos como ser forte, ter energia, movimentar-se bem, ter um aspeto definido sem serem enormes ou envelhecer bem. Isto é interessante porque desloca o foco do tamanho muscular para a função, a saúde e a sustentabilidade”. E resume todo o fenómeno com uma frase: “O novo ideal masculino não é parecer maior, mas sim parecer mais capaz”.
O efeito Josh O'Connor na beleza masculina: a coerência da aparência face aos rostos uniformes
Se o corpo masculino está a mudar, o rosto também. Será este o início do fim dos rostos uniformes que triunfam nas redes sociais? Esperemos que sim. Mandíbulas marcadas, maçãs do rosto exageradas e peles sem textura.
Para Teresa de Miguel Miró, fundadora da Beldon e da linha de cosmética Beldon Essentials, a oscilação está a voltar. “Os homens já não procuram necessariamente uma transformação visível nem uma imagem excessivamente polida, procuram ter melhor aspeto sem que isso se note e sem perderem a sua identidade. Há uma nova sensibilidade em relação à naturalidade e um ideal de beleza ligado ao caráter e à expressão”.
A empresária acredita que figuras como Josh O'Connor se enquadram perfeitamente nesse novo paradigma. “Estamos perante um rosto com personalidade, longe de uma perfeição excessivamente simétrica e que foge do artificial”.
A reflexão que explica grande parte do encanto contemporâneo de atores como O'Connor, Paul Mescal ou Jeremy Allen White é o facto de “um rosto interessante não tem de ser perfeito; na verdade, muitas vezes acontece exatamente o contrário. Consegue imaginar Sean Penn ou Javier Bardem com um rosto completamente simétrico e sem uma única ruga? O seu encanto sempre residiu nessa imperfeição que os torna únicos”, diz.
Esta tendência reflete-se também nas consultas de estética. “A transformação evidente perdeu o seu encanto, especialmente entre quem procura resultados elegantes. O clássico “que não se note” continua mais atual do que nunca”. E conclui: “O homem de 2026 quer parecer-se consigo mesmo. E isso diz muito sobre nós, também enquanto sociedade”.
O Dr. Carlos Gómez Zanabria, médico estético, concorda com este diagnóstico. “Estamos a vivenciar uma evolução no sentido de um conceito de atratividade muito mais amplo e realista. Durante anos, predominou uma estética padronizada, baseada na simetria extrema e em traços muito definidos. No entanto, cada vez mais homens valorizam a naturalidade, a personalidade e a coerência entre a sua aparência e quem são”.
Para o Dr. Carlos, o caso de O'Connor é especialmente significativo. “[O ator] transmite personalidade, segurança e uma imagem genuína. São qualidades que criam uma ligação emocional e que muitas pessoas consideram mais atraentes do que uma beleza convencional ou excessivamente perfeita”.
O médico insiste que a procura mudou radicalmente. “Cada vez menos pacientes querem parecer-se com alguém e cada vez mais pacientes querem ter uma melhor aparência sendo eles próprios”.
E acrescenta: “A melhor medicina estética é aquela que passa despercebida e respeita a identidade de cada pessoa”. Não é por acaso que os tratamentos mais procurados atualmente estão relacionados com a qualidade da pele, a prevenção e a regeneração.
“O objetivo já não é que alguém repare num tratamento, mas sim que perceba uma imagem mais descansada, saudável ou fresca”. O objetivo? “Melhorar sem transformar, harmonizar sem padronizar e cuidar sem apagar a identidade”.
O efeito Josh O'Connor no grooming: o encanto de parecer que não há esforço
Porque, se há algo que Josh O'Connor, Paul Mescal ou os novos ícones masculinos têm em comum, é o facto de projetarem uma imagem cuidada sem transmitir obsessão. Consuelo Mohedano, diretora de Formação da Shiseido, observa isso claramente no mundo dos cuidados da pele. “Mais do que uma ruptura, estamos a assistir a uma evolução para algo que o homem já valorizava: fazer pouco, mas que resulte”.
E acrescenta: A mudança é mais cultural do que comercial. Antes, o ideal era mais construído, mais estético e até algo a que se aspirava; agora é mais descontraído, próximo e autêntico”. Para a diretora, trata-se de “uma nova forma de cuidar de si que dá prioridade a ter boa aparência sem parecer que se fez um esforço excessivo”.
A mesma ideia surge na análise de Ana Martínez, stylist capilar e gestora de formação da Jean Louis David. “Já não se trata de dominar o cabelo ou de o forçar a adotar uma forma determinada, mas sim de o acompanhar e realçar as suas características”.
Sobre o próprio O'Connor, observa: “A sua imagem caracteriza-se por uma combinação equilibrada de naturalidade, textura e sofisticação”. E resume: “A sofisticação já não está necessariamente ligada à perfeição ou ao excesso de estrutura, mas sim à capacidade de realçar aquilo que nos torna únicos e autênticos”.
E talvez Josh O'Connor não seja o novo Paul Mescal. Talvez ele e outros atores da sua geração sejam simplesmente os primeiros ícones de uma época que decidiu que a perfeição é sobrevalorizada.
Traduzido do original, disponível aqui.
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