Cultura

A Guerra de Tróia: a verdade por trás de “A Odisseia” de Christopher Nolan

By Matt Blake 03 Aug 2026

Fotografia: Melinda Sue Gordon / Universal Pictures

Uma análise aprofundada dos fundamentos históricos do poema épico de Homero.

Tal como tantas histórias antigas, tudo começou com uma maçã. Adão e Eva comeram uma, a Branca de Neve comeu uma e o mesmo aconteceu com Páris, príncipe de Tróia. Provavelmente todos teriam ficado melhor se tivessem simplesmente deixado as maçãs em paz.

No caso de Páris, ofereceu uma maçã à deusa Afrodite como símbolo da sua beleza, e a deusa retribuiu-lhe com a mulher mortal mais bela do mundo — que, por acaso, já era casada. Seguiram-se um cerco, um cavalo de madeira, uma cidade em chamas e uma guerra de dez anos travada com sangue e bronze.

Nem tudo foi mau. Sem ela, não haveria a Odisseia de Homero. E sem essa, não haveria A Odisseia de Christopher Nolan.

Melinda Sue Gordon/Universal Pictures

Mas eis o que se passa com a Odisseia de Homero: trata-se, na verdade, da Guerra de Tróia, sem ser realmente sobre ela. A Ilíada abrange apenas um curto período do décimo ano da guerra; a Odisseia aborda as suas consequências. Os combates são descritos principalmente em canções e conversas durante o jantar. Assim, na verdade, trata-se apenas de um recurso narrativo para levar Ulisses a empreender a viagem de regresso a casa.

Mas nunca ficamos a saber a história toda — como tudo começou, quem lutava contra quem, ou por que razão uma guerra por causa de uma mulher acabou por durar, de alguma forma, uma década.

Por isso, eis realmente o motivo da Guerra de Tróia — se ficou a pensar nisso depois de ver o filme.

Tudo começa com uma maçã

A primeira coisa a dizer é que a Guerra de Tróia, tal como a descrevem os poetas, é um conflito fictício. Algo semelhante pode ter acontecido em algum momento da história, mas a versão de Homero sobre a guerra é um mito — um conto popular transmitido e reformulado por gerações de bardos cantores.

Tudo começou num casamento. Peleu, um rei mortal, ia casar-se com Tétis, uma deusa do mar — uma união tão importante que todos os deuses e deusas do Olimpo foram convidados. Exceto uma: Éris, como deusa da discórdia e da contenda, era conhecida por estragar a festa.

No entanto, estava tão chateada que se intrometeu na festa e atirou para a multidão uma maçã dourada com a inscrição: "Para a mais bela".

Três deusas — Hera, Atena e Afrodite — decidiram todas que a maçã lhes era destinada, e então seguiu-se uma discussão no casamento.

As três deusas entraram em conflito. Zeus, sensatamente, recusou-se a escolher uma vencedora e enviou-as a Páris de Tróia, a quem foi ordenado que escolhesse quem fosse mais agradável à vista. Mas antes que ele pudesse proferir o seu veredicto, todas as três tentaram suborná-lo: Hera ofereceu-lhe domínio, Atena a vitória na guerra e Afrodite a mulher mortal mais bela da Terra, o seu nome era Helena de Esparta, a esposa do rei Menelau.

Um sequestro à grande e à realeza

Páris fez a sua escolha e partiu imediatamente para Esparta para receber o seu prémio.

Páris era, segundo relatos antigos, um dos verdadeiros mulherengos da mitologia. O escritor grego Filóstrato afirma que Páris não permitia que a sujidade se acumulasse no seu cabelo, nem mesmo no campo de batalha, usava sombra nos olhos, esmaltava as unhas e vestia peles de pantera nos ombros.

Helena, por sua vez, é descrita como a própria imagem da beleza. A sua beleza foi invocada de forma célebre pelo rival de Shakespeare, Christopher Marlowe, em Doutor Fausto: “Era este o rosto que lançou mil navios, (...) E incendiou as torres sem cume de Ílio?”.

Páris chegou a Esparta como convidado de Menelau. Mais tarde, enquanto o seu anfitrião se encontrava ausente em Creta para o funeral do avô, aproveitou a oportunidade e partiu para Tróia com Helena.

Existem versões contraditórias desta parte da história. Em algumas, Helena foge com Páris; noutras, é raptada.

Seja como for, Afrodite — a deusa do amor — fez com que Helena se apaixonasse por Páris, lançando um feitiço divino sobre o seu coração.

Helena: uma raptada crónica nascida de um ovo

Este não foi o primeiro rapto de Helena.

De facto, tal como relatado por vários autores gregos e romanos antigos, como Homero, Eurípides, Virgílio e Ovídio, Helena era uma das filhas de Zeus — concebida, segundo a versão mais estranha da história, depois de Zeus ter seduzido a sua mãe, Leda, assumindo a forma de um cisne. Diz-se que Helena nasceu de um ovo, sendo irmã de Clitemnestra, Castor e Pólux.

A sua famosa beleza causou problemas muito antes de Tróia. Quando era criança, ou, em algumas versões, uma adolescente, foi raptada pelo herói ateniense Teseu — o da história do Minotauro —, que queria casar-se com ela assim que atingisse a maioridade. Os seus irmãos, Castor e Pólux, invadiram Ática e resgataram-na.

Em retrospetiva, foi um treino para o que estava para vir: quando Páris chegou, Helena já tinha passado grande parte da sua vida a ser disputada, quer ela quisesse quer não.

O juramento de Tíndaro

De volta a Tróia, Menelau estava, compreensivelmente, bastante perturbado com o rapto da sua esposa. Tinha sido o próprio a conquistar a sua mão entre uma multidão de pretendentes.

Quando Helena atingiu a maioridade, todos os reis e príncipes elegíveis da Grécia queriam casar-se com ela. Eram tantos, na verdade, que o seu pai, Tíndaro, temia que quem quer que fosse escolhido provocasse uma guerra com os restantes. Assim, seguindo o conselho de Ulisses, fez com que todos os pretendentes fizessem primeiro um juramento: independentemente de quem casasse com Helena, os restantes defenderiam esse casamento caso fosse alguma vez ameaçado.

Menelau venceu porque era o mais rico e levou Helena para Esparta. Assim, quando Páris a raptou, Menelau invocou o juramento.

O que foi o cerco de Tróia e que papel desempenhou Agamenon nesse acontecimento?

Agamenon, interpretado por Benny Safdie no filme A Odisseia, de Nolan, era irmão de Menelau. Como rei de Micenas e o governante mais poderoso da Grécia, assumiu o comando da frota combinada — em parte por ambição, em parte porque a esposa raptada do seu irmão deu sentido a toda a expedição.

Isso custou-lhe caro antes mesmo de zarpar. Preso em Áulis, sem vento para lançar os seus navios, Agamenon foi informado de que os deuses exigiam um sacrifício: a sua própria filha, Ifigénia. Agamenon acatou a exigência – uma decisão que acabaria por levá-lo a ser morto pela sua esposa, mas isso é outra história.

Seguiram-se dez anos de cerco, a maior parte dos quais num impasse junto às muralhas de Tróia. A Ilíada abrange apenas um curto período do décimo ano, desencadeado pela desavença entre Agamenon e Aquiles por causa de uma mulher cativa, Briseida. Aquiles recusou-se a lutar, os gregos estiveram prestes a perder sem ele e foi necessária a morte de Heitor, a própria morte de Aquiles e um último estratagema para finalmente pôr fim à guerra.

Melinda Sue Gordon/Universal Pictures

O cavalo de Tróia

Após dez anos, os gregos não conseguiram tomar Tróia pela força – por isso, recorreram ao ardil. Construíram um cavalo de madeira gigante, esconderam os seus melhores soldados no seu interior e fingiram partir de navio, deixando o cavalo para trás como oferenda a Atena. Homero mal aborda esta parte – o relato mais completo e dramático provém de autores romanos que escreveram séculos mais tarde, como Virgílio.

Em A Odisseia, de Nolan, vemos o cavalo deitado, meio submerso na praia, como a Estátua da Liberdade no final de O Planeta dos Macacos – ecoando, talvez, a queda de uma civilização.

Na versão de Virgílio, um homem é deixado para trás à vista de todos: Sinon, um soldado grego colocado como isco para contar aos troianos uma história comovente sobre ter sido abandonado como sacrifício aos deuses. Ele diz-lhes que o cavalo foi deixado como um presente para a deusa Atena, pelo que, se o destruíssem, isso iria enfurecer os deuses. Tinham de o guardar. Por outro lado, se o arrastassem para dentro, Tróia ganharia a sua proteção.

E foi exatamente isso que fizeram. Naquela mesma noite, os gregos escondidos saíram, abriram os portões e deixaram entrar o resto do exército.

Príamo, rei de Tróia, foi morto no seu próprio altar; as mulheres da cidade foram reduzidas à escravidão, os homens massacrados e Astiánax, o filho pequeno de Heitor, foi atirado das muralhas da cidade. Tróia foi reduzida a cinzas.

Mas a história não terminou aí.

Nostoi significa regressos a casa e era também o título de um poema perdido do Ciclo Épico, dedicado às viagens de regresso a casa dos soldados gregos.

Nenhum deles regressou a casa sem percalços. Agamenon foi assassinado pela sua esposa no dia em que chegou. Menelau foi desviado da sua rota durante anos (embora tenha conseguido recuperar Helena). Ajax, o Menor, afogou-se. Ulisses demorou uma década.

A queda de Tróia não foi, afinal, um verdadeiro fim — foi apenas o início de um tipo diferente de guerra, travada contra deuses, monstros e o próprio mar. É essa a história que A Odisseia conta. E é a história que Nolan está a contar agora.

Traduzido do original, disponível aqui.

Matt Blake By Matt Blake

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